Surto mortal de gripe das aves ameaça vida selvagem em Israel

Este surto foi ‘a pior coisa que aconteceu à vida selvagem’ na história do país.

Publicado 12/01/2022, 12:12
Surto de gripe das aves em Israel

Um surto de gripe das aves em Israel matou milhares de grous selvagens e pode estar a colocar em risco espécies de aves ameaçadas. Trabalhadores do Ministério da Agricultura em fatos de proteção têm removido os corpos de grous mortos das águas rasas e lamacentas.

Fotografia de Ilia Yefimovich/picture alliance, Getty Images

Israel cancelou o último mês da sua época de cinco meses de caça na tentativa de conter um grave surto de gripe aviária que já matou 8.000 grous selvagens e soou o alarme para uma infeção generalizada entre as espécies de aves ameaçadas.

A Ministra do Ambiente, Tamar Zandberg, disse no Twitter em dezembro que o surto de gripe aviária H5N1 é “a pior coisa que aconteceu à vida selvagem” na história de Israel e que a extensão total dos danos “ainda não está clara”.

A interdição na caça imposta em janeiro vai ajudar a limitar as interações entre humanos e animais selvagens. O ministério diz estar preocupado porque os caçadores podem propagar involuntariamente a doença carregando o vírus no seu calçado, nos pneus dos seus carros ou através dos cães que usam para recolher os patos e pombos que caçam. Para além disso, as outras aves que são perturbadas pelos caçadores podem voar para outros locais, espalhando assim o vírus. (O ministério não respondeu aos pedidos para comentar se existem algumas evidências de que os caçadores já contribuíram para esta forma de propagação.)


O vírus H5N1 foi detetado pela primeira vez em explorações aviárias israelitas há cerca de dois meses e desde então foi confirmado como a causa da morte entre os grous comuns, com um quinto da população destas aves majestosas de pescoço comprido já infetada, segundo as autoridades israelitas.

No outono, os grous migram da Rússia, Ucrânia e Escandinávia para passar o inverno na Etiópia e noutros lugares, incluindo em Israel, onde dezenas de milhares de grous aguardam pela primavera, e muitos ficam em torno de um lago no Vale de Hula. Nesta região no norte de Israel, trabalhadores com fatos de proteção estão a retirar os corpos de grous da água e das áreas circundantes.

Tal como acontece com os vírus da gripe humana, existem muitas estirpes de gripe das aves, algumas mais mortais do que outras. O vírus H5N1 está particularmente virulento nesta época gripal e já saltitou por toda a Europa, onde matou milhares de gansos-de-faces-brancas na Escócia no mês passado, espalhando-se recentemente para a América do Norte.

A gripe aviária também pode afetar outros animais, incluindo os que comem aves infetadas ou seus restos mortais. Para ajudar a controlar a disseminação em Israel, foram abatidos cerca de um milhão de perus, patos e galinhas criados em cativeiro, de acordo com o Ministério da Agricultura do país.

As pessoas raramente contraem H5N1 e, normalmente, isso só acontece após uma exposição prolongada a aves infetadas. A última infeção humana relatada por H5N1 aconteceu na Índia em julho de 2021. Até agora não foram detetados casos humanos em Israel, mas foi detetado um caso no sudoeste de Inglaterra na semana passada e relatado à Organização Mundial de Saúde, embora a estirpe específica ainda necessite de identificação. As orientações governamentais israelitas aconselham que as aves e os ovos são seguros para comer desde que sejam devidamente cozinhados.

A proibição de caça é uma “medida de prevenção” para proteger tanto a vida selvagem como as pessoas, diz Yoav Perlman, diretor da BirdLife Israel, uma organização sem fins lucrativos da Sociedade para a Proteção da Natureza em Israel. Esta organização tem ajudado a contar os milhares de grous mortos. Yoav Perlman diz que há casos positivos do vírus noutras aves selvagens – principalmente em pelicanos, garças e algumas aves de rapina.

“As mortes de grous estão a diminuir, mas estamos preocupados que a gripe aviária possa atingir as aves de rapina, sobretudo as águias no Vale de Hula e noutros vales onde os grous se concentram”, diz Yoav Perlman. O Vale de Hula é um local importante de inverno para as águias-malhadas e águias-imperiais-orientais, que estão mundialmente ameaçadas de extinção, e para os pigargos, que estão ameaçados em Israel. As águias são animais necrófagos e já foram avistadas a alimentarem-se de grous mortos no Vale de Hula.

As outras aves ameaçadas de extinção que também estão em risco em Israel incluem o pato de cabeça branca – cerca de 10% da sua população mundial passa o inverno em Israel em reservatórios de água que também são usados por grous e por outras aves aquáticas. Para além disso, diz Yoav Perlman, a abetarda-de-macqueen, que está ameaçada a nível mundial, partilha locais de alimentação e poleiro com grous na região norte do deserto de Negev.

A origem do vírus mortal

O vírus H5N1 foi detetado pela primeira vez em gansos na China em 1996, e em humanos em 1997, durante um surto das aves em Hong Kong. Nos anos que se seguiram, o vírus foi detetado em vários países pelo mundo inteiro, surgindo em Israel em março de 2006, onde agora tem uma ocorrência praticamente anual. Mas as autoridades israelitas dizem que este surto é diferente, porque está a provocar uma enorme taxa de mortalidade entre as aves infetadas.

“Ninguém sabe porque é que desta vez é tão grave”, diz o ornitólogo Yossi Leshem, professor emérito da Universidade de Telavive. Yossi Leshem diz que os humanos podem ter ajudado a alimentar parte da cadeia de transmissão. Um dos programas governamentais de alimentação de aves foi projetado para evitar que os grous comessem as plantações dos agricultores, com funcionários que plantam milho para os grous comerem, provocando densas concentrações de aves numa pequena área. “Isto aumentou certamente a taxa de infeção deste surto nas aves”, acrescenta Yoav Perlman.

“Daqui para a frente, as autoridades de conservação e partes interessadas precisam de pensar bastante sobre a alimentação e o papel representado por essa alimentação”, diz Yoav Perlman. Por enquanto, as autoridades estão atentas a mais sinais do vírus H5N1. “Este é de longe o maior evento de gripe das aves em grous em todo o mundo. É uma coisa sem precedentes e precisamos de investigar o que aconteceu.”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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