CDC dos EUA atrasaram a divulgação sobre possível transmissão de COVID-19 de animais para pessoas

Uma série de emails destaca um atraso de meses na divulgação pública da suspeita de disseminação de COVID-19 de visons para humanos nos EUA.

Por Dina Fine Maron
Publicado 6/04/2022, 11:12
visons

Os visons, aqui fotografados numa quinta de peles na Dinamarca, adoeceram por toda a Europa em 2020 com uma variante do coronavírus que tem duas mutações distintas. Esta mesma variante foi detetada mais tarde em visons numa quinta de peles no Michigan e em quatro pessoas na área.

Fotografia por Ole Jensen, Getty Images

Vários documentos governamentais dos EUA obtidos pela National Geographic oferecem um primeiro olhar sobre os bastidores da investigação dos Centros de Controlo e Prevenção de Doenças (CDC) dos EUA sobre a suspeita de um evento de disseminação de COVID-19 de animais para humanos. Este evento de transmissão aconteceu no Michigan em finais de 2020. Os documentos e as declarações feitas pela agência na altura deixam bem claro que os CDC já estavam cientes de que os visons numa quinta de peles no Michigan podiam ter infetado humanos pelo menos três meses antes de atualizarem silenciosamente o seu site em março de 2021.

Os investigadores de coronavírus dizem que o atraso em partilhar publicamente este potencial evento de transbordo pode ter afetado a sua capacidade em monitorizar efetivamente a disseminação do vírus SARS-CoV-2, que os especialistas alertam que se pode alojar noutra espécie, sofrer mutações e depois regressar para os humanos sob a forma de uma variante mais perigosa ou transmissível.

“Isto deve continuar a servir de lembrete de que a transparência é importante e, quanto mais depressa conhecermos os factos, mais rápido conseguimos agir”, diz Scott Weese, diretor do Centro de Saúde Pública e Zoonoses da Universidade de Guelph, no Canadá. Se as informações sobre os casos suspeitos de transbordo fossem reveladas antecipadamente, podiam ter ajudado outros países a melhorar a sua vigilância e a adaptar as suas respostas à pandemia, acrescenta Scott.

As milhares de páginas de documentos, divulgadas sob a Lei da Liberdade de Informação e amplamente censuradas, incluem emails entre os CDC e as autoridades de saúde pública do Michigan, que solicitaram formalmente a ajuda da agência no dia 8 de outubro de 2020, depois de este estado norte-americano ter confirmado que alguns visons numa quinta de peles estavam infetados. Os emails mostram que, em poucos dias, os CDC enviaram quatro epidemiologistas veterinários para o Michigan, onde a equipa recolheu amostras do vírus dos visons na quinta e de pessoas na zona circundante como parte de uma investigação sobre a forma como o vírus se propagou.

As análises de genoma das amostras de vírus de dois trabalhadores da quinta de visons e de duas pessoas sem ligação aparente com os visons revelaram que estes estavam infetados com uma variante única de coronavírus que só tinha sido previamente identificada em visons e nos casos de transmissão de visons para humanos na Europa.

Os CDC defenderam a decisão de não fazer um anúncio público formal sobre as descobertas, que tiveram pouca cobertura dos órgãos de comunicação social, exceto um artigo publicado em abril de 2021 no Detroit Free Press um mês depois de os CDC terem atualizado o site. Nick Spinelli, porta-voz da agência, disse à National Geographic por email que todas as “informações relevantes” acabaram por ser publicadas no site dos CDC e que, como foram documentados casos semelhantes na Europa, a notícia não foi “surpreendente ou inesperada”.

Nick Spinelli acrescenta que os genomas destas quatro amostras de vírus eram do conhecimento público porque foram inseridos no GISAID, uma base de dados pública e global de coronavírus, entre o dia 4 de novembro de 2020 e o dia 23 de fevereiro de 2021. Esta base de dados, porém, exige a criação de uma conta por parte dos utilizadores, conhecimentos sobre como navegar pelo site e a compreensão do mapeamento da sequência do genoma.

Ao longo da investigação dos CDC, a agência disse repetidamente à National Geographic que “não havia evidências de disseminação de visons para humanos nos Estados Unidos”, inclusive num email enviado no início de janeiro de 2021. No entanto, os emails internos e as declarações de Nick Spinelli indicam que não era esse o caso. No dia 4 de novembro de 2020, os genomas do vírus dos dois trabalhadores rurais do Michigan já eram conhecidos por terem as mutações associadas aos visons e, no final de dezembro, o genoma do terceiro caso já tinha sido sequenciado – e também inserido no GISAID.

Sem risco acrescentado

Não há indicações de que os visons desempenhem um papel significativo na disseminação do vírus entre as pessoas, ou que a variante associada aos visons tenha circulado na comunidade do Michigan a longo prazo, diz Nick Spinelli. E estes habitantes não precisaram de tomar quaisquer precauções adicionais quando aquilo aconteceu, diz Angela Rasmussen, virologista da Universidade de Saskatchewan, no Canadá, porque as recomendações de segurança, incluindo o uso de máscara e o distanciamento social, já estavam em vigor.

Estes quatro casos no Michigan são as únicas infeções suspeitas de coronavírus de visons para humanos nos EUA, de acordo com os CDC. Para além dos visons, os únicos outros animais que se acredita terem passado o vírus para os humanos são os veados-de-cauda-branca no Canadá e um hamster em Hong Kong.

Um número cada vez maior de outras espécies – incluindo tigres, leões, gorilas, hienas, cães e gatos – são consideradas suscetíveis ao coronavírus, mas é pouco provável que estejam a desempenhar um papel de destaque na disseminação da COVID-19 entre as pessoas, segundo os CDC e outros especialistas.

Falta de informação

Nick Spinelli diz que os CDC não podem afirmar sem sombra de dúvidas de que foi um vison a transmitir o vírus aos humanos. “Como há poucas sequências genéticas disponíveis nas comunidades em torno da quinta, é impossível determinar com exatidão se as mutações vieram dos visons na quinta ou se já estavam a circular na comunidade.”

Mas outros especialistas afirmam que, embora as mutações aconteçam aleatoriamente, é pouco provável que esta variante tenha vindo de qualquer outro lugar. “Quanto mais mutações, menores são as probabilidades de estarem a acontecer por acaso”, diz Scott Weese.

A ausência de respostas definitivas em investigações como esta sublinha a necessidade de mais investimento no sequenciamento do genoma do vírus – tanto de humanos como de animais infetados, diz Angela Rasmussen. Com mais sequenciamento, os epidemiologistas podem preencher melhor as lacunas no seu mapeamento e compreender como é que o vírus se move de uma pessoa – ou animal – para outra.

Pouco se sabe sobre as quatro pessoas infetadas no Michigan, mas o facto de duas delas – que vivem na mesma casa, de acordo com os CDC – acusarem a variante associada aos visons, apesar de não terem ligação com a quinta de visons, sugere que esta variante se espalhou para além da quinta e na comunidade, e continuou a circular durante meses.

As quatro pessoas recuperaram completamente, diz Nick Spinelli, e os visons sobreviventes na quinta afetada deram mais tarde negativo para o vírus.

Os emails também mostram que o estado de Illinois estava inicialmente relutante em permitir que as peles de visons provenientes da quinta do Michigan entrassem no estado – embora tenha aceitado mais de 17.000 peles em novembro de 2021. A correspondência eletrónica também deixa bem claro que os CDC e as autoridades de saúde pública em vários estados estavam preocupados com a saúde mental dos criadores de visons, que testemunharam surtos generalizados de coronavírus nos seus animais e apelos cada vez mais urgentes para colocar um fim à indústria de peles de vison.

Em fevereiro de 2022, a Câmara dos Representantes dos EUA aprovou uma legislação que visa proibir a criação de visons por todo o país. Esta legislação ainda não foi aprovada no Senado, mas reúne um forte apoio por parte dos grupos de bem-estar animal que acusam esta indústria de ser desumana e também muito arriscada para os humanos.

Em março, a Irlanda aprovou uma legislação que vai proibir as quintas de criação de peles. E em 2020, a Dinamarca e os Países Baixos, ambos grandes criadores de visons, abateram os milhões de visons que tinham em cativeiro devido a preocupações com o coronavírus. Os Países Baixos aprovaram uma legislação para acabar com a criação de visons imediatamente, acelerando o encerramento – que já tinha sido previamente planeado – da sua indústria de peles de vison.
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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