Orcas observadas pela primeira vez a matar baleias-azuis, os maiores animais da Terra

Os especialistas dizem que esta descoberta pode ser sinónimo de boas notícias para ambas as espécies.

Publicado 28/01/2022, 11:53
Orcas

 

As orcas (aqui fotografadas nas Caraíbas) vivem em grupos familiares que trabalham em conjunto para caçar.

Fotografia por Brian Skerry, Nat Geo Image Collection

Tudo começa com uma perseguição – doze orcas a nadar atrás de uma presa até que esta cede à exaustão. Quando o alvo finalmente abranda, juntam-se mais orcas à caçada, com os seus inúmeros conjuntos de dentes a rasparem e a morderem a carne do animal perseguido. Passados alguns minutos, os predadores trabalham em conjunto para forçar a sua presa a mergulhar. E já não regressa à superfície.

Esta não é uma caçada qualquer. Este evento, observado em Bremer Bay, no sudoeste da Austrália, assinala a primeira vez em que humanos documentam orcas a caçar e a comer uma baleia-azul, o maior animal do planeta.

Ao todo, os cientistas descrevem três mortes de baleias-azuis – em março e abril de 2019 e em março de 2021 – num novo estudo que foi publicado esta semana na revista Marine Mammal Science.

“Este é o maior evento predatório do planeta: o maior predador de topo a derrubar a maior presa”, diz Robert Pitman, coautor do estudo e ecologista marinho do Instituto de Mamíferos Marinhos da Universidade de Oregon. “Já não temos dinossauros e, para mim, enquanto biólogo de baleias e zoólogo, isto é uma coisa extraordinária.”

Já tinham sido documentadas orcas a alimentarem-se de quase todas as outras espécies de baleias grandes pelo mundo inteiro, embora a maioria desses ataques tenham sido contra crias mais novas. Estes eventos também são cada vez mais registados por observadores amadores com telemóveis ou drones: e num dos vídeos filmados com drones, captado em 2017 em Monterey, na Califórnia, vemos orcas a atacar uma baleia-azul, mas não a matam.

Um grupo de orcas ataca uma baleia-azul

“Era apenas uma questão de tempo até que alguém fizesse uma observação como esta”, diz David Donnelly, investigador marinho do Instituto de Pesquisa Dolphin da Austrália, que dirige o projeto de ciência cidadã Killer Whales Australia.

E as probabilidades de acontecer algo assim em Bremer Bay eram boas, diz David, já que as orcas visitam consistentemente o local todos os anos.

O fundo do mar em Bremer Bay tem um desfiladeiro profundo que projeta água fria rica em nutrientes para a superfície e sustenta uma cadeia alimentar extraordinariamente diversificada – incluindo fitoplâncton, atum-rabilho, salmão, cachalotes, as raras baleias-de-bico e inúmeras espécies de tubarões.

“Tudo o que passa por aquela região pode acabar na boca de uma orca”, diz David Donnelly, que não participou no novo estudo.

O trabalho de equipa é fundamental

Em duas das caçadas descritas no estudo, as orcas atacaram animais jovens, incluindo uma baleia que parecia ser uma cria de um ano. Durante a terceira caçada, as orcas abateram uma baleia adulta aparentemente saudável que rondava os 20 metros de comprimento. As orcas maiores medem pouco mais de nove metros.

Os cientistas não conseguiram recolher amostras de qualquer uma das baleias caçadas pelas orcas, mas com base na época do ano, na localização e direção em que as baleias se estavam a mover, a equipa supõe que eram baleias-azuis-pigmeu em migração, uma subespécie mais pequena que, no entanto, atinge os 24 metros de comprimento.

Portanto, como é que uma orca consegue superar um animal que tem mais de duas vezes o seu tamanho? É uma questão de família: as orcas vivem em grupos muito unidos que são liderados pelas avós, mães ou tias. As orcas aprendem umas com as outras e cooperam para sobreviver. Por exemplo, nestas caçadas participaram cerca de 50 indivíduos, e vários grupos mais pequenos trabalharam em conjunto, muitas vezes trocando de papéis, para morder e eventualmente afogar as suas presas.

“Estes grupos de orcas têm uma longevidade semelhante à dos humanos ou até superior, e é por isso que caçam juntos cooperativamente durante décadas e décadas”, diz Robert Pitman, comparando a estratégia de caça das baleias à dos lobos. “Quando se coopera com os outros, aprende-se muito sobre trabalhar em equipa.”

Uma orca morde a língua – uma das suas partes preferidas – de uma cria de baleia-azul. Esta orca, provavelmente uma fêmea adulta, esteve envolvida nos três ataques descritos no trabalho de investigação.

Fotografia por John Daw, Australian Wildlife Journeys

Boas notícias para ambas as espécies?

Robert Pitman considera que estas caçadas também podem ser um sinal positivo para as populações de ambas as espécies. A população global de orcas, animais que vivem em todos os oceanos mundiais, é desconhecida. A União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN) classifica a baleia-azul em perigo de extinção devido à atividade baleeira agressiva feita ao longo do século XX, mas os seus números têm vindo a aumentar constantemente desde a década de 1960, quando a espécie foi finalmente protegida ao nível global. A UICN estima que atualmente podem existir entre 5.000 e 15.000 baleias-azuis vivas no mundo inteiro.

Robert Pitman diz que é possível que as orcas comam baleias-azuis desde sempre, mas quando o número de baleias-azuis desceu abruptamente durante a era da pesca baleeira, as orcas tiveram de mudar para presas diferentes.

“Portanto, estas caçadas observadas recentemente podem ser evidências de que as orcas retomaram um hábito antigo à medida que uma antiga fonte de alimento também regressa.”

Robert acrescenta que é pouco provável que os ataques feitos pelas orcas representem uma ameaça existencial para a recuperação das baleias-azuis, embora espere que estes incidentes aumentem à medida que ambas as populações expandem os seus números.

Robert também está curioso para perceber de que forma é que as orcas podem alterar a dinâmica do ecossistema marinho na Austrália Ocidental. Por exemplo, algumas baleias, como as baleias-jubarte e as baleias-da-gronelândia, podem mudar por completo as suas rotas de migração para evitar as orcas.

“Ninguém atualmente vivo na Terra viu como era o oceano antes de começarmos a caçar baleias”, diz Robert Pitman. As orcas da Austrália podem estar a revelar um vislumbre de como era o oceano antigamente – com dentes e tudo o resto.
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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