O sangue dos animais vem numa variedade de cores – descubra porquê

Desde um azul leitoso a verde lima, os organismos desenvolveram diferentes tipos de sangue – e formas de transportar oxigénio pelo corpo.

Por Liz Langley
Publicado 18/05/2022, 13:18
caranguejos-ferradura

Sangue azul de caranguejos-ferradura do Atlântico é extraído no Laboratório Charles River em Charleston, na Carolina do Sul. Todos os anos, as empresas farmacêuticas recolhem meio milhão de caranguejos e sangram-nos para recolher uma substância valiosa para a saúde humana, devolvendo depois os animais ao oceano.

Fotografia por Timothy Fadek, Redux

Quer seja um caracol minúsculo ou uma baleia enorme, a maioria dos organismos depende do sangue que flui através dos seus corpos para se manter viva.

Este fluido precioso combate infeções, fornece nutrientes e gases aos órgãos e arrasta consigo os resíduos. Mas o que a maioria das pessoas imagina como sangue – vermelho e cheio de ferro, por exemplo – difere consoante a espécie.

Por exemplo, alguns crustáceos, lulas e polvos têm sangue azul devido à hemocianina, uma proteína portadora de oxigénio, que contém cobre, diz Stephen Palumbi, biólogo marinho da Universidade de Stanford. (É um pouco como os Vulcans de sangue verde do Star Trek, diz Stephen Palumbi em tom de brincadeira.) Nos animais marinhos, a hemocianina é incolor, mas fica azul quando se liga ao oxigénio.

Algumas lulas, como a lula-curta do Atlântico (na imagem vemos um animal fotografado no Laboratório e Aquário Marinho de Espécimes do Golfo) têm sangue azul porque este contém cobre metálico.

Nos humanos, a proteína hemoglobina é que transporta o oxigénio. “A hemocianina é apenas uma maneira diferente de mover o oxigénio”, diz Stephen Palumbi por email. “Muitas vezes a evolução inventa coisas diferentes para servir o mesmo propósito.”

A hemocianina, que evoluiu há quase 2.5 mil milhões de anos, servia originalmente para desintoxicar o oxigénio para os organismos primitivos no ambiente anaeróbico ou de baixo oxigénio da Terra, diz Christopher Coates, imunologista da Universidade de Swansea, no País de Gales. Mais tarde, quando a atmosfera se tornou mais rica em oxigénio, esta proteína evoluiu novamente para fornecer oxigénio a todo o corpo de um organismo.

A hemoglobina evoluiu muito mais tarde, possivelmente há cerca de 400 milhões de anos. Christopher Coates diz que esta evolução provavelmente aconteceu porque os vertebrados têm sistemas respiratórios mais complexos do que os organismos simples. De facto, a maior parte do sangue de mamíferos, peixes, répteis, anfíbios e aves é vermelha por causa da hemoglobina, cuja proteína é feita de hemes, ou moléculas que contêm ferro e que se fundem com o oxigénio.

A hemerritrina é outro pigmento que contém ferro e que se liga às moléculas do oxigénio, conferindo uma tonalidade rosa-púrpura ao sangue de alguns moluscos, como por exemplo às conchas Brachiopoda e ascídias.

Depois também temos o exemplo do peixe-gelo da Antártida, que não tem qualquer pigmento no sangue graças a uma mutação genética que removeu a hemoglobina do seu corpo. No habitat gélido do sul onde este peixe vive, o oxigénio é abundante e o gás penetra diretamente através das guelras e da pele do peixe.

Os insetos não têm sangue, possuindo em vez disso um fluido semelhante chamado hemolinfa, que transporta hormonas e gases através do seu sistema, exceto  oxigénio – os insetos absorvem-no diretamente através de aberturas nas laterais ou nas costas.

“É como se tivessem narinas alinhadas nas laterais do corpo”, diz Julie Peterson, entomologista da Universidade Nebraska-Lincoln. A hemolinfa pode ter pigmentos amarelados ou verde-azulados que vêm das dietas vegetais dos insetos.

Sangue como arma

Alguns animais conseguem usar o próprio sangue como uma forma teatral de mecanismo de defesa, um processo chamado ‘sangramento reflexo’ ou ‘auto-hemorragia’, no qual começam a sangrar abundantemente para afastar os predadores.

Os lagartos com chifres do sudoeste dos EUA e do México projetam arcos de sangue dos olhos quando se sentem ameaçados por um predador, como por exemplo um coiote. O invasor é recebido com uma surpresa nojenta, ao passo que o lagarto vive para esguichar mais um dia.

Alguns insetos, como o besouro asiático multicolorido, têm um “líquido muito nocivo, nojento, desagradável e fedorento” que se mistura com a sua hemolinfa, diz Julie Peterson. E expelem esta mistura dos olhos ou das articulações nas pernas quando são perturbados.

Um dos parentes deste besouro, o besouro de nariz sangrento, vomita hemolinfa vermelha da boca, que parece sangue, para atingir o mesmo propósito.

Um besouro de nariz sangrento liberta as suas defesas de hemolinfa em Wiltshire, Inglaterra.

Fotografia por Tony Hamblin, Minden Pictures

Para evitar parasitas, os lagartos Prasinohaema prehensicauda da Nova Guiné usam algo que se pode chamar sangue sujo. A acumulação constante de um pigmento biliar chamado biliverdina, o produto residual dos glóbulos vermelhos quebrados, faz com que o sangue, ossos, bocas, línguas e outras partes do corpo destes répteis fiquem com um tom verde lima.

Noutros animais, o fígado processa a biliverdina extra “como se fosse o filtro do óleo do nosso carro”, removendo as impurezas para que o motor funcione bem, diz Chris Austin, diretor do Museu de Ciências Naturais da Universidade do Louisiana, que descobriu que a biliverdina é a responsável pelo sangue verde deste lagarto.

Se uma pessoa tivesse uma quantidade semelhante de biliverdina, poderia ser fatal. “Portanto, porque é que estes lagartos não estão mortos?” pergunta Chris Austin. Chris teoriza que os corpos destes animais desenvolveram formas de lidar com a biliverdina como uma estratégia para matar parasitas sanguíneos – especificamente os que provocam malária.

Criaturas sem sangue

Alguns animais não têm sangue ou sistema circulatório porque simplesmente não precisam.

Os platelmintos, por exemplo, não têm sistema circulatório; a troca gasosa ocorre diretamente através da pele. O oxigénio vai diretamente para os tecidos, ao passo que os nutrientes são fornecidos pela difusão no intestino.

As medusas e esponjas do mar também recebem oxigénio através de difusão. Para as estrelas e pepinos-do-mar, a água é equivalente ao sangue, movendo nutrientes e gases pelos seus sistemas através de um processo vascular à base de água. (Descubra por que razão os animais desenvolveram quatro tipos de esqueletos.)

Tipos de sangue

Os humanos têm oito tipos sanguíneos, mas não somos os únicos animais que têm esta característica hereditária, diz Jethro Forbes, especialista em cuidados intensivos da Universidade Cornell de Medicina Veterinária.

Os animais selvagens provavelmente também têm tipos sanguíneos, embora as espécies domésticas sejam as mais bem estudadas. Os gatos têm três tipos sanguíneos, as galinhas têm até 28 e os furões domésticos “não parecem ter tipos sanguíneos diferentes”, diz Jethro Forbes. (Galinha com ossos, carne e órgãos pretos. Porquê?)

Porquê esta disparidade? É provável que os furões domésticos sejam extremamente consanguíneos, com pouca diversidade genética, por outro lado, existem dezenas de raças de galinhas e, portanto, tipos sanguíneos mais variados.

Sangue prestável

Em alguns casos, o sangue animal tem aplicações úteis para a saúde humana. O sangue azul e rico em hemocianina dos caranguejos-ferradura do Atlântico, por exemplo, coagula quando entra em contacto com toxinas bacterianas. Isto torna-o numa ferramenta valiosa para garantir que os medicamentos ou produtos – principalmente vacinas – são seguros e estão livres de contaminantes.

Porém, o processo de recolha e sangria destes caranguejos – até meio milhão por ano – pode matá-los, e nos últimos anos tem reduzido o número populacional da espécie na região centro do Atlântico. É por esta razão que os cientistas estão a tentar encontrar alternativas sintéticas que reduzam a necessidade de captura de animais selvagens.


Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

 

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