Estudo inédito revela que os golfinhos conseguem identificar os amigos através do paladar

Estes mamíferos marinhos usam várias pistas, incluindo os seus assobios únicos, para formar uma consciência complexa sobre os outros animais nas suas mentes.

Por Rebecca Dzombak
Publicado 24/05/2022, 11:01
golfinho

Uma cria de roaz-corvineiro explora uma lagoa alimentada pelo oceano no Dolphin Quest, no Museu Nacional das Bermudas.

Fotografia por Christian Adair, Dolphin Quest

Os humanos dependem de uma série pistas para reconhecer os amigos, quer seja a forma como sorriem, as suas vozes ou a maneira como andam. Os biólogos já sabem há várias décadas que os golfinhos formam amizades íntimas e que identificam os amigos através dos seus assobios únicos. Agora, uma nova investigação sugere que os roazes-corvineiros usam o paladar para discernir a urina dos seus amigos da de golfinhos não relacionados.

O líder do estudo, Jason Bruck, biólogo marinho da Universidade Stephen F. Austin, no Texas, não tinha como objetivo identificar se os roazes-corvineiros conseguiam identificar-se uns aos outros através da urina. O objetivo original era testar se os golfinhos usavam os seus assobios da mesma forma que as pessoas usam os nomes. Contudo, para o fazer, Jason precisava de identificar uma segunda forma pela qual os golfinhos se identificassem.

Para descobrir se os golfinhos conseguiam associar um assobio a um golfinho específico, Jason Bruck recorreu a uma substância improvável: a urina. Outro cientista já tinha observado golfinhos selvagens a nadar propositadamente através de plumas de urina, levando Jason a suspeitar que estes estavam a recolher informações.

“Foi um tiro no escuro”, diz Jason Bruck, cujo estudo foi publicado na revista Science Advances. “Para ser sincero, não estava à espera que funcionasse.”

Nas experiências feitas com golfinhos em cativeiro, a equipa descobriu que os golfinhos prestavam mais atenção à urina e aos assobios dos amigos próximos, sugerindo que estes conheciam os animais que os emitiam, diz Jason.

Esta descoberta é a primeira evidência forte de um animal a identificar outros membros da sua espécie através do paladar. E também mostra que, ao usar pelo menos duas pistas para identificar outros indivíduos, os golfinhos têm uma compreensão complexa sobre a sua família e amigos – assim como acontece com os humanos.

“Fiquei em choque, apenas em choque”, diz Jason Bruck. “Fiquei com um sorriso enorme estampado na cara, do género, meu Deus, isto funcionou.”

Ansiosos por participar

Em 2016 e 2017, Jason Bruck e os seus colegas observaram vários roazes-corvineiros em instalações de interação com golfinhos nas Bermudas e no Havai, estruturas que também mantêm um consórcio de reprodução para esta espécie. Nestes locais Dolphin Quest, os golfinhos vivem em lagoas alimentadas por água do mar natural, que simula o seu ambiente na natureza.

O primeiro passo dos investigadores foi perceber se os golfinhos conseguiam detetar urina na água do mar. Ao longo do tempo evolutivo, os roazes-corvineiros perderam o olfato, mas mantiveram um forte sentido de paladar.

Em lagoas extensas com golfinhos separados temporariamente, os cientistas despejaram água com gelo e depois observaram a forma como cada animal reagia. Os golfinhos mais curiosos, que provaram a água gelada, eram bons candidatos para a experiência. De seguida, a equipa precisava de testar se as reações dos animais à água gelada e à urina variavam, e se respondiam de maneira diferente à urina familiar em comparação com urina desconhecida.

A equipa sabia com quem é que os golfinhos estavam familiarizados, porque sabia com quem é que os animais tinham vivido durante pelo menos cinco anos. Assim, os investigadores despejaram cerca de 20 mililitros de urina de um golfinho familiar e de outro desconhecido na lagoa, e repetiram este processo aleatoriamente.

Os golfinhos perderam cerca de três vezes mais tempo a investigar a urina familiar do que a urina desconhecida, com alguns indivíduos a provarem a substância familiar durante mais de 20 segundos. Os cetáceos prestaram pouca atenção à urina desconhecida, provando-a apenas durante o mesmo tempo em que provaram a água gelada.

Veja Golfinhos de "Mãos Dadas"
Além do toque físico, os machos nadam em sincronia de forma a manterem os seus relacionamentos sólidos. Um novo estudo destaca a complexidade das relações entre os golfinhos-nariz-de-garrafa masculinos na Baía de Shark, na Austrália Ocidental. Investigadores da Universidade da Austrália Ocidental também descobriram que os golfinhos usam chamadas individuais ou “nomes” para se identificarem, e usam os seus “nomes” para lembrar amigos… e rivais. Grupos de dois ou três machos unem-se para ajudar nas hipóteses de encontrar e procriar com novas fêmeas. Os grupos menores podem formar alianças maiores de segundo nível. Os golfinhos lembram-se de quem é quem, e preferem a companhia de alguns sobre os outros."

“Os golfinhos estavam muito, muito ansiosos por participar”, diz Jason Bruck, acrescentando que os animais não foram recompensados com comida. “Geralmente, os golfinhos ficam entediados com as minhas experiências. Estávamos a explorar algo que faz parte do mundo dos golfinhos.”

Expectativas de cetáceo

O teste final investigou se os golfinhos tinham uma compreensão emparelhada sobre as pistas de outros golfinhos – por outras palavras, se o assobio e a urina de um indivíduo estavam associados nas suas mentes.

Para o fazer, Jason Bruck recorreu ao que os ecologistas comportamentais chamam “violação de expectativa”: mostrar aos animais algo que não faz sentido e ver como reagem. Nos humanos, seria o mesmo que ver o rosto do nosso melhor amigo, mas ouvir uma voz diferente. (Descubra como os golfinhos selvagens têm personalidades ousadas ou tímidas – como os humanos.)

Para esta experiência final, Jason Bruck testou combinações diferentes de assobios e urina em dez golfinhos, cinco dos quais eram os mesmos animais que já tinham participado nos testes anteriores.

Quando expostos a uma combinação incorreta de assobios e urina, os golfinhos não prestaram muita atenção – talvez uma inovação útil na natureza, onde os mamíferos são inundados com assobios e urina incompatíveis, diz Jason.

Mas quando um golfinho encontrou o par correto de sons e urina, o animal explorou a área durante uma média de 10 segundos a mais do que as áreas com elementos incompatíveis. Dois indivíduos permaneceram no local durante mais de 40 segundos – a evidência convincente de que a equipa precisava para demonstrar que os golfinhos conseguem reconhecer os seus amigos.

Um gostinho do sucesso

“É muito difícil demonstrar que existe um conceito na mente de um animal, ou seja, estes tipos de experiências que tentam responder a essa questão são muito interessantes e úteis”, diz Bruno Díaz López, biólogo-chefe do Instituto de Pesquisa de Roazes-corvineiros, sediado em Espanha, que não participou no estudo.

Bruno López diz que gostava de ver estudos semelhantes realizados na natureza e acrescenta que “esta é uma boa abordagem e um bom primeiro passo” para compreender o papel que o paladar pode desempenhar no reconhecimento entre golfinhos.

“Isto aprofunda realmente a nossa compreensão sobre a forma como os golfinhos têm noção uns dos outros, algo que, como todos sabemos, é muito importante para eles”, diz Laela Sayigh, bióloga marinha do Instituto Oceanográfico Woods Hole, em Massachusetts, que também não participou no estudo.

“Isto abre as portas para outros tipos de interrogações sobre o que os golfinhos podem estar a aprender com os vestígios de urina”, diz Laela Sayigh.

Jason Bruck, por seu lado, está ansioso para descobrir qual é o mecanismo biológico usado pelos golfinhos para identificar a urina.

Uma das possibilidades promissoras reside nos lípidos presentes na urina, que podem ser detetados através de uma “antena” física que os golfinhos têm nas suas papilas gustativas. Esta investigação é particularmente urgente, acrescenta Jason, porque não sabemos o impacto que a poluição provocada pelo homem tem nestes tipos de capacidades dos golfinhos.


Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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