Novas espécies de caracóis são as mais pequenas do mundo, mais pequenas do que grãos de areia

Duas novas espécies de caracóis terrestres, encontradas no Vietname e no Laos, mostram o quão pouco sabemos sobre a vida em pequena escala.

Publicado 7/02/2022, 11:42 , Atualizado 7/02/2022, 14:14
caracois mais pequenos do mundo

Nesta imagem vemos as cascas do caracol terrestre mais pequeno do mundo, Angustopila psammion, ao lado do bico de uma esferográfica. Estes animais minúsculos foram descobertos numa caverna no norte do Vietname.

Fotografia por Barna Páll-Gergely

Os cientistas descobriram duas novas espécies de caracóis do tamanho de grãos de areia – os caracóis terrestres mais pequenos de que há conhecimento na Terra.

“É incrível o quão pequenos são – não esperávamos encontrar isto”, diz Adrienne Jochum, investigadora do Museu de História Natural de Berna, na Suíça.

A natureza diminuta do atual detentor do recorde reflete-se no seu nome científico, Angustopila psammion; “Psammion” deriva da antiga palavra grega para “grão de areia”. Os cientistas encontraram inúmeros individuos desta espécie nas paredes de uma caverna no norte do Vietname, de acordo com um estudo publicado em janeiro na revista Contributions to Zoology. A casca desta espécie mede 0,6 milímetros de diâmetro.

A outra espécie, Angustopila coprologos, foi descoberta num desfiladeiro de calcário mais a norte, no Laos. Esta espécie é ligeiramente maior do que a A. psammion e, portanto, é a segunda espécie de caracol mais pequena do mundo. A casca desta estranha criatura está coberta por projeções pontiagudas, que são adornadas por uma série de ‘missangas’ semelhantes a lama. Adrienne Jochum, coautora do estudo, acredita que se trata de excreções fecais, daí o seu nome grego que significa “coletor de esterco”.

Mas para quê juntar os excrementos e colocá-los sobre si próprio como se fossem colares de pérolas? Pode ser uma maneira de os animais comunicarem uns com os outros, por exemplo, fornecendo pistas bioquímicas que ajudam a atrair parceiros, diz Adrienne. “Os pedaços húmidos de esterco também podem ajudar a evitar que estes invertebrados desidratem, uma das principais ameaças enfrentadas pelos caracóis.”

“Esta descoberta mostra o quão pouco sabemos sobre os organismos mais pequenos”, acrescenta Adrienne, que também colabora com o Instituto de Investigação Senckenberg em Frankfurt, na Alemanha.

“Há muita coisa nesta escala microscópica que ainda não descobrimos.”

É fácil ser pequeno?

András Hunyadi, Jaap Vermeulen e Katja Anker, coautores do estudo, recolheram amostras de sedimentos em duas expedições feitas ao Sudeste Asiático. A geologia calcária da região suporta uma enorme diversidade de caracóis pouco estudados, e os investigadores suspeitavam que havia mais espécies desconhecidas no local. Depois de misturarem o solo com água, os cientistas retiraram o material flutuante, examinando os caracóis ao microscópio.

A equipa só encontrou cascas da espécie; mas os sedimentos mais profundos podem conter caracóis vivos. Os detalhes biológicos destes caracóis permanecem desconhecidos, mas provavelmente comem micróbios minúsculos, detritos e talvez pedaços de fungos, diz Adrienne Jochum.

Cascas da segunda espécie mais pequena de caracol (Angustopila coprologos) numa cápsula de gelatina ao lado de uma moeda britânica de 20 pence.

Fotografia por András Hunyadi

O seu tamanho diminuto provavelmente permite aos caracóis iludir predadores, porque se podem esconder em fendas no interior de sedimentos e rochas, ou nas superfícies de raízes, especulam os cientistas.

Mas o tamanho reduzido também pode apresentar alguns desafios, diz Timothy Pearce, investigador de caracóis do Museu Carnegie de História Natural, em Pittsburgh, que não participou no estudo. Talvez o mais complicado resida no facto de estes caracóis poderem produzir ovos, que para serem postos precisam de passar pela abertura na casca, que neste caso tem cerca de 200 mícrons, aproximadamente a largura de um par de cabelos humanos. Mas a casca começa a desenvolver-se ainda no interior do ovo, mesmo antes de este ser posto, dificultando o processo, diz Timothy.

E os seus órgãos, incluindo o cérebro, pulmões e coração, também têm de caber no interior da casca.

Ultrapassar os limites

O recorde anterior para caracol terrestre mais pequeno do mundo pertencia à espécie Acmella nana, descoberta no Bornéu em 2015, que tem dimensões corporais semelhantes, mas cuja massa média é cerca de 20% maior do que a da espécie A. psammion.

Alguns caracóis marinhos são ainda mais pequenos do que estas duas espécies recém-descobertas. Os caracóis marinhos provavelmente sobrevivem com tamanhos tão reduzidos porque não correm o risco de desidratar, uma das principais desvantagens de serem tão minúsculos, diz Aydin Örstan, coautor do estudo e especialista em caracóis no Museu Carnegie de História Natural.

À medida que o tamanho diminui, a proporção entre a área corporal de superfície e o volume aumenta – o que significa que a água pode evaporar mais facilmente. Os caracóis são particularmente propensos a este processo porque precisam de estender os seus corpos húmidos para fora das cascas para se movimentarem, diz Aydin Örstan.

O risco de desidratação “pode confinar a evolução dos caracóis terrestres mais pequenos às regiões com climas estáveis, ou habitats específicos, como cavernas, onde a humidade permanece elevada durante o ano inteiro”, acrescenta Adrienne Jochum.

Timothy Pearce também refere que alguns caracóis marinhos segregam óvulos e espermatozoides para a coluna de água, que é onde acontece a maior parte do seu desenvolvimento, o que significa que os óvulos podem ser mais pequenos quando saem do corpo.

Os investigadores querem descobrir mais sobre estas espécies novas, incluindo o que comem e como o fazem, e quem são os seus predadores, se é que os têm. Talvez existam pequenos ácaros ou milípedes que ainda não descobriram este petisco sob a forma de caracol, diz Adrienne Jochum. Timothy Pearce também especula que estes caracóis podem ser comidos por formigas ou pseudoescorpiões.

Adrienne Jochum acrescenta que esta descoberta salienta a importância da taxinomia, o processo que descreve novas espécies e onde estas se encaixam na árvore da vida. Apesar de este campo não receber muita atenção, continua a ser vital para a biologia e para outros ramos da ciência.

“Os taxinomistas conseguem identificar as plantas, os fungos e os animais… sem [eles] não sabemos com o que estamos a lidar”, diz Adrienne.

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

 

 

 

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