Golfinho selvagem observado pela primeira vez a ‘falar’ com botos

Um golfinho selvagem chamado Kylie pode conseguir “conversar” com botos, um exemplo impressionante de comunicação entre espécies.

Por Elizabeth Anne Brown
Publicado 1/04/2022, 11:21
golfinho comum a brincar em águas escocesas

Nesta imagem vemos um golfinho comum a brincar em águas escocesas. Os investigadores observaram um golfinho selvagem solitário chamado Kylie que consegue vocalizar como se fosse um boto.

Fotografia por Scotland: The Big Picture, Minden Pictures

Na costa oeste da Escócia fica Firth of Clyde, uma enorme enseada banhada por água salgada abriga milhares de botos – e um golfinho fêmea chamado Kylie.

Kylie já não é observada com outros golfinhos comuns (Delphinus delphis) há pelo menos 14 anos – mas está longe de estar sozinha. Nos dias limpos, na enseada de Clyde, as pessoas que visitam a marina podem encontrar Kylie a nadar com botos, ou toninhas-comuns (Phocoena phocoena), primos cetáceos com cerca de dois terços do seu tamanho.

Uma nova investigação, publicada em janeiro deste ano na revista Bioacoustics, sugere que os laços que Kylie tem com os botos são de maior proximidade do que os cientistas imaginavam. Apesar de o repertório vocal de um golfinho comum deva incluir uma gama diversificada de cliques, assobios e chamamentos de pulso, Kylie não assobia. Em vez disso, “fala” de uma forma semelhante à dos botos, que comunicam através de cliques agudos.

Uma vista da enseada de Firth of Clyde, um enorme corpo de água junto à ilha escocesa de Arran, num dia radioso de inverno.

Fotografia por Jim McDowall, Alamy

O estudo sugere que Kylie pode estar a comunicar com os botos, ou pelo menos a tentar. Este trabalho faz parte de um crescente corpo de investigação que ilumina um mundo rico em interações entre diferentes espécies de cetáceos.

“Parece evidente que as espécies na natureza interagem muito mais do que pensávamos”, diz Denise Herzing, especialista em comportamento de golfinhos.

Código boto

Há vários anos, o único golfinho residente nesta região gostava muito de uma boia que fica na boca de um lago chamado Kyles of Bute, pelo que os habitantes locais começaram a chamar-lhe Kylie. Mas ninguém sabe de onde veio, ou exatamente porque é que os golfinhos acabam sozinhos, diz David Nairn, fundador e diretor da Clyde Porpoise, uma organização local dedicada à pesquisa e proteção de mamíferos marinhos. (Kylie não é vista há um ano, mas os habitantes de Clyde esperam que regresse em breve.)

Alguns golfinhos acabam sozinhos depois de se separarem dos seus grupos natais devido aos efeitos de tempestades ou à atividade humana, ou depois de ficarem órfãos. Outros podem simplesmente ser menos sociáveis e preferir a sua privacidade, de acordo com um estudo feito em 2019 sobre golfinhos solitários em todo o mundo.

Para descobrir mais sobre a relação de Kylie com os botos, David Nairn levou um hidrofone emprestado e rebocou-o atrás do seu veleiro, o Saorsa. Entre 2016 e 2018, David Nairn captou o áudio de vários encontros entre Kylie e os botos.

“Ela identifica-se definitivamente como um boto”, diz David Nairn, que tem formação em biologia marinha.

Mel Cosentino, que naquela época era doutoranda na Universidade de Strathclyde, em Glasgow, analisou os milhares de cliques ultrassónicos dos cetáceos nas gravações.

Enquanto que os golfinhos estão constantemente a assobiar, os botos nunca o fazem. Em vez disso, comunicam exclusivamente com os chamados cliques de banda estreita e alta frequência (NBHF), com oito a quinze picos de amplitude em torno dos 130 kilohertz.

“Para conseguirmos ouvir um clique NBHF, temos de o abrandar cerca de cem vezes”, diz Mel Cosentino. (Quando os sons são abrandados, o tom também baixa. Os humanos conseguem ouvir entre os 20 hertz, aproximadamente o equivalente ao pedal mais baixo de um órgão de tubos, e os 20 quilohertz.)

Nas gravações, Mel Cosentino identificou os cliques padrão de baixa frequência dos golfinhos comuns. Mas mesmo quando Kylie parecia estar sozinha, Mel Cosentino encontrou cliques com oito ou mais picos de amplitude na marca dos 130 quilohertz – a frequência com que os botos comunicam. Por outras palavras, Kylie fala como um boto mesmo quando está sozinha. Os investigadores também descobriram que Kyle nunca assobia, algo que os outros golfinhos estão sempre a fazer.

Mel Cosentino reparou que as trocas entre Kylie e os botos tinham um ritmo semelhante ao de uma “conversa” entre membros da mesma espécie – uma comunicação por turnos com pouca sobreposição – embora, como é óbvio, não se saiba exatamente qual é a quantidade de informação significativa retransmitida nas tentativas de Kylie enquanto imita os cliques dos botos.

“Pode ser o mesmo que eu a ladrar para o meu cão e ele ladrar de volta”, diz Mel.

Independentemente disso, este comportamento representa “uma tentativa” de comunicação que os “botos provavelmente reconhecem”, diz Denise Herzing, diretora do departamento de investigação do Wild Dolphin Project, organização que estuda o comportamento dos golfinhos-pintados do Atlântico nas Bahamas há mais de três décadas. Denise Herzing, que não participou no novo estudo, elogia os autores pelo design experimental inteligente num ambiente natural.

“Os resultados são apelativos”, diz Denise. “O mais revelador é que Kylie não faz qualquer assobio, porque os golfinhos estão sempre a assobiar e os botos nunca o fazem.”

Nesta imagem vemos botos perto de Shetland, na Escócia. Pela primeira vez, os cientistas encontraram um golfinho que “se identifica como um boto”, capaz de produzir sons de cliques únicos dos botos.

Fotografia por Scotland: The Big Picture, Nature Picture Library

Um dos maiores desafios da bioacústica marinha é identificar qual é a criatura responsável por um determinado som, diz Laela Sayigh, professora-adjunta de comportamento animal no Hampshire College. “Estes animais não fazem qualquer movimento externo associado ao som e, na maioria das vezes, nem sequer os conseguimos ver”, acrescenta Laela Sayigh.

Neste caso, porém, é possível distinguir Kylie – pelo seu sotaque. “Parece que ela ainda tem dificuldade” em atingir um tom tão agudo como o dos botos, diz Mel Cosentino – os picos nos seus cliques não são tão nítidos como deviam ser, e há alguns sons de baixa frequência misturados com as notas mais agudas.

“Se estivéssemos a falar de cantores, a Kylie era o Pavarotti e os botos eram a Mariah Carey.”

Os cetáceos em cativeiro conseguem imitar muita coisa com as suas capacidades vocais, sublinha Denise Herzing, referindo as orcas e baleias beluga que imitam os roazes-corvineiros. Um estudo de bioacústica feito em 2016 também descobriu que um golfinho de Risso criado num parque marinho em Itália assobiava de forma mais semelhante à dos golfinhos com os quais tinha sido criado do que com os membros selvagens da sua própria espécie.

Por outro lado, quando Kylie está sozinha a fazer cliques do tipo NBHF “coloca em questão” se está a fazê-lo para comunicar com os botos ou apenas a imitar o som, diz Laela Sayigh.

Conversas entre melões

Os golfinhos, botos e baleias são todos cetáceos, descendentes de mamíferos terrestres que regressaram para a água ao longo de milhões de anos. À medida que se readaptavam à vida no oceano, “evolutivamente, as narinas tornaram-se no espiráculo”, diz Mel Cosentino.

As baleias dentadas, tal como os golfinhos e os botos, só têm uma narina aberta, mas ambas as cavidades nasais continuam presentes abaixo da superfície, cobertas por uma estrutura muscular chamada “lábios de macaco”. (A anatomia dos cetáceos é frequentemente descrita em termos animados, originários de descrições feitas por baleeiros). Os chamados lábios de macaco são de certa forma análogos às nossas próprias cordas vocais, controlando o fluxo de ar – e quando o ar é forçado dos pulmões pelos “lábios” na cavidade nasal esquerda, “é como deixar o ar sair de um balão”, criando o tal assobio, diz Mel Cosentino.

A cavidade nasal direita é responsável pelos cliques utilizados tanto para comunicar como para navegar. E termina ao lado de um depósito de gordura na testa das baleias dentadas chamado melão, que amplifica e concentra as vocalizações do cetáceo. Dado que ambos os conjuntos de lábios de macaco operam independentemente, alguns cetáceos, incluindo os roazes-corvineiros, conseguem clicar e assobiar ao mesmo tempo – um pouco como o canto com a garganta originário da Mongólia.

A história de Kylie integra agora um vasto de leque de investigações sobre a forma como os cetáceos interagem com membros de outras espécies. “São muito sociais, muito sexuais e muito comunicativos”, diz Denise Herzing. “Estes animais sobrevivem e adaptam-se socialmente, e o som é uma forma natural de o fazerem.”

As adoções interespécies estão bem documentadas e demonstram que as divisões de espécies podem não ser tão claras como se pensava. Estes exemplos incluem um grupo de baleias beluga canadianas que acolheram uma cria de narval; e um golfinho-rotador que viveu entre roazes-corvineiros do Taiti durante 20 anos.

As análises de ADN feitas recentemente também demonstram claramente que só conhecemos a ponta do icebergue, diz Denise Herzing. Os roazes-corvineiros já hibridizaram com pelo menos 10 espécies em cativeiro e na natureza, incluindo cetáceos tão díspares como a baleia-piloto e o golfinho da Guiana. Os investigadores também levantam a hipótese de que os cetáceos conseguem hibridizar com tanto sucesso por causa do seu ADN partilhado – são espécies que divergiram apenas nos últimos 10 milhões de anos.

Para além das tentativas de comunicação, Kylie parece muito próxima dos botos de outras formas. Em várias ocasiões, David Nairn viu botos fêmea a levarem as suas crias para interagirem com Kylie. Como as crias de botos geralmente ficam sempre perto das mães até fazerem o desmame, David Nairn ficou surpreendido ao ver as crias a nadar com Kylie em formação, numa posição logo atrás da sua barbatana peitoral – que os investigadores dizem ser o equivalente dos cetáceos a “pegar” num bebe, explica David Nairn.

David Nairn também já observou botos macho a tentar cortejar Kylie. Mas será que ela se mostra interessada? “Eu diria até que gosta um pouco, sim”, admite David com uma gargalhada. Este tipo de acasalamento é teoricamente possível, embora não exista qualquer híbrido golfinho-boto documentado cientificamente, diz Denise Herzing.

Kylie já não é avistada desde fevereiro de 2021, quando uma semana de tempestades intensas fez com que um enorme navio de perfuração desancorasse perto da sua boia preferida. David Nairn diz que não seria invulgar Kylie mudar de local após uma enorme perturbação, talvez para perto de uma das suas “boias de férias” ali perto durante meses a fio, mas David não consegue deixar de ficar preocupado.

David Nairn e os seus colegas dizem que estão ansiosos para procurar – e ouvir –Kylie assim que a época de campo da primavera começar – e ver o que Kylie pode ter mais para nos ensinar.


Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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