Estas salamandras ‘paraquedistas’ sobrevivem a saltos das árvores mais altas do mundo

Estes pequenos anfíbios desenvolveram uma estratégia semelhante à dos humanos para planar entre as antigas sequoias da Califórnia, segundo um novo estudo.

Por Jude Coleman
Publicado 25/05/2022, 12:22
salamandra

Uma salamandra-errante adulta (Aneides vagrans) agarra-se à casca de uma sequoia da Califórnia. Estes anfíbios de 10 centímetros fazem as suas casas no dossel pouco estudado destas árvores.

Fotografia por Christian Brown

Quando são perturbadas por um predador na copa das árvores mais altas do mundo, algumas salamandras enfrentam uma tarefa aparentemente impossível: planar dezenas de metros em segurança.

O biólogo Christian Brown, da Universidade do Sul da Flórida, há muito que se interrogava sobre a forma como estas salamandras-errantes conseguem sobreviver a saltos tão grandes entre as sequoias costeiras do norte da Califórnia – sobretudo porque não têm abas de pele ou as chamadas velas como acontece noutros anfíbios “voadores”.

Agora, as novas experiências feitas com um túnel de vento em miniatura revelam que as ousadas criaturas de 10 centímetros usam as mesmas técnicas que os paraquedistas humanos. Os animais abrandam a sua descida como um paraquedista o faria, projetando o peito e esticando os membros numa pose exagerada semelhante a uma estrela do mar, de acordo com um novo estudo publicado na revista Current Biology.

Existem cerca de 200 espécies de salamandras em todo o mundo que são conhecidas por escalar árvores, mas este tipo de comportamento aéreo nas salamandras nunca tinha sido descrito antes, diz Christian Brown.

Uma salamandra-errante adota uma postura de paraquedista durante uma experiência no túnel de vento.

Fotografia por Christian Brown

“São salamandras destemidas de cinco gramas que sobem às árvores mais altas da Terra e não têm medo de dar um salto de fé. Creio que isso é inspirador e espero que outras pessoas também sintam o mesmo.”

Inspirado pela National Geographic

Christian Brown ouviu falar pela primeira vez sobre as salamandras-errantes na edição de outubro de 2009 da National Geographic sobre sequoias. Christian sentiu-se imediatamente atraído pelo dossel das sequoias e pelos distintos – e muitas vezes pouco estudados – animais que habitam nelas.

Para fazer o estudo, Christian Brown e a sua equipa usaram um de túnel de vento em miniatura para simular a queda livre das salamandras, como se fosse uma espécie de ginásio coberto de paraquedismo anfíbio.

Depois, os investigadores recolheram cinco salamandras-errantes no solo da floresta californiana, atirando-as individualmente para o túnel de vento. Em cada experiência, a equipa captou os movimentos dos animais em vídeo a alta velocidade para reproduzir em super câmara lenta. Este processo foi repetido com cinco indivíduos de cada uma das outras três espécies de salamandras norte-americanas que passam vários períodos de tempo nas árvores.

Nos 45 testes, as salamandras-errantes colocaram-se imediatamente na posição de paraquedista, uma posição que cria arrasto e retarda a descida do animal. É um efeito semelhante ao que acontece quando colocamos a mão pela janela de um carro e a inclinamos contra o vento.

Em mais de metade das experiências, as salamandras-errantes também ondularam as caudas para fazer correções na trajetória. Por vezes, inclinaram-se para curvar, dobrando uma pata e girando em torno da mesma em pleno voo. Estes esforços deram às salamandras-errantes um controlo preciso sobre a descida e reduziram a sua velocidade em cerca de 10%.

Com estas experiências, a equipa descobriu que há outras espécies de salamandras que também adotam uma postura semelhante à de um paraquedista, embora este comportamento seja mais raro nos anfíbios que passam menos tempo nas árvores. A salamandra Ensatina eschscholtzii, que vive no solo, saltou com uma postura de paraquedista em apenas 3 das 45 tentativas.

“É um ótimo estudo que combina história natural com design experimental”, diz Gary Bucciarelli, ecologista da Universidade da Califórnia, em Los Angeles, que não esteve envolvido neste trabalho. “Isto abre muitas questões sobre o que está realmente a acontecer no habitat natural.”

Desenvolvidas para planar – e escalar

As salamandras-errantes também estão fisicamente desenvolvidas para planar – em comparação com a maioria das salamandras, têm um corpo relativamente plano, patas longas e pés maiores em proporção ao corpo, acrescenta Christian Brown. “Esta fisionomia única também faz das salamandras boas alpinistas.”

“E estes tipos de adaptações também sugerem que a chamada proeza de paraquedismo é útil para outros cenários que vão para além das quedas acidentais ou para fugir de predadores. As salamandras também podem simplesmente procurar outras plataformas de vegetação que se acumulam mais abaixo nos ramos das árvores – para procurar parceiro, água ou sombra.” A suportar este conceito está um estudo feito recentemente, que descobriu que as salamandras-errantes aparentemente não gostam de descer agarradas aos troncos das árvores.

“É um meio de transporte”, diz Christian Brown, “é como se estivessem a usar o elevador da gravidade”.

Este tipo de investigação é particularmente importante, diz Christian, porque há muitas coisas que os ecologistas não sabem sobre as copas das antigas sequoias costeiras. Estas árvores são as mais altas do mundo e são de difícil acesso, exigindo formação e equipamento especial.

Ao mesmo tempo, estes habitats têm encolhido drasticamente. Após décadas de extração comercial, só restam cerca de 5% das sequoias originais da Califórnia; porém, os incêndios florestais continuam a ameaçar o resto. As alterações climáticas provavelmente também irão alterar o ambiente delicado nas copas destas árvores, podendo colocar em perigo os seus habitantes.

“Precisamos desesperadamente de dados de linha de base sobre as copas das sequoias”, diz Christian Brown, “para conseguirmos compreender a forma como estão a mudar e para as proteger”.


Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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