Estes morcegos imitam vespas para evitar predadores

O morcego-rato-grande emite sons de vespas a zumbir, numa aparente tentativa de evitar a predação de aves – uma adaptação notável nunca documentada em mamíferos.

Por Sofia Quaglia
Publicado 12/05/2022, 11:29
morcego

Nesta imagem vemos um morcego-rato-grande (Myotis myotis) em pleno voo. Esta espécie consegue imitar o zumbido de uma vespa para afastar predadores.

Fotografia por WILDLIFE GmbH, Alamy Stock Photo

O mimetismo é bastante difundido no reino animal.

Algumas lagartas conseguem imitar cobras venenosas. As crias de uma ave amazónica chamada chorona-cinza transformam-se em larvas venenosas. As moscas-das-flores evoluíram para se parecerem com vespas perigosas e intragáveis.

Todos estes exemplos referem-se ao mimetismo batesiano, um truque evolutivo que leva um animal relativamente inofensivo a copiar uma espécie mais perigosa para assustar predadores.

Contudo, tanto quanto sabemos, este tipo específico de mimetismo tem quase sempre uma natureza visual. E é geralmente mais encontrado em insetos, aves e répteis.

Agora, um tipo de mimetismo acústico foi observado pela primeira vez em mamíferos. Um estudo publicado no dia 9 de maio na revista científica Current Biology descobriu que uma espécie europeia comum, o morcego-rato-grande, parece imitar o zumbido de vespas – presumivelmente para evitar ser comido por corujas.

“Descobrimos que um mamífero imita o som de um inseto para assustar uma ave predatória”, diz Danilo Russo, autor principal do artigo e professor de ecologia na Universidade de Nápoles Federico II, em Itália. “É uma interação incrível que envolve três espécies evolutivamente muito distantes umas das outras.”

Qual é o zumbido?

Os morcegos-rato-grande, também conhecidos por Myotis myotis, são uma espécie de morcego europeia generalizada que gosta de comer insetos, sobretudo besouros. Estes morcegos convivem em colónias nos bosques e extremidades das florestas, empoleirando-se em cavernas subterrâneas durante a maior parte do ano, ou em edifícios durante o verão. O morcego-rato-grande é frequentemente caçado por várias aves, incluindo as corujas-das-torres (Tyto alba) e corujas-do-mato (Strix aluco), sobretudo quando saem ou regressam aos seus poleiros.

Em 1999, Danilo Russo estava a criar uma biblioteca com os chamamentos de ecolocalização de morcegos europeus e a recolher dados sobre a forma como várias espécies comunicam entre si. “Enquanto retirava um pequeno morcego-rato-grande de uma rede, segurei-o nas mãos, mas a criatura começou a tremer e a emitir um zumbido contínuo e intenso”, diz Danilo, que ficou surpreendido.

“O meu primeiro pensamento foi... isto parecem vespas ou abelhas!”

Ao início, os investigadores pensaram que o zumbido era apenas um simples pedido de ajuda. Mas o som era tão semelhante ao de um inseto que rapidamente deu origem a uma teoria, diz Danilo Russo. Eventualmente, passados vários anos, os investigadores decidiram testar essa teoria: será que os morcegos estavam a imitar vespas ou abelhas?

O próprio Danilo Russo já tinha recolhido amostras de regurgitação de corujas-das-torres na entrada de uma caverna onde estes morcegos se empoleiram. “Acredite ou não, as amostras continham muitos crânios de morcegos”, diz Danilo, “e foi aí que senti que era possível que estes morcegos, evolutivamente falando, pudessem ter ‘feito’ uma tentativa muito extrema para iludir [as corujas] e escapar.”

Dar um pio

Neste novo estudo, Danilo Russo e os seus colegas começaram por comparar os sons de zumbidos de morcegos com os de quatro espécies diferentes de insetos himenópteros, incluindo abelhas (Apis mellifera) e vespas-europeias (Vespa crabro). Os sons foram inicialmente analisados consoante o seu comprimento de onda, frequência, duração do chamamento e muito mais, e os investigadores descobriram que havia uma grande sobreposição na sua estrutura.

As corujas ouvem um espectro mais amplo de comprimentos de onda do que os humanos, levando a equipa a ajustar os parâmetros sonoros para se adequarem ao que uma coruja ouviria, removendo os tons mais agudos. Os investigadores perceberam que o som emitido pelos morcegos eram ainda mais parecidos com os de insetos a zumbir para a audição de uma coruja do que para os humanos. “A semelhança era particularmente forte quando retirávamos as variáveis que não são detetadas pelas corujas”, diz Danilo Russo.

Depois, através de um sistema de som, os investigadores reproduziram dois zumbidos de insetos para duas espécies diferentes de corujas – corujas-das-torres e corujas-do-mato, incluindo animais criados em cativeiro e na natureza. Um som era o de um morcego a zumbir e o outro era o que algumas corujas percebem como o chamamento social de um morcego.

A reprodução dos sons gravados de morcegos fez com que as corujas se aproximassem da fonte sonora, mas também pareceu agitar as corujas. Elas tentaram escapar e distanciar-se das colunas, mas também tentaram inspecionar o que estava a acontecer.

Durante esta experiência, as corujas selvagens, que podiam ter memórias de terem sido picadas por algum inseto voador, agiram de forma mais assustada e mostraram mais propensão para tentar escapar do que as corujas criadas em cativeiro. Danilo Russo e a sua equipa especulam que isto acontece porque os animais criados em cativeiro nunca tiveram um encontro com um inseto que pica. Porém, até agora, existem poucos dados científicos sobre a frequência com que as corujas são picadas por abelhas e vespas, ou que analisem simplesmente se as corujas encontram estes insetos com frequência.

“As corujas sabem certamente de que se trata de um encontro perigoso”, diz Danilo Russo. É por esta razão que Danilo argumenta que este tipo de mimetismo batesiano pode ser uma técnica utilizada quando um morcego é capturado e quer ganhar tempo para tentar escapar.

Futuras investigações

Como é normal nestes tipos de novas descobertas, há muitas questões em aberto.

Os novos estudos vão ter de replicar estas descobertas na natureza, não em laboratório, e com um número maior de corujas, para se poder realmente afirmar que estamos perante um tipo de mimetismo batesiano, diz Bruce Anderson, professor de entomologia na Universidade Stellenbosch, na África do Sul, que não participou no estudo. Outra questão passa por saber se as corujas não estão apenas assustadas com o volume do zumbido dos morcegos, como ficariam com qualquer outro ruído inesperado. “Podemos até questionar se este é um caso de mimetismo ou apenas a exploração sensorial de forma parcial”, diz Bruce Anderson.

Também não está confirmado se, e até que ponto, as corujas receiam os insetos que zumbem – embora os dados pareçam sugerir que as aves geralmente evitam nidificar nas cavidades ocupadas por estes tipos de insetos. Os investigadores também precisam de perceber se estes zumbidos são exclusivos dos insetos que picam ou se há outros insetos neutros que também os podem produzir. E também seria positivo testar se as corujas que foram picadas reagem com mais receio do que as que nunca passaram por essa experiência, diz David Pfennig, professor de biologia na Universidade da Carolina do Norte, em Chapel Hill, que não esteve envolvido no estudo.

Embora o mimetismo seja comum e alguns casos de mimetismo batesiano estejam até bem documentados, há muitas questões sobre este comportamento que são um verdadeiro mistério, diz David Pfennig. É por esta razão que as descobertas como esta são importantes. “O mimetismo batesiano revela alguns dos melhores exemplos de como a seleção natural pode produzir uma adaptação notável, inclusive entre grupos de organismos muito distantes”, diz David Pfennig. Existem outros exemplos de mimetismo acústico entre espécies diferentes, como por exemplo a forma como as corujas podem produzir sons sibilantes que se assemelham a cascavéis, por outro lado, um mamífero a imitar um inseto seria uma coisa inédita.

O plano dos investigadores é melhorar as técnicas de estudo e expandir a investigação.

“Embora seja sempre útil validar as observações feitas no campo, os nossos resultados são bastante evidentes”, diz Danilo Russo. “Seria interessante encontrar estratégias semelhantes noutras espécies.” E com mais de 1400 espécies de morcegos, bem como um punhado de espécies de vertebrados que não são morcegos e que zumbem quando são perturbadas, Danilo Russo acredita que outras espécies para além da estudada também podem recorrer ao mesmo truque.

Ter animais que vivem em cavidades e imitam sons assustadores como estratégia para evitar predadores pode ser, de facto, uma coisa generalizada, diz Anastasia Helen Dalziell, investigadora de ornitologia na Universidade de Wollongong, na Austrália, que não participou no estudo.

“A maior parte do que sabemos sobre mimetismo vem dos estudos feitos sobre mimetismo visual, contudo, em princípio, os sinais miméticos podem operar em qualquer [tipo] sensorial”, diz Helen Dalziell. “É realmente ótimo ter outro exemplo de mimetismo acústico… para ajudar a incentivar uma investigação mais ampla sobre o mimetismo.”


Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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