Corujas minúsculas que vivem em tocas encontram um lar mais seguro com a ajuda de cientistas

As corujas-buraqueiras ocidentais perderam a maior parte das suas pastagens devido ao desenvolvimento na Califórnia, mas uma nova investigação mostra que a sua realocação pode funcionar.

Por Rebecca Dzombak
Publicado 11/02/2022, 09:39
Coruja-buraqueira

Com apenas 25 centímetros de altura, as corujas-buraqueiras ocidentais (na imagem vemos uma coruja fotografada no condado de San Diego) são as únicas corujas na América do Norte que vivem no solo.

Fotografia por San Diego Zoo Wildlife Alliance

Colleen Wisinski tem um trabalho difícil: realocar pequenas e adoráveis corujas antes que os seus lares sejam devastados pelo desenvolvimento urbano na Califórnia.

Os construtores são obrigados pelo estado a remover das suas terras com segurança as corujas-buraqueiras ocidentais – uma subespécie protegida pelo governo federal. Mas muitas vezes não há documentação disponível sobre como se pode fazer esta operação e ainda menos informações sobre o que acontece às aves nos seus novos lares.

Apesar do nome, as corujas-buraqueiras – encontradas em pastagens áridas desde o Canadá até à América do Sul – não escavam tocas, ocupam tocas. Estes pássaros de 25 centímetros de altura escondem-se em tocas abandonadas por cães-da-pradaria e esquilos, caçando insetos e pequenos mamíferos durante o dia e nidificando com até uma dúzia de crias durante a noite. Como não cavam os seus próprios lares, as tocas que as corujas adotam são cruciais para a sua sobrevivência; se perdermos a espécie hospedeira que cava o buraco, perdemos as corujas, como tem acontecido com o declínio nas populações de cães-da-pradaria nas Grandes Planícies dos EUA.

Cerca de 95% das pastagens originais da Califórnia foram destruídas desde a chegada dos colonos europeus. Esta perda de habitat é a razão principal pela qual estas aves de olhos amarelos e pernas longas têm desaparecido rapidamente no estado californiano, de acordo com Colleen Wisinski, da organização sem fins lucrativos San Diego Zoo Wildlife Alliance. Apesar de as corujas conseguirem imitar o sibilar das cascavéis e assim afugentar predadores como texugos e coiotes, esta aptidão é inútil contra as máquinas escavadoras.

A estratégia mais usada para mover as corujas chama-se deslocamento, na qual os construtores esperam até que os pássaros estejam longe de casa para depois colapsarem as suas tocas (os ecologistas chamam-lhe “remoção”). Presume-se que as corujas sem lar vão encontrar novas tocas. Outra opção, mais complexa, é a chamada translocação, na qual cientistas como Colleen Wisinski capturam e transferem os animais para novos locais que geralmente estão protegidos de desenvolvimentos futuros.

Esquerda: Superior:

Uma coruja-buraqueira ocidental perto da sua toca artificial na Reserva Ecológica do Rancho Jamul, que é gerida pelo Departamento de Pesca e Vida Selvagem da Califórnia, no condado de San Diego.

Direita: Inferior:

Investigadores da San Diego Zoo Wildlife Alliance desbloqueiam tocas artificiais naquela que é a última etapa para libertar as corujas-buraqueiras ocidentais na zona de Conservação de Ramona, que é gerida pela San Diego Habitat Conservancy, no condado de San Diego.

fotografias de San Diego Zoo Wildlife Alliance

Podemos ficar com a sensação de que a translocação é preferível ao “despejo”, mas não é necessariamente isso que acontece: as corujas que passam pelo processo de translocação geralmente voam de regresso para casa, apenas para descobrir que as suas pastagens aconchegantes são agora um supermercado ou um painel solar.

“Quando isso acontece, são momentos que podem ser difíceis, porque eu conheço muito bem as corujas individualmente”, diz Colleen Wisinski. As corujas que regressam às suas tocas provavelmente enfrentam um novo “despejo” ou realocação.

Mas agora, Colleen e os seus colegas desenvolveram algumas ferramentas para manter estas pequenas criaturas em segurança.

Os investigadores usaram um equipamento sonoro que reproduz cantos de coruja previamente gravados e pintaram novas tocas com o que parecem ser fezes de coruja – isto pode convencer as corujas-buraqueiras a aceitar os seus novos lares, de acordo com uma nova investigação publicada na revista Animal Conservation.

Esta nova investigação pode ajudar os cientistas a avaliar o sucesso da translocação, para a qual os dados são escassos, diz Ronald Swaisgood, coautor do estudo e ecologista da San Diego Zoo Wildlife Alliance.

“E também torna a translocação num problema e numa oportunidade maravilhosa para aprendermos o que funciona e o que não funciona”, acrescenta Ronald.

Coruja nova no bairro

No seu estudo recente, Ronald Swaisgood, Colleen Wisinski e os seus colegas estudaram 81 corujas em quatro locais de construção no sul da Califórnia. Os investigadores incluíram 19 corujas na experiencia de deslocamento e capturaram 47 para a experiência de translocação. Quinze corujas que não foram deslocadas nem realocadas serviram como grupo de controlo.

A equipa colocou etiquetas de identificação em todas as corujas presentes no estudo, mas só conseguiu equipar 20 com um dispositivo de telemetria por satélite que permitiu aos investigadores rastrear os seus movimentos.

Para deslocar ou “despejar” as corujas, a equipa instalou portas de sentido único nas tocas, e esperou até que as aves saíssem para destruir os buracos. A equipa rastreou depois os movimentos das 19 corujas deslocadas.

As outras 47 corujas foram transferidas para uma “tenda de aclimatização” num novo local, onde os animais passaram um mês a prepararem-se para viver nos seus novos lares.

A equipa cooperou com várias agências governamentais para selecionar terras de pastagem protegidas para as corujas.

Em 11 tocas das corujas equipadas com o dispositivo de rastreio por satélite, os investigadores espalharam novas tocas pelo local com fezes de coruja, tanto reais como falsas. A equipa também colocou um sistema de som nas proximidades que reproduzia os cantos das corujas – na tentativa de fazer com que as aves recém-chegadas se sentissem em casa. As outras nove tocas das corujas rastreadas por satélite não receberam este tratamento extra.

Para além de rastrearem os movimentos das corujas através do sistema GPS, os investigadores também observaram os pássaros através de câmaras de vida selvagem e pessoalmente nas novas tocas.

Cientistas do Programa de Recuperação de Corujas-buraqueiras da San Diego Zoo Wildlife Alliance trabalham para remover as aves das áreas impactadas pelo desenvolvimento, transferindo-as para refúgios protegidos no condado de San Diego.

Fotografia por San Diego Zoo Wildlife Alliance

Passado um mês, as corujas da experiência de translocação que estiveram expostas às pistas sonoras e visuais tiveram 20 vezes mais propensão para ficar perto das suas novas tocas do que as corujas que também estavam no programa de translocação mas que não tiveram estes estímulos.

A equipa também descobriu que as corujas envolvidas na translocação tinham geralmente mais propensão para se reproduzirem, algo que é fundamental para o sucesso a longo prazo da sua população.

Várias das corujas na experiência de translocação morreram ou desapareceram, provavelmente porque a adaptação a um ambiente completamente novo é difícil e morosa.

“Mas pode valer a pena pagar esse preço inicial de sobrevivência se isso significar que conseguimos estabelecer as corujas numa área segura e protegida”, diz Ronald Swaisgood. “Este habitat vai ser gerido para as proteger, e as corujas também ficam com melhores perspetivas a longo prazo.”

Procurar construtores com sensibilidade

“Saber se as corujas-buraqueiras devem passar pelo processo de translocação ou serem despejadas é um tema muito debatido neste campo de investigação”, diz Martha Desmond, da Universidade do Novo México, que não participou no estudo.

Os estudos que acompanham ambos os processos são relativamente escassos, em parte porque a maioria dos estados não exige qualquer acompanhamento para perceber o que acontece às corujas.

Mas esta nova investigação vem adicionar alguns dados importantes, e isso é uma vantagem, porque é crucial avaliar técnicas diferentes para saber qual é a mais eficaz, acrescenta Martha Desmond.

Como é óbvio, a melhor abordagem seria os construtores evitarem de todo as terras de pastagem onde as corujas vivem – particularmente as áreas onde as populações de corujas estão a diminuir, diz  Andrea Jones, diretora do departamento de conservação de aves da Sociedade Audubon da Califórnia. “Precisamos de uma abordagem multifacetada, porque na direção em que estamos a ir, as corujas vão enfrentar dificuldades.”

“Podemos certamente encontrar construtores que querem fazer o que está correto e alguns que são forçados a fazê-lo através [dos regulamentos]”, diz Andrea. “Mas se nos sentarmos logo à partida com os construtores para conversar… obteremos um resultado muito mais positivo a longo prazo. É uma questão de educar a indústria sem que isso afete os resultados que desejam obter.”

Martha Desmond e Andrea Jones acreditam que isto exige aos futuros desenvolvimentos a inclusão ou financiamento de estudos de conservação que se debrucem sobre a forma como as novas construções podem ser eficazes, algo que também é sugerido pelo novo estudo.

“Queremos que trabalhem todos em conjunto para servir os interesses das aves”, diz Martha Desmond. Isto pode incluir restrições nas estações do ano em que as corujas podem ser movidas ou, no mínimo, exigir investigações para observar onde é que as corujas-buraqueiras vivem.

A super audição das corujas ajuda-as a caçar
Nenhuma presa à vista? Sem problema! Com a sua audição super poderosa, a coruja-cinzenta consegue caçar roedores que correm debaixo de uma camada de neve com 60 centímetros de profundidade. Imagens da série ‘World's Deadliest’.

Colleen Wisinski diz que, mesmo nos dias mais difíceis, o seu trabalho é gratificante – porque tenta fazer o que está correto e tem um impacto positivo. E acrescenta que, “ter uma coruja-buraqueira na mão é sempre uma coisa especial”.

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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