Método de ADN usado para apanhar o ‘Assassino de Golden State’ pode ajudar a capturar caçadores de elefantes

Esta técnica tem identificado ligações entre sindicatos criminosos, ajudando a acusar os traficantes de vida selvagem.

Por Starre Vartan
Publicado 16/02/2022, 11:26
Pedaços de marfim

Os pedaços de marfim cortados de presas de elefantes, que foram confiscados pela polícia filipina, vão ser enviados para análises de ADN. Se estas amostras corresponderem ao ADN recolhido noutras apreensões de marfim, os investigadores têm evidências de que é a mesma organização criminosa envolvida.

Fotografia por NOEL CELIS/AFP via Getty Images

Ao seguir uma pista em julho de 2019, as autoridades de Singapura identificaram um carregamento de três contentores de madeira vindos da República Democrática do Congo com destino ao Vietname. Escondidas entre a madeira, estavam quase nove toneladas de presas de elefantes embaladas em 132 sacos de plástico – o marfim de cerca de 300 elefantes africanos. Os inspetores também encontraram quase 12 toneladas de escamas de pangolim.

As autoridades notificaram imediatamente o porto de origem, bem como a Interpol e a National Parks Boards (NParks) de Singapura, que é responsável pela administração do tratado internacional que rege o comércio transfronteiriço de animais selvagens. Depois, a NParks contactou um professor em Seattle.

Samuel Wasser é o diretor do Centro de Ciência Forense Ambiental da Universidade de Washington, onde, no início dos anos 2000, a sua equipa foi pioneira num método de comparação de ADN entre presas de elefante traficadas e amostras de tecido e fezes de elefantes conhecidos de florestas e savanas. Esta técnica inovadora é usada para determinar a origem geográfica das presas ilegais, informações que podem ser vitais na identificação dos pontos de foco da caça furtiva e permitir apanhar os caçadores.

Mais recentemente, porém, Samuel Wasser virou as suas atenções para um alvo maior: as poderosas organizações criminosas que gerem o comércio de marfim.

Num artigo publicado na revista Nature Human Behavior no dia 14 de fevereiro, Samuel Wasser e os seus colegas demonstram como um método relativamente novo de trabalhar com ADN – chamado correspondência familiar – pode revelar informações muito mais detalhadas sobre as ligações entre os elefantes caçados. Estes dados, juntamente com evidências como registos telefónicos e manifestos de exportação, revelam os padrões consistentes do movimento ilícito de marfim desde o ponto de caça, passando pelas rotas de contrabando e para fora de África. Estas informações podem ajudar as autoridades a acusar os caçadores furtivos individualmente – uma estratégia que historicamente tem feito pouco para abrandar a caça furtiva – mas também pode ajudar a desmantelar as organizações criminosas internacionais que pagam aos caçadores furtivos e intermediários – as operações que consolidam enormes quantidades de marfim para fins de exportação.

Esta nova forma de usar os dados existentes pode ser crucial para a sobrevivência dos elefantes. Os caçadores matam cerca de 30.000 elefantes por ano, principalmente para responder à demanda por produtos de luxo na Ásia, como esculturas, joias e pauzinhos de marfim.

Como funciona a correspondência familiar

Se este método de correspondência familiar de ADN soar familiar, é porque foi a técnica usada em 2018 para capturar o ‘Assassino de Golden State’, um infame assassino em série na Califórnia que conseguiu iludir a polícia durante mais de 40 anos. Em vez de comparar o ADN encontrado na cena do crime com uma amostra de referência de um suspeito e esperar por uma correspondência direta, a correspondência familiar compara o ADN da cena do crime com o ADN de uma gama vasta de parentes biológicos cujo ADN pode estar nas bases de dados públicas. Uma correspondência parcial ou “indireta” pode revelar membros da família, fornecendo novas pistas para os investigadores que tentam identificar um suspeito.

Dado que os elefantes também vivem em unidades familiares muito próximas, a correspondência familiar de ADN das presas permite aos investigadores rastrear e mapear um número muito maior de animais do que os métodos usados anteriormente. Ao longo da cadeia de caça-transporte-comércio, as presas de um grupo de elefantes são geralmente divididas. Através das comparações diretas de ADN, Samuel Wasser consegue, por exemplo, ligar uma presa esquerda numa remessa à presa direita noutra. Contudo, estima-se que só tenha sido confiscado 10% do total do marfim traficado e os custos das análises de ADN são dispendiosos, pelo que encontrar correspondências exatas entre as remessas depende principalmente da sorte: as probabilidades de uma correspondência perfeita são de apenas 9%.

Agora, através da técnica de correspondência familiar, Samuel Wasser consegue sequenciar o ADN de uma só presa e compará-lo com o ADN de todos os elefantes na sua base de dados, que remonta até 2002. Em vez de procurar uma combinação perfeita, Samuel pode identificar quaisquer familiares próximos cujo ADN também esteja na base de dados. Para quem quer acabar com os sindicatos criminosos, esta técnica é um avanço significativo.

Criar mapas a partir de ADN

Depois de inserir na sua base de dados todo o ADN das presas confiscadas em 2019 em Singapura, Samuel Wasser e os seus colegas começaram a procurar parentes próximos dos novos elefantes, incluindo pais, filhos, irmãos e meios-irmãos. “Daqui a pouco, em vez de ter uma correspondência, cada teste vai ter dezenas”, dizia Samuel Wasser. Conforme comparava o novo ADN com o antigo, as ramificações da árvore genealógica iam ficando cada vez mais densas. Entre as 49 grandes apreensões de marfim nas quais a equipa de Samuel recolheu amostras, verificaram-se mais de 600 correspondências familiares, e cerca de 40 estavam na apreensão feita em Singapura.

Estas evidências genéticas, juntamente com os registos de exportação, dados telefónicos e outras informações compiladas pelas autoridades em África e no Sudeste Asiático, estão a ajudar os investigadores a criar mapas elaborados com códigos de cores que, segundo Samuel Wasser, “permitem rastrear de onde [vêm as presas] e as suas ligações com outras remessas”.

Os investigadores podem usar depois os mapas – um para cada grande apreensão de marfim – para perceber melhor qual é a extensão das principais redes de tráfico, bem como as ligações entre si. Em 2018, por exemplo, a equipa de Samuel Wasser identificou três redes a operar no Quénia, Uganda e Togo. As novas análises de ADN mostram que estas redes criminosas estão envolvidas em mais remessas de marfim do que se pensava anteriormente, e que também estão interligadas. Este tipo de informação permite às autoridades ligar as provas de várias investigações, descobrir novas pistas e construir um processo legal.

Os mapas criados com a ajuda de ADN recolhido em quatro apreensões feitas na Malásia, duas apreensões em Angola e a referida apreensão feita em Singapura indicam coletivamente que, desde 2015, os focos da caça furtiva têm-se deslocado da Tanzânia, Quénia e Moçambique para a Área de Conservação Transfronteiriça de Kavango-Zambezi, na África Austral, onde vivem 230.000 dos 400.000 elefantes que restam em África.

A equipa de Samuel Wasser também revelou que estas mesmas redes internacionais de contrabando já operam há uma década ou mais, enriquecendo caçadores que regressam aos mesmos locais ano após ano para matar famílias de elefantes e enviar as suas presas em remessas enormes para exportação em cadeias controladas por estas mesmas redes criminosas. Os dados sugerem que este comércio, que também pode incluir o tráfico de armas e drogas, é controlado por meia dúzia de redes.

“Estes redes são os pontos de afunilamento”, diz Samuel Wasser, “e são muito poucas. É verdadeiramente crítico conseguirmos eliminá-las.”

O braço mais longo da lei

A base de dados de ADN de Samuel Wasser é uma ferramenta poderosa para os investigadores. Mas também pode ajudar as autoridades a fortalecer os processos legais e endurecer as sentenças de prisão em países onde os elefantes são abatidos ou o marfim é exportado ou apreendido.

Para além disso, o Centro de Ciência Forense Ambiental de Samuel Wasser colabora com o Departamento de Segurança Nacional (HSI) dos EUA, um ramo dos serviços de imigração e alfandegários que investiga crimes que não estão relacionados com a vida selvagem, mas que estão associados ao tráfico de marfim, enquadrando-se assim na jurisdição dos EUA.

“Ao seguir as ligações identificadas através das análises de ADN de várias apreensões, o HSI consegue identificar e investigar os crimes financeiros e fraudes comerciais subjacentes das redes criminosas”, diz John Brown III, agente especial da Divisão de Comércio Global do HSI.

As operações bem-sucedidas podem incluir apreensões de ativos das redes, encerrando assim os canais financeiros que sustentam a caça furtiva. Esta colaboração já deu origem a várias investigações e a pelo menos uma apreensão – a detenção e acusação de dois homens que tentaram importar marfim de elefante, chifres de rinoceronte e escamas de pangolim para o estado de Washington em novembro de 2021.

As análises de ADN familiar também estão a ser usadas para ajudar outros animais traficados, incluindo o trabalho feito por Peter Ward na Universidade de Washington com amostras de ADN de amêijoas gigantes. E após a apreensão de marfim feita em 2019, a equipa de Samuel Wasser deu formação aos funcionários da NParks de Singapura para estes fazerem o dispendioso e demorado sequenciamento de ADN por conta própria. Em agosto de 2021, Singapura abriu o seu próprio Centro Forense de Vida Selvagem, que se dedica a identificar espécies, partes ou produtos de vida selvagem apreendidos – plantas e animais – e produzir evidências que consigam apoiar a aplicação da lei.

Este centro, que atualmente está a trabalhar com escamas de pangolim apreendidas, visa “aplicar o mesmo tipo de metodologia e hipóteses que Sam [Wasser] usou para o marfim”, diz Adrian Loo, diretor do departamento de gestão de vida selvagem da NParks. “Queremos ser líderes regionais na utilização da ciência para travar o comércio ilegal de vida selvagem.”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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