Morcego minúsculo faz voo migratório recorde de 2400 quilómetros

Pesando menos de 30 gramas, um morcego-de-nathusius fêmea voou desde a Rússia até aos Alpes franceses numa longa jornada que pode não ser assim tão invulgar, segundo os especialistas.

Por Christine Peterson
Publicado 5/05/2022, 10:47
morcego-de-nathusius

O morcego-de-nathusius (na imagem vemos um animal fotografado na Alemanha) hiberna acima do solo, o que significa que precisa de lugares mais quentes para passar o inverno.

Fotografia por Franz Christoph Robiller, AP

Uma jovem fêmea morcego, com menos de 30 gramas, voou mais de 2440 quilómetros desde a Rússia até aos Alpes franceses, o voo mais longo de que há registo.

Este morcego-de-nathusius (Pipistrellus nathusii) superou o recorde estabelecido anteriormente por outro indivíduo da mesma espécie, que voou mais de 2220 quilómetros desde a Letónia até Espanha em 2017.

O morcego-de-nathusius é um morcego europeu com uma pelagem castanho-avermelhada e uma envergadura de asas a rondar os 22 centímetros. Os cientistas já sabiam que está espécie conseguia migrar várias centenas de quilómetros, mas este novo registo sugere que estas longas jornadas fazem parte do seu ciclo de vida, segundo Juan Tomás Alcalde, presidente da Associação Espanhola para a Conservação e Pesquisa de Morcegos, em Madrid, que registou o voo de 2017.

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“Duas migrações de morcegos com mais de 2200 quilómetros na mesma direção não são uma coincidência”, diz Juan Alcade por email. “Existe uma população desta espécie a migrar longas distâncias pela Europa.”

A façanha deste novo recordista passou completamente despercebida até que Jean-François Desmet, ecologista animal do Grupo de Pesquisa e Informação sobre Fauna em Ecossistemas de Montanha (G.R.I.F.E.M) em França, se envolveu.

Jean-François ficou curioso quando ouviu falar sobre um morcego que tinha sido encontrado morto no outono de 2009 num tanque de água perto de uma vila nos Alpes franceses. Os habitantes da vila tiraram fotografias ao morcego, que estava equipado com uma pequena anilha de alumínio estampada com a palavra “RÚSSIA” e um número. A partir destas imagens, Jean-François demorou anos até conseguir rastrear Denis Vasenkov, um investigador da Academia Russa de Ciências que tinha anilhado o animal pela primeira vez na Reserva Natural da Biosfera de Darwin, no noroeste da Rússia.

“Só em março de 2021 é que conheci quem tinha anilhado o morcego e consegui entrar em contacto com ele”, diz Jean-François, cuja descoberta foi publicada recentemente na revista científica Mammalia. “Foi isso que possibilitou revelar a importância da distância percorrida por este morcego.”

Jean-François Desmet e Juan Alcade acreditam que estes morcegos estão a percorrer distâncias ainda maiores do que as registadas até agora. Como as anilhas não estão equipadas com localizadores GPS, os investigadores só sabem onde é que um morcego foi anilhado e onde foi encontrado.

E como o cálculo atual de 2440 quilómetros é a distância em linha reta entre os dois pontos, é quase garantido que o último recordista percorreu uma distância muito maior na sua jornada – podendo ter chegado aos 3000 quilómetros, segundo os investigadores.

Morcegos além fronteiras

Dos cerca de 1500 morcegos que Denis Vasenkov capturou e anilhou nos últimos 20 anos, esta fêmea notável é a única que foi encontrada fora do país e depois devolvida.

“Foi uma notícia muito emocionante”, diz Denis Vasenkov, que estuda a migração de morcegos na Rússia. “Verificámos isto nos mapas várias vezes porque era difícil de acreditar, apesar de sabermos que as longas migrações são comuns para esta espécie.”

Os morcegos-de-nathusius geralmente passam a verão a reproduzir e a cuidar das suas crias no nordeste da Europa, antes de migrarem para sudoeste, para hibernar durante os meses mais frios. Esta espécie prefere hibernar acima do solo, nos edifícios ou nas árvores, o que significa que requer climas mais quentes do que os morcegos que hibernam em cavernas ou noutros ambientes fechados.

A fêmea de um ano provavelmente voou ao longo da costa do Mar Báltico durante a noite, parando para caçar moscas e outros insetos e encontrar lugares para descansar, como fendas ou buracos em árvores ou caixas-ninho, diz Jean-François Desmet.

Denis Vasenkov suspeita que a fêmea continuou a voar à procura de temperaturas mais quentes, e foi assim que acabou nos Alpes franceses no outono – e encontrou eventualmente a sua morte prematura. Ou também pode simplesmente ter-se perdido.

Futuro incerto

De acordo com um artigo publicado em 2020 na Annals of the New York Academy of Sciences, apesar de os morcegos representarem quase um quinto da biodiversidade do planeta, mais de metade das espécies têm populações desconhecidas ou em declínio. Os especialistas referem que é importante descobrir mais sobre a migração dos morcegos e identificar as barreiras que podem impedir os seus movimentos, algo que pode ajudar nos trabalhos de conservação.

Na Europa, as populações de morcegos-de-nathusius são consideradas estáveis e possivelmente até em expansão em algumas regiões do norte da sua área de distribuição, mas estes morcegos são frequentemente encontrados mortos perto de parques eólicos, diz Juan Alcalde. Os morcegos morrem porque colidem com as pás ou devido a um fenómeno chamado barotrauma, quando a pressão do ar muda repentinamente perto das pás das turbinas eólicas, provocando hemorragia nos morcegos.

“Os parques eólicos são relativamente recentes e a energia eólica está a crescer muito rapidamente na maior parte da Europa”, diz Juan Alcade. O uso desta fonte de energia na região aumentou 18% entre 2020 e 2021 – valores que continuam muito abaixo da meta desejada pela Europa.

“Esperamos observar uma diminuição nas populações de morcegos migratórios num futuro próximo”, continua Juan Alcade. Isto acontece sobretudo porque os morcegos-de-nathusius têm uma reprodução lenta, criando apenas uma cria por ano durante a sua vida útil de 13 anos. Os outros morcegos migratórios também enfrentam desafios semelhantes.

Contudo, o futuro destes pequenos viajantes pode não ser assim tão mau: Juan Alcalde refere experiências que mostram que as turbinas eólicas podem mudar os seus horários de operação quando os morcegos estão a migrar, uma intervenção que pode reduzir o número de fatalidades.

Estes tipos de medidas, diz Juan, “deviam ser implementados em todos os parques eólicos que representam um perigo para os morcegos – antes que seja tarde demais”.
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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