Matar baratas com pesticidas está apenas a fortalecer a espécie

É necessária uma abordagem menos tóxica para gerir as baratas mais comuns, que estão desenvolver resistência aos inseticidas comprados nas lojas.

Por Troy Farah
Publicado 23/03/2022, 11:53
Barata alemã

A barata alemã é a espécie de barata mais populosa da Terra.

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Quando eu tinha uns 10 anos, vi uma barata no balcão da cozinha e agarrei no objeto que tinha mais perto de mim: uma cafeteira de vidro, com a qual bati na cabeça do inseto, e depois fiquei ali, a segurar apenas uma alça de vidro. “Desculpa, mãe”, disse eu por causa da cafeteira partida. “Mas pelo menos apanhei a barata.”

As chamadas baratas alemãs eram uma presença omnipresente durante a minha infância num parque estacionamento de autocaravanas em Phoenix, no Arizona. Nada parecia deter as baratas – independentemente da quantidade de veneno, dispositivos elétricos ou inseticidas. Só quando nos mudámos para uma casa é que a minha família se livrou finalmente desta praga de seis patas.

Nos EUA, há dezenas de milhares de pessoas que compreendem a frustração de viver com infestações de baratas. Em Portugal, também. E pode haver uma boa razão pela qual estes insetos são tão difíceis de controlar. Um corpo crescente de dados sugere que algumas populações de baratas alemãs nos EUA desenvolveram resistência a pesticidas, inutilizando basicamente os produtos químicos.

Um estudo publicado recentemente na Journal of Economic Entomology, por exemplo, mostra que as baratas alemãs em algumas unidades residenciais no sul da Califórnia conseguem sobreviver à exposição aos cinco tipos de pesticidas mais usados.

Isto é preocupante, porque as infestações mais graves de baratas podem provocar problemas de saúde, como asma ou alergias, diz Chow-Yang Lee, líder do estudo e professor de entomologia urbana na Universidade da Califórnia, em Riverside. Existem pelo menos 11 alérgenos diferentes associados à barata alemã, ou Blattella germanica, que também pode propagar bactérias como a Salmonela. E o stress de uma infestação de baratas também pode afetar a saúde mental de uma pessoa.

Embora existam outros tipos de baratas que também infestam habitações humanas, as baratas alemãs são de longe as mais problemáticas, diz Chow-Yang Lee. Existem dúvidas sobre se estes insetos são originários de África ou do Sudeste Asiático, mas independentemente da sua origem, esta espécie resistente têm-se espalhado pelo mundo inteiro através de remessas internacionais e agora é a barata mais comum à face da Terra. (Carl Linnaeus, um naturalista sueco, cunhou o nome Blattella germanica porque recebeu amostras dos insetos vindos pelo correio da Alemanha na década de 1770.)

Fieis à sua reputação oculta, entre as mais de 4.500 baratas de que há conhecimento, “só as baratas alemãs é que são conhecidas por terem conseguido desenvolver resistência aos inseticidas”, diz Chow-Yang Lee – um exemplo de como os humanos estão fomentar a evolução das pragas que nos rodeiam.

Mas talvez não seja necessário continuar a forçar as baratas a desenvolver defesas para as nossas formas de controlo de pragas.

Os cientistas estão a estudar abordagens mais eficazes para controlar baratas nas áreas humanas, como uma abordagem multissistémica que inclui o uso de óleos essenciais como o limoneno, um componente cítrico cujo odor forte repele as baratas.

Uma história interminável de resistência

Chow-Yang Lee e os seus colegas concentraram-se na forma como as baratas alemãs em quatro cidades no sul da Califórnia respondem aos inseticidas de isca de gel, que são alguns dos produtos de consumo mais usados no controlo de insetos nos EUA.

Com aspiradores e armadilhas, os investigadores recolheram centenas de baratas – sobretudo com aspiradores – em habitações sociais em torno de Los Angeles, San Diego, Vista e San Jose. Chow-Yang Lee diz que, como as pessoas nestas áreas geralmente não conseguem pagar serviços profissionais de exterminação, tendem a usar cada vez mais pesticidas comprados nas lojas.

Isto cria um ciclo de feedback. Quanto maior for a exposição, mais oportunidades cria para as baratas conseguirem sobreviver aos efeitos dos pesticidas, para depois se reproduzirem, levando a uma nova geração de baratas que é mais resistente a pesticidas.

Chow-Yang Lee diz que é uma história interminável de resistência a inseticidas.

A equipa de investigação levou as baratas para o seu laboratório na Califórnia e, em testes separados, expôs os animais a seis pesticidas comuns de venda livre. E repetiram a mesma experiência com dezenas de baratas alemãs criadas em laboratório que nunca tinham sido expostas a produtos químicos para matar insetos.

As baratas no grupo de controlo morreram rapidamente. Mas em cinco dos seis testes, os pesticidas não conseguiram matar as baratas capturadas, com a maioria a sobreviver passadas duas semanas. Só um inseticida – o abamectina – é que matou efetivamente as baratas capturadas. Contudo, um estudo feito em 2019 mostrava que as baratas conseguem desenvolver mais resistência ao abamectina em apenas duas gerações, ou cerca de um ano.

A maioria dos inseticidas tem como alvo uma parte específica do corpo do inseto, como por exemplo o sistema nervoso, diz Shao-Hung Lee, coautor do estudo e doutorando no laboratório de Chow-Yang Lee. “Portanto, muitas baratas resistentes vão desenvolver uma mutação [genética] na área que é atacada, tornando-a menos sensível ao inseticida.”

Os humanos também podem ser afetados pelo uso de pesticidas em ambientes fechados. Os resíduos dos pesticidas, que são “muito difundidos” nos lares americanos, podem provocar dores de cabeça, tonturas e náuseas, para além de aumentar o risco de cancro, de acordo com a Agência de Proteção Ambiental dos EUA.

Evolução em ação

No geral, a investigação mostra que tentar combater as baratas alemãs com pesticidas não está apenas a falhar, como também está a gerar animais ainda mais fortes, diz Shao-Hung Lee. “Se não estivéssemos a usar inseticidas, nada disto estaria a acontecer. Portanto, é tudo um processo de seleção provocado pelo homem.”

A nossa influência sobre a evolução das baratas já remonta há séculos. Quando esta espécie chegou pela primeira vez à Europa, muitas baratas morreram devido aos invernos rigorosos. “Mas algumas sobreviveram porque basicamente estavam no interior de casas”, diz Chow-Yang Lee. “Durante este período também podem ter perdido a capacidade de voar.”

Outro fator que impulsionou o sucesso das baratas reside no facto de estes insetos terem desenvolvido a capacidade de comer praticamente tudo.

“Os sistemas digestivos das baratas alemãs têm uma variedade gigantesca de enzimas que as ajudam a metabolizar tudo”, diz Seun Oladipupo, entomologista e doutorando na Universidade de Auburn, no Alabama, que estuda estratégias sustentáveis de gestão de pragas. “As baratas conseguem desintoxicar naturalmente tudo o que usamos contra elas.”

Seun Oladipupo está a investigar formas de controlar baratas alemãs com extratos concentrados de plantas chamados óleos essenciais. Numa experiência realizada em 2020, Seun Oladipupo combinou diferentes óleos essenciais com iscas de hidrogel e descobriu que reduziam a capacidade de reprodução das baratas alemãs, para além de encurtarem a sua vida útil, mesmo em doses não letais. Um óleo essencial chamado carvacrol reduziu a longevidade das baratas macho em pelo menos 34%.

Um jardineiro espalha terra de diatomáceas, um repelente de insetos não tóxico, numa horta. Este pó de rocha triturada mata os insetos através da desidratação.

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Tecnicamente, os óleos essenciais continuam a ser pesticidas, mas são menos tóxicos para os insetos e humanos, e também é menos provável que as baratas lhes desenvolvam resistência. Isto porque estes químicos atuam em vários locais do corpo de uma barata, em comparação com muitos pesticidas, que têm alvos específicos, diz Seun Oladipupo.

Há outros produtos promissores para o controlo de pragas que são menos tóxicos, como a terra de diatomáceas, um pó de rocha sedimentar natural que consegue desidratar insetos como baratas, levando à sua morte.

Uma abordagem integrada

Contudo, Seun Oladipupo alerta que as intervenções como óleos essenciais não devem ser a única opção. “A resposta para a gestão de pragas de insetos não é química, é uma abordagem multissistémica.”

Este processo é conhecido por gestão integrada de pragas, que combina estratégias diferentes, como a rotação, redução ou eliminação do uso de pesticidas. Mas também pode incluir conselhos práticos. Por exemplo, Seun Oladipupo recomenda a manutenção dos locais que as baratas costumam procurar – principalmente cozinhas e casas de banho – limpos e secos.

As baratas são particularmente atraídas pela comida para animais de estimação, ou seja, também é importante armazenar as rações num recipiente fechado hermeticamente quando a comida não está a ser usada. Quando chega a hora das refeições, os especialistas aconselham manter as tigelas da comida levantadas do chão, ou a compra de uma tigela repelente de insetos com um fosso de água em torno da comida, que impede o acesso dos insetos.

Chow-Yang Lee acrescenta que devemos aprender mais sobre as baratas selvagens, muitas das quais desempenham papéis benéficos no ambiente. As baratas podem atuar como decompositores, fragmentando as folhas no chão das florestas tropicais. Algumas até polinizam flores. Outras são pais exemplares.

Agora, tanto Seun Oladipupo como Shao-Hung Lee planeiam estudar os mecanismos biológicos de resistência nas baratas, como estudar o seu microbioma.

Para além disso, algumas baratas até podem ajudar realmente os humanos – como vivem em lugares tão sujos, os corpos das baratas contêm moléculas que conseguem matar até as bactérias mais resistentes. Estudar a forma como este processo funciona pode ajudar os cientistas a combater um dos grandes flagelos da atualidade, a resistência a antibióticos em humanos.

E com 17 milhões de pessoas a morrerem anualmente devido a infeções bacterianas, quiçá não será um dia uma barata a salvar-nos a vida.
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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