Estas aranhas minúsculas fazem uma ‘dança’ sincronizada para caçar

Nova descoberta revela que aracnídeos sul-americanos usam movimentos coordenados de dança para derrubar presas até 700 vezes mais pesadas.

Por Jason Bittel
Publicado 26/05/2022, 12:47
aranhas

Estas aranhas minúsculas sul-americanas (aqui fotografadas no Brasil) conseguem tecer teias de até quase 10 metros de comprimento.

Fotografia por Claus Meyer, Minden Pictures

Se der um passeio pelas florestas tropicais da Guiana Francesa, vai encontrar teias de aranha gigantes mais longas do que um autocarro escolar. No interior destas teias, milhares de aranhas minúsculas – com pouco mais de 5 milímetros de comprimento – aguardam que as suas presas fiquem retidas nas teias, permitindo aos predadores dominar apressadamente as suas vítimas.

“Em grupos, estas aranhas conseguem capturar presas até 700 vezes [mais pesadas] do que cada aranha individual, como traças e gafanhotos”, diz Raphaël Jeanson, etólogo que estuda o comportamento dos animais no seu ambiente natural no Centro de Biologia Integrativa de Toulouse, em França. As aranhas Anelosimus eximius são o que se chama de aranhas “sociais” e vivem em enormes colónias cooperativas – um estilo de vida extremamente raro nas aranhas.

Mas as pessoas com aracnofobia não precisam de ficar preocupadas. Cada uma destas aranhas sul-americanas de cor âmbar é mais pequena do que uma joaninha e, mesmo quando caçam juntas, não representam uma ameaça para os humanos.

Na realidade, estas aranhas até podem ter algo para nos ensinar sobre como se deve cooperar para obter um resultado partilhado.

No estudo publicado na revista Proceedings of the National Academy of Sciences, Raphaël Jeanson, o autor principal do estudo, e os seus colegas descobriram que estas aranhas capturam mais presas quando sincronizam os seus movimentos. Mais especificamente, os aracnídeos realizam uma “dança” na qual cada animal começa e para rapidamente e ao mesmo tempo.

Como é óbvio, as aranhas não estão realmente a dançar; estão a sentir as vibrações, tanto do inseto preso na teia, como das suas companheiras envolvidas na caçada. Se cada aranha se movesse a um ritmo diferente, isso criaria tanto ruído que as aranhas não conseguiriam “ouvir” o inseto preso. Assim, ao sincronizarem os seus movimentos, as aranhas detetam a presa mais facilmente.

Também há alguns contratempos nesta estratégia: se as aranhas esperarem muito tempo para coordenar os movimentos, outra companheira de teia pode chegar primeiro ao alimento. Contudo, os cientistas descobriram que a recompensa desta sincronização – que localiza alimentos com precisão em teias gigantes – compensa o risco, incentivando a espécie a trabalhar cooperativamente e a partilhar os despojos.

Um grupo de aranhas alimenta-se de um animal que foi capturado após uma caçada coletiva.

Fotografia por of Raphaël Jeanson, CNRS

Para além disso, a observação dos padrões de coordenação das aranhas pode ser benéfico para os engenheiros humanos que estão a desenvolver robôs ou programas de computador guiados por inteligência de enxame, acrescenta Raphaël Jeanson.

Harmonia a caçar

Entre as 50.000 espécies de aranhas conhecidas pela ciência, só cerca de 20 é que vivem em colónias cooperativas “sociais” permanentes, e vivem todas nos trópicos e regiões subtropicais. Os comportamentos destas aranhas incluem um pouco de tudo, desde cuidar das crias umas das outras ao simples facto de viverem na mesma teia – sem estarem constantemente em conflito. Até agora, a aranha A. eximius é a primeira a ter os seus movimentos sincronizados quantificados, diz Raphaël Jeanson.

“Estes animais também são tímidos e bastante difíceis de estudar. Se fizermos muito barulho perto da teia, costumam esconder-se.”

Ainda assim, encontrar estas aranhas é muito fácil. É impossível ignorar as enormes e cintilantes teias ao longo das estradas na Guiana Francesa, um território francês localizado na ponta nordeste da América do Sul. Esta omnipresença deu a Raphaël Jeanson e aos seus colegas muitas oportunidades para observar as aranhas sociais em ação.

Para desvendar os segredos de uma colónia de A. eximius, os cientistas montaram uma experiência de campo na qual filmaram pequenos grupos com uma média de 25 aranhas enquanto estes respondiam a uma isca, neste caso uma mosca morta que foi presa a um motor com um fio. (Descubra aranhas que comem cobras.)

Os investigadores colocaram depois os dados num modelo de computador para simular mais cenários de caça das aranhas, estimativas que seriam impossíveis de obter através da simples observação. Os dados do modelo mostram que, ao sincronizarem os seus movimentos, as aranhas são mais bem-sucedidas na captura de presas do que se movessem individualmente.

As florestas tropicais na Guiana Francesa estão repletas de teias destas aranhas sociais.

Fotografia por of Raphaël Jeanson, CNRS

“Mas há outra descoberta fascinante. As aranhas conseguem ajustar o seu comportamento conforme a situação. Se um inseto mais pequeno ficar preso na teia, produz vibrações mais suaves, pelo que as aranhas precisam de se sincronizar para o sentir. Mas se for um inseto grande, que produz vibrações mais agitadas, a sincronização não é necessária”, diz Raphaël Jeanson.

“É como estar numa sala com pessoas a conversar. Se houver um ligeiro ruído, as pessoas precisam de ficar todas em silêncio para o ouvir. Mas se houver uma grande explosão, ninguém precisa de estar em silêncio para se aperceber.”

Pais aracnídeos – são exatamente como nós

Estas descobertas levantam algumas questões intrigantes, diz Lena Grinsted, bióloga evolucionária e professora na Universidade de Portsmouth, no Reino Unido, que não esteve envolvida no estudo.

Lena Grinsted está curiosa para saber se cada aranha tem a mesma inclinação para este tipo de sincronização, ou se alguns animais são aproveitadores ou trapaceiros – um aspeto do comportamento destas criaturas sociais que ainda está a ser estudado.

“Esta investigação é um bom motivo para realçar uma espécie pouco conhecida e que desafia todos os estereótipos que temos sobre as aranhas”, diz Lena Grinsted, que estuda aranhas sociais na América do Sul, África, Ásia e Europa.

Por um lado, as chamadas aranhas sociais como a A. eximius são invulgares, porque permitem que outras aranhas e insetos fiquem nas suas teias.

“Eu costumo dizer que são aranhas hippie, porque parecem dóceis e tolerantes.”

Estes aracnídeos sociáveis também são pais extremosos, cuidando não só da sua prole, como das crias de quaisquer aranhas nas proximidades. Depois de uma caçada bem-sucedida, as mães também levam comida para as suas crias.

“Sentam-se perto das crias e regurgitam pequenas gotas de comida líquida”, acrescenta Lena Grinsted. “Depois, as aranhas bebé vão a gatinhar e bebem partes da boca das fêmeas. É muito bonito.”


Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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