Nova descoberta pode ajudar a salvar este peixe ‘fóssil vivo’ com 3 metros de comprimento

O peixe-jacaré, um predador de topo, tem vindo a desaparecer de partes do rio Mississippi.

Por Jason Bittel
Publicado 18/02/2022, 11:32
Richard Raddatz ao lado de um peixe-jacaré

Richard Raddatz, do Field Museum, é fotografado ao lado de um peixe-jacaré em Chicago, Illinois, em 1905.

Fotografia por Charles Carpenter/Field Museum Library/Getty Images

O peixe-jacaré é um animal que tem os dentes todos tortos, é mais comprido do que um banco de jardim e mais pesado do que um puma. As escamas ósseas que cobrem o seu corpo fazem com que pareça um dinossauro blindado, e por bons motivos: este é o segundo maior peixe da América do Norte e já prospera desde o final do período jurássico, há 157 milhões de anos.

Muitas pessoas nem sequer sabem que o peixe-jacaré de três metros de comprimento ainda existe, mas quando o descobrem, geralmente ficam com uma sensação de medo, diz Solomon David, ecologista da Universidade Nicholls, no Louisiana.

“Mas estes animais não são como os jacarés, leões ou outros animais que arrancam pedaços de carne das suas presas”, diz Solomon David. “São animais que precisam de engolir as suas presas inteiras, ou seja, são inofensivos para os humanos.”

O peixe-jacaré, que pode atingir um peso a rondar os 100 quilos, é semelhante ao seu homónimo de uma forma: são ambos predadores, o que significa que fornecem serviços ecossistémicos vitais para os seus habitats – que neste caso ficam principalmente na bacia do rio Mississippi, nos EUA. Esta espécie de água doce mantem as suas populações de presas sob controlo ao caçar peixes mais pequenos, anfíbios, répteis, mamíferos e aves, diz Solomon David.

Mas o seu papel enquanto caçador de topo tem conferido ao peixe-jacaré uma má reputação entre os pescadores e até mesmo entre os gestores estaduais de vida selvagem, que já chegaram a tentar exterminar os animais, pensando que estes competiam com os peixes de caça. Na década de 1930, a Comissão de Pesca e Caça do Texas chegou até a desenvolver um barco que descarregava eletricidade na água – chamado Destruidor Elétrico de Peixe-Jacaré.

Se juntarmos estas ameaças diretas à perda de habitat devido à construção de barragens e drenagem das planícies de inundação, percebemos porque é que os peixes-jacaré, que outrora eram comuns nos sistemas fluviais da América, são agora extremamente raros. Em alguns estados, como em Ohio e Illinois, esta espécie desapareceu completamente e é considerada localmente extinta. Os peixes-jacaré, que podem ser encontrados em locais como a América Central, são mais comuns nas regiões sul do seu alcance, sobretudo em estados dos EUA como o Texas e o Louisiana – e é por isso que a sua condição está classificada como “pouco preocupante” pela IUCN.

Os peixes-jacaré têm uma faixa de alcance enorme que inclui a América Central e Cuba.

Fotografia por Joël Sartore, National Geographic Photo Ark

“É uma questão de escala. Uma espécie considerada ‘pouco preocupante’ ao nível global não representa a realidade à escala local”, diz Solomon David.

É por esta razão que Solomon e os seus colegas estão a tentar reverter o declínio desta população de peixes, criando-os por exemplo em cativeiro e desenvolvendo formas de aprender mais sobre estas criaturas sem as prejudicar. Num estudo publicado em janeiro na revista Transactions of the American Fisheries Society, Solomon David e os seus colegas mostram que, em vez de cortar a carne destes peixes para recolher amostras, basta recolher pequenos pedaços de barbatana, porque fornecem as mesmas informações.

“O tamanho imponente destes animais é surpreendente quando estamos na sua presença”, diz Solomon David. “São gigantes de rio.”

Bastam pedaços de barbatana

Para poder proteger o peixe-jacaré, os cientistas precisam de obter informações básicas primeiro, como por exemplo determinar as zonas pelas quais estes gigantes vagueiam e o que estão a comer. Para o fazer, os investigadores normalmente precisam de recolher uma amostra minúscula de tecido do peixe, que contém vestígios de elementos que os cientistas podem usar para rastrear a sua localização.

Contudo, como os peixes-jacaré têm escamas que parecem uma cota de malha medieval, a prática demorada e traumática de extração de uma quantidade de tecido pode provocar stress no animal, diz Thea Fredrickson, bióloga aquática da Autoridade de Lower Colorado River, no Texas.

“É um processo que pode ser mortal. Não há forma de o contornar.”

Felizmente, com o seu novo estudo, Thea Fredrickson e Solomon David acabam de provar que a recolha de um pedaço de barbatana é muito mais fácil para o peixe.

A equipa do GarLab – da esquerda para a direita: Audrey Baetz, Solomon David e Derek Sallmann – mede um enorme peixe-jacaré no Refúgio Nacional de Vida Selvagem de St. Catherine Creek, no Mississippi, em 2021. Todos os peixes são libertados em segurança após a recolha de dados.

Fotografia por Kent Ozment/Solomon David

“Isto também nos permite recolher amostras repetidamente”, diz Solomon David, sublinhando que as barbatanas voltam a crescer depressa. “Digamos que apanhamos o mesmo peixe passado um mês ou dois, ou talvez um ano depois. Podemos observar como é que esse peixe pode estar a mudar durante o crescimento.”

“Acho que os resultados do artigo são muito promissores”, diz Zeb Hogan, biólogo de investigação da Universidade do Nevada, em Reno, que não esteve envolvido no estudo.

Alguns peixes-jacaré vivem até aos 95 anos ou mais, diz Zeb Hogan, tornando assim cada indivíduo precioso.

“Precisamos de compreender a sua biologia e ecologia, mas não queremos sacrificar um peixe tão idoso ou de crescimento tão lento”, diz Zeb Hogan, que também é um explorador da National Geographic.

Embora já tivesse ficado demonstrado que a técnica de corte de barbatanas funcionava noutros peixes, ninguém tinha testado algo assim num peixe-jacaré. Agora que este processo ficou comprovado, os cientistas já começaram a usar a mesma técnica no Refúgio Nacional de Vida Selvagem de St. Catherine Creek, no Mississippi.

Em fevereiro, Solomon David e a bióloga Kayla Kimmel, do Serviço de Pesca e Vida Selvagem dos EUA, capturaram vários peixes-jacaré no refúgio de vida selvagem, incluindo um espécime enorme. Os investigadores marcaram os animais e capturaram 10 indivíduos para serem usados num programa de reprodução em cativeiro na Incubadora Nacional de Peixe Private John Allen, do serviço de vida selvagem. Se tudo correr bem, os descendentes destes 10 peixes serão reintroduzidos nas áreas dos EUA onde o peixe-jacaré tem vindo a desaparecer.

Maravilhas evolucionárias

Existem sete espécies de peixe-jacaré pelo mundo inteiro, e todas mudaram relativamente pouco ao longo do tempo, daí o apelido “fósseis vivos”. (Mergulhe no mundo esquecido dos animais de água doce.)

“Estes peixes descobriram um plano corporal que funciona e mantiveram-se assim”, diz Solomon David, explicando que a forma longa e estreita do peixe lhe permite atacar velozmente as presas.

Os peixes-jacaré também conseguem respirar ar, podendo sobreviver em ambientes quentes e pouco oxigenados, incluindo estuários de águas paradas ou até em água salgada.

Outra das adaptações úteis destes animais reside nos seus ovos venenosos. Curiosamente, os ovos dos peixes-jacaré não parecem ser mortais para os outros peixes – só para os mamíferos, aves, répteis, anfíbios e sobretudo artrópodes, como crustáceos. Isto pode significar que estes animais desenvolveram um veneno especificamente para proteger os seus ovos de caranguejos e lagostins, diz Solomon.

“Mas a mensagem que estão a tentar passar é a de que nenhum animal se deve meter com o caviar dos peixes-jacaré”, diz Solomon em tom de brincadeira.

Salvem os gigantes de água doce

A megafauna de água doce, que é vagamente definida por espécies que pesam em média mais de 30 quilos, está entre as mais ameaçadas da Terra. As suas populações globais diminuíram quase 90% desde 1970 – duas vezes mais do que a perda de populações de vertebrados em terra ou nos oceanos, de acordo com um estudo publicado em 2019 na Global Change Biology.

Os peixes enormes, como os esturjões, salmões e bagres, particularmente no Hemisfério Norte, sofreram declínios ainda maiores devido à sobrepesca, poluição e construção de barragens.

É por esta razão que Solomon David está a tentar mudar a perceção que as pessoas têm destes animais. Por vezes, Solomon até chega a fazer trocadilhos com os peixes-jacaré nas redes sociais, e outras vezes está a testemunhar perante as autoridades do Minnesota a favor de um novo projeto de lei que poderá fornecer ao peixe-jacaré e aos outros chamados “peixes brutos” alguma proteção, em vez de permitir que sejam mortos indiscriminadamente.

“É um privilégio trabalhar ao lado de um número cada vez maior de conservacionistas que estão a trazer mais atenção para estes peixes enormes e carismáticos”, diz Solomon David.
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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