Alguns animais evoluíram para se sacrificar. Porquê?

Desde bois-almiscarados que dão marradas a abelhas que se sacrificam, a evolução favorece as populações, não os indivíduos.

Por Jason Bittel
Publicado 30/06/2022, 11:36
toro

Para além de um disco de acreção de matéria muito quente próximo do buraco negro, estes podem ter um toro – uma estrutura em forma de donut – de espessas nuvens de gás e poeira, mais exterior. Conforme a orientação desse toro, ele poderá ocultar o buraco negro do nosso ponto de vista da Terra.

Fotografia por NASA/JPL-Caltech

Um boi-almiscarado macho pode pesar até 360 quilos e atingir velocidades superiores a 50 km por hora. Durante a época de acasalamento, estes gigantes peludos do Círculo Polar Ártico colidem uns contra os outros de frente e depois apunhalam-se com os seus chifres enormes e afiados.

Como se não bastasse, ao longo dos seus 10 a 12 anos de vida, um boi-almiscarado macho pode sofrer algo como 2.100 pancadas na cabeça.

Tudo isto levanta uma questão – como é que os bois-almiscarados sobrevivem a estes ataques sem transformarem os seus cérebros em papa?

“As pessoas partiram sempre do princípio que os animais que dão marradas, como os bois-almiscarados e os carneiros-selvagens, eram de alguma forma imunes aos ferimentos na cabeça”, diz Nicole Ackermans, neurocientista da Escola de Medicina Icahn no Monte Sinai, em Nova Iorque. “Era como se tivessem chifres mágicos, ou algo assim.”

Contudo, quando Nicole Ackermans começou a escrutinar a literatura científica, descobriu que ninguém tinha estudado se estes herbívoros da América do Norte sofriam danos cerebrais devido aos seus estilos de vida a marrar com a cabeça. Nicole Ackermans e os seus colegas adquiriram os cérebros de bois-almiscarados e carneiros-selvagens vindos de uma combinação entre expedições de campo, doações de caçadores de subsistência e rebanhos de investigação em cativeiro.

“Encontrámos um padrão específico em todos os nossos espécimes que parecia muito semelhante ao trauma cerebral crónico precoce nos humanos”, diz Nicole Ackermans, que liderou um artigo publicado recentemente sobre as descobertas na revista Acta Neuropatholgica.

Esta nova investigação pode ser fundamental para obtermos uma compreensão mais aprofundada sobre as lesões cerebrais nos humanos, diz Nicole, porque os bovídeos (animais como bois e ovelhas) têm cérebros enrugados que são mais parecidos com os nossos do que, digamos, os ratos, cujos cérebros são mais lisos.

E também é uma evidência de que a evolução pode fazer com que uma espécie siga por caminhos surpreendentemente autodestrutivos. Nesse sentido, os bois-almiscarados estão longe de estarem sozinhos.

‘Basta não morrer’

Para fazer a investigação, Nicole Ackermans e os seus colegas tingiram os cérebros de três bois-almiscarados e quatro carneiros-selvagens com biomarcadores. Estes químicos podem iluminar os padrões de lesão cerebral traumática normalmente associada a condições humanas, como a doença de Alzheimer e encefalopatia traumática crónica. Neste caso, os cientistas procuravam especificamente por algo conhecido por proteína tau.

“Quando os nossos neurónios ficam danificados, quer seja devido ao envelhecimento, problemas genéticos ou a impactos, os neurónios desfazem-se e a referida proteína decompõe-se e forma-se em aglomerados”, explica Nicole Ackermans. “Quando observamos estes aglomerados organizados em padrões específicos, é quando conseguimos dizer se estamos perante um cérebro normal, um cérebro envelhecido, doença de Alzheimer ou até trauma.”

Infelizmente, o método dos biomarcadores não funcionou muito bem nos cérebros dos carneiros-selvagens, embora estes mostrassem sinais de acumulação de proteína tau. Os cérebros dos bois-almiscarados, por outro lado, iluminaram-se com esta proteína como se fossem uma árvore de Natal.

À primeira vista, pode não fazer muito sentido que um comportamento natural, como dar marradas, possa ser tão prejudicial. Porém, o mais importante é o objetivo a longo prazo, diz Nicole Ackermans.

“Um boi-almiscarado dá várias marradas por ano, mas se conseguir reproduzir, já cumpriu o seu dever. O que é encorajado, evolutivamente, é não morrer.”

O facto de os bois-almiscarados macho viverem menos de 15 anos e as fêmeas viverem entre 15 a 23 anos provavelmente também ajuda, acrescenta Nicole. Portanto, mesmo que as proteínas tau estejam a acumular-se ao longo da vida destes animais, podem nunca acumular-se até um ponto em que provocam doenças como a de Alzheimer ou outras demências.

“As vidas destes animais não são complicadas, ou seja, em teoria, sobrevivem o tempo suficiente para fazer o que precisam de fazer.”

“Mas mesmo que desenvolvessem esse tipo de condições, não há uma escala comportamental para os bois-almiscarados. Portanto, não conseguimos determinar se, por exemplo, estão a esquecer-se das coisas.”

Agora, Nicole Ackermans quer estudar várias espécies de pica-paus para perceber se estes apresentam traumas cerebrais devido aos seus comportamentos – abanar violentamente a cabeça. O único estudo que analisou cérebros de aves até agora encontrou algumas evidências de proteínas tau, mas não estavam realmente dispostas num padrão específico.

Acasalar até à morte

De certa forma, os bois-almiscarados funcionam como um paralelo interessante para alguns marsupiais, diz Diana Fisher, ecologista de mamíferos da Escola de Ciências Biológicas da Universidade de Queensland, na Austrália.

Os ratos-marsupiais-australianos (Antechinus) são pequenos carnívoros de um género nativo da Austrália continental e da Tasmânia. Nos últimos anos, estes animais foram notícia pela forma como os machos praticam a chamada semelparidade – ou um só evento explosivo de reprodução, seguido de uma morte programada. As fêmeas Antechinus podem viver três anos ou mais. Mas os machos raramente duram mais de 11 meses.

“Estes animais têm uma época de acasalamento muito frenética”, diz Diana Fisher. Os períodos de acasalamento podem durar entre 12 a 14 horas e, depois disso, cada macho tenta acasalar com as outras fêmeas que conseguir – o que faz com que acabe por morrer.

“O colagénio que têm na pele desintegra-se, os intestinos desintegram-se e também sofrem hemorragias internas”, diz Diana Fisher. “Ficam extremamente suscetíveis a parasitas e doenças, e o seu sistema imunitário falha.” Em poucas semanas, estão mortos.

“Isto é muito invulgar para os mamíferos, que têm tendência para sobreviver tempo suficiente para passar por várias épocas de acasalamento.”

A reprodução suicida é mais comum nos insetos, peixes, plantas e aracnídeos – por exemplo, durante o acasalamento da aranha Latrodectus hasselti, outra espécie nativa da Austrália, o macho coloca-se na boca da fêmea.

“Isto dissuade a fêmea de acasalar com outros machos”, diz Diana Fisher, “porque está ocupada a comer”.

Insetos autodestrutivos

Nas colónias de insetos sociais acontece uma dinâmica semelhante, mas ligeiramente diferente.

Quando uma abelha-europeia pica um agressor que tem uma pele macia, como um urso, a abelha morre porque o ferrão fica alojado na pele da vítima. As chamadas formigas explosivas, por exemplo, conseguem rasgar o abdómen em dois enquanto defendem o seu ninho de atacantes. E em algumas espécies de térmitas, as formigas obreiras mais idosas podem transformar-se em bombistas suicidas.

Em termos evolucionários, como é que faz sentido acabar com a própria vida?

“Isso é fácil de responder”, diz por email Thomas Seeley, biólogo da Universidade Cornell e autor de The Lives of Bees. “As formigas obreiras não alcançam o sucesso genético (evolutivo) através da reprodução, mas sim ajudando a mãe, a rainha da colónia, a fazê-lo.”

“Ajudam a defender a colónia, por exemplo”, explica Thomas Seeley.

“Alguns investigadores chamam-lhe ‘superorganismo’”, diz Alice Laciny, entomologista que trabalha com formigas explosivas no Museu de História Natural de Viena. “Isto é, uma colónia de formigas ou colmeia de abelhas é como se fosse um animal grande, com a rainha a representar os órgãos reprodutores. As obreiras mais pequenas são numerosas e precisam apenas de pequenas quantidades de recursos para viver, ou seja, de certa forma, são semelhantes às células do corpo.”

Tal como acontece com os bois-almiscarados, também o comportamento aparentemente violento e autodestrutivo das formigas obreiras parece compensar, desde que resulte em reprodução.

“Neste sistema das formigas, proteger a rainha – e as irmãs, se necessário – mesmo que exija um sacrifício, é a maneira de uma formiga obreira transmitir os seus genes”, diz Alice Laciny.

O derradeiro sacrifício de uma mãe

Outra forma de sacrifício no reino animal revela bem até onde algumas mães estão dispostas a ir para dar às suas crias uma oportunidade de sobrevivência.

A primeira refeição de algumas espécies de anfíbios ápodes, conhecidos por cecílias, é literalmente a camada superior da pele da mãe. E as aranhas sociais africanas vão ainda mais longe, com algumas fêmeas a permitirem que as suas crias pratiquem matrifagia – matar e comer a própria mãe.

Contudo, as fêmeas de polvo gigante do Pacífico são provavelmente as mães mais abnegadas de todas. Estas fêmeas podem vigiar os seus ovos durante uns incríveis quatro anos – durante os quais nem sequer comem.

“Porém, esgotam todas as suas reservas corporais e morrem enquanto guardam os ovos”, diz Diana Fisher.

“Sentimos pena destes animais, mas é assim que muitas espécies conseguem a melhor prole para a geração seguinte.”

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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