As cobras reconhecem-se a si próprias? Estudo controverso afirma que sim.

Uma experiência que usa os sentidos químicos das cobras “pode mudar a opinião das pessoas sobre estes répteis, afastando-as do conceito de criaturas lentas, burras e insípidas”, diz um dos autores do estudo.

Por Mary Bates
Publicado 29/03/2022, 10:55
Cobra-liga oriental

Uma cobra-liga oriental (fotografada no Parque Nacional Acadia, no Maine) agita a língua, um comportamento sensorial que capta substâncias químicas no ambiente circundante.

Fotografia por George Sanker, Nature Picture Library

Os cientistas que estudam o comportamento das cobras geralmente deparam-se com um enigma desafiador: como é que entramos na mente de um réptil?

Os primatas conseguem gesticular com as mãos, os elefantes conseguem sinalizar com as trombas e os corvos podem bicar para indicar uma resposta específica a uma experiência. Mas e as serpentes?

É por esta razão que os investigadores conceberam um teste especificamente para as cobras, concentrando-se nos seus pontos fortes: os sentidos químicos.

As cobras dependem dos sinais químicos por vários motivos, quer seja para reconhecer presas, escapar de predadores, encontrar parceiro ou navegar pelos seus habitats. Para além do olfato, as cobras também agitam a língua para transportar sinais químicos – por exemplo, feromonas sexuais de um potencial parceiro – para um órgão especializado no céu da boca, uma ação que se pode comparar a farejar.

Um estudo feito recentemente sobre cobras-liga comuns, uma espécie muito difundida na América do Norte, descobriu que estes répteis conseguem discernir a sua própria assinatura química da dos irmãos de ninhada alimentados com a mesma dieta. O líder do estudo, Gordon Burghardt, etologista e psicólogo comparativo da Universidade do Tennessee, em Knoxville, diz que esta é uma demonstração de autorreconhecimento – uma versão das cobras para o reconhecimento que temos do nosso próprio reflexo perante um espelho.

As cobras-liga comuns, nativas da América do Norte, são répteis não venenosos que se encontram por todo o continente.

Fotografia por Tim Fitzharris, Minden Pictures

Conseguir reconhecer o próprio reflexo é considerada uma aptidão avançada e só foi confirmada em algumas espécies, como chimpanzés, orangotangos e golfinhos.

“As cobras demonstram muitos dos mesmos mecanismos cognitivos e percetivos que os outros animais, isto se as estudarmos da maneira correta, fizermos as perguntas certas e respeitarmos a sua biologia e forma de lidar com o mundo”, diz Gordon Burghardt.

Conhece-te a ti próprio

No estudo, publicado recentemente na revista Behaviour, Gordon Burghardt e os seus colegas estudaram 24 cobras nascidas de uma só ninhada no seu laboratório no Tennessee.

As cobras foram alojadas individualmente desde o nascimento e alimentadas com uma dieta só de peixe ou minhocas, possibilitando a diferenciação química entre as fezes das cobras.

Quando as cobras tinham quatro meses de idade, a equipa expô-las individualmente a quatro estímulos diferentes: ao forro sujo da sua gaiola, ao forro sujo da gaiola de um irmão do mesmo sexo alimentado com a mesma dieta, ao forro de um irmão do mesmo sexo alimentado com uma dieta diferente e a um forro completamente limpo.

Durante cada experiência, os cientistas mediram a taxa de movimento da língua de cada cobra e os seus movimentos em geral pela gaiola.

As cobras agitaram menos a língua quando expostas ao forro sujo da gaiola de um companheiro de ninhada alimentado com a mesma dieta do que na reação ao forro sujo da sua própria gaiola.

Gordon Burghardt diz que este comportamento mostra que as cobras-liga conseguem reconhecer os seus próprios sinais químicos como distintos dos de outras cobras, mesmo de cobras intimamente relacionadas e alimentadas com a mesma dieta.

Interpretações diferentes

Há cerca de 50 anos, o psicólogo americano Gordon Gallup e os seus colegas desenvolveram um teste de autorreconhecimento com espelho que ainda serve de padrão para muitos dos estudos experimentais.

Para o novo estudo, os investigadores colocaram uma marca no corpo das cobras numa zona onde estas só a conseguiam ver através do reflexo no espelho. Se o animal olhasse para o espelho e depois tocasse ou examinasse a marca no corpo, passava no teste. Os humanos geralmente passam neste teste quando são bebés, e alguns dos grandes símios – chimpanzés, orangotangos e bonobos – reconhecem-se a si próprios. Alguns animais não primatas, como elefantes e golfinhos, também revelam esta capacidade.

Porém, tanto Gordon Gallup como os seus colegas estão céticos em relação às evidências de autorreconhecimento no espelho para qualquer espécie que não sejam os humanos e os grandes símios. Estes cientistas também têm criticado os estudos de autorreconhecimento não-visual, como os trabalhos que usam odores ou outros químicos, que pretendem ser equivalentes aos testes do espelho.

É por esta razão que um dos colaboradores frequentes de Gordon Gallup, o psicólogo James Anderson, da Universidade de Quioto, diz que, embora as cobras do estudo de Gordon Burghardt possam demonstrar um autorreconhecimento químico, isso não é o mesmo que um macaco ou um humano reconhecer a sua aparência em frente a um espelho.

“Muitos investigadores ignoram a espontaneidade dos grandes símios [e a nossa própria espontaneidade] para usar espelhos simplesmente para vermos a nossa aparência, talvez para nos arranjarmos de diferentes pontos de vista”, diz James Anderson por email. “Não existe qualquer demonstração convincente de uma coisa chamada ‘espelho químico’ a ser usado neste processo.”

Gordon Burghardt não afirma que estas cobras são autoconscientes. “Mas parecem ter uma consciência de si próprias enquanto entidades diferentes de outros organismos.”

Os cientistas também estão divididos sobre o que significa realmente um animal reconhecer-se ao espelho em termos de cognição. Gordon Gallup e James Anderson afirmam que passar no teste é equiparado à autoconsciência – autoconsciência e, possivelmente, até mesmo à consciência da individualidade dos outros.

Alguns investigadores acreditam que é mais provável que a autoconsciência exista numa espécie de continuum, com diferentes espécies a demonstrarem níveis variados. É possível que o autorreconhecimento seja uma das capacidades mais básicas deste continuum, que é comum entre muitos animais, diz Gordon Burghardt.

“Por muito cuidado que os autores [do estudo das cobras] tenham tido, o maior obstáculo vai ser convencer alguns cientistas de que estas descobertas significam algo que vai para além de uma resposta rudimentar aos estímulos”, diz Gordon Schuett, ecologista da Universidade da Geórgia, em Atlanta.

“Mas é bom irmos para além desses limites”, acrescenta Gordon Schuett. “Este novo estudo é útil porque pode desafiar algumas das noções preconcebidas sobre as capacidades cognitivas das cobras.”

Mais do que criaturas desmioladas

Cada vez há mais investigações que suportam o conceito de que as cobras conseguem aprender, adaptar-se rapidamente e até formar amizades.

Por exemplo, os cientistas já documentaram cascavéis do norte do Pacífico a retirar galhos do caminho antes de caçarem, alterando o seu habitat para as ajudar a emboscar presas. Sabe-se que as cobras-liga comuns têm personalidades diferentes e preferem socializar com indivíduos específicos. Os estudos feitos recentemente sobre cascavéis mostram que as cascavéis macho da espécie Crotalus atrox permanecem na mesma toca ano após ano, ao passo que as cascavéis Crotalus horridus juvenis, quando estão grávidas, preferem “aninhar-se” com familiares próximos.

Gordon Burghardt diz que as cobras têm muitas das mesmas ferramentas básicas para navegar pelo mundo que os mamíferos, mas a sua anatomia e estilo de vida podem ocultar essas mesmas capacidades.

“A minha carreira tem sido dedicada a tentar mudar a opinião das pessoas sobre estes répteis, afastando-as do conceito de criaturas lentas, burras e insípidas”, acrescenta Gordon Burghardt.

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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