Para os insetos, o dossel da Amazónia é um multiverso deslumbrante

Na cobertura da floresta tropical, os insetos vivem em ecossistemas que diferem muito desde o solo até ao dossel, segundo um novo estudo.

Por Natasha Daly
Publicado 9/06/2022, 11:32
insetos

Apanhada a oito metros acima do solo, esta espécie de mosca ainda por nomear é uma “máquina assassina de parasitoides” que injeta os seus ovos noutros insetos, diz o entomologista Brian Brown, curador de entomologia do Museu de História Natural do Condado de Los Angeles. Brian Brown fotografou os insetos neste artigo com uma configuração de câmara e microscópio originalmente desenvolvida para examinar falhas em chips de computador.

Fotografia por Brian Brown, Natural History Museum of Los Angeles County

“Eu pensei, meu Deus, é como se alguém tivesse descoberto outro continente!” diz Brian Brown, curador de entomologia do Museu de História Natural do Condado de Los Angeles. Brian refere-se a insetos.

Quando estudam insetos na Amazónia, a maioria dos entomologistas baixa os olhos para se focar nos intrincados caminhos de musgo e vegetação rasteira que compõem o solo da floresta tropical. Mas José Albertino Rafael quis olhar para cima. Muito para cima – mais de 30 metros de altura – até ao dossel.

A cerca de duas horas a noroeste de Manaus, no Brasil, uma torre de aço de 40 metros ergue-se entre uma área da floresta tropical intocada. Construída em 1979, esta torre era muito usada para rastrear a troca de dióxido de carbono entre as árvores e a atmosfera, mas mais recentemente tem sido usada para investigações pioneiras em entomologia.

Fotografia por Craig Cutler

Durante duas semanas em 2017, José Rafael, um entomologista do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazónia, no Brasil, e os seus colegas apanharam insetos a várias altitudes, começando ao nível do solo e acabando numa torre de 40 metros erguida no meio da Amazónia, nos arredores de Manaus.

As descobertas foram surpreendentes, diz Brian Brown, que fez parte da equipa que examinou e registou os 37.000 insetos recolhidos. Quase metade eram moscas. “Havia coisas estranhas e diferentes. Eu nem sequer sabia de que género eram, quanto mais a espécie.”

SOLO

Os besouros floridos têm um corpo triangular que os ajuda a escapar de predadores.

Fotografia por Brian Brown, Natural History Museum of Los Angeles County

Os resultados desta análise, publicados na revista Nature no dia 2 de fevereiro, apontam para uma rede distinta e não examinada de ecossistemas nas árvores da floresta tropical. Por exemplo, mais de 60% das 857 espécies de moscas recolhidas foram encontradas acima do nível do solo. Muitas, se não a maioria, provavelmente são novas espécies, diz Brian Brown.

Os estudos feitos anteriormente comparavam os insetos no solo com os do dossel, mas este é um dos primeiros esforços para compreender a diversidade de insetos em intervalos verticais mais reduzidos.

8 METROS

A vespa louva-a-deus usa o seu ovipositor – um órgão em forma de agulha para colocar ovos – para perfurar as cascas dos ovos de louva-a-deus. Quando as larvas da vespa eclodem, alimentam-se dos ovos de louva-a-deus.

Fotografia por Brian Brown, Natural History Museum of Los Angeles County

Estas descobertas sublinham o quanto do mundo dos insetos permanece desconhecido, diz Floyd Shockley, diretor do departamento de coleções de entomologia do Museu Nacional de História Natural do Instituto Smithsonian, que não participou no estudo.

“Há milhões de coisas que vivem no dossel tropical e que nunca chegam ao chão”, diz Floyd, acrescentando que estes tipos de estudos verticais “são incrivelmente importantes porque, [sem eles] estamos a perder uma tremenda quantidade de biodiversidade”.

Triagem de insetos 

Para recolher os insetos, José rafael colocou cinco redes enormes na referida torre de observação em intervalos de 8 metros, começando ao nível do solo e culminando nos 30 metros.  

16 METROS

Tanto o dossel florestal como a vegetação rasteira são patrulhados por vespas parasitoides que procuram presas – principalmente lagartas.

Fotografia por Brian Brown, Natural History Museum of Los Angeles County

Brian Brown e Dalton de Souza Amorim, entomologista da Universidade de São Paulo, começaram por classificar os insetos por ordem (moscas, besouros, insetos e muito mais). E concentraram-se na ordem Diptera – moscas – classificando mais de 16.000 espécimes em 56 famílias, e depois em 857 espécies. Não se sabe ao certo quantas espécies são novas para a ciência. “Seriam necessários vários anos e muita investigação para o descobrir”, diz Brian Brown, “mas creio que muitas, senão a maioria, ainda não foram descritas”.

Algumas famílias de moscas são mais abundantes e diversificadas ao nível do solo. Outras estão mais concentradas no dossel. E há outras moscas que não passam de uma altura algures no meio. Curiosamente, entre 90 a 100 por cento dos espécimes de algumas famílias de moscas foram encontrados nas quatro armadilhas mais altas.

24 METROS

Os olhos enormes do besouro-joia permitem-lhe escapar rapidamente dos predadores – e dos investigadores – dificultando a sua recolha para estudo.

Fotografia por Brian Brown, Natural History Museum of Los Angeles County

Qual é o cenário geral?

Há muito por descobrir no que diz respeito aos insetos. “Continuamos a descobrir peixes e anfíbios, mas estamos a começar a ter uma boa noção sobre as aves e mamíferos e a obter uma visão mais completa sobre a sua diversidade”, diz Floyd Shockley. Contudo, os modelos científicos estimam que o número de espécies de insetos por descobrir ronda os 5 e os 30 milhões. “Estes estudos ajudam-nos a melhorar o modelo, para conseguirmos determinar o que ainda falta descobrir.”

Este desconhecimento sobre as espécies de insetos deve-se a inúmeros fatores. “Os insetos são pequenos, rápidos, altamente diversificados e podem esconder-se em praticamente qualquer recanto”, diz Floyd.

“Portanto, precisamos de compreender a forma como interagem uns com os outros, connosco e com as plantações. Mas só podemos falar sobre o que estão a fazer quando forem descritos e nomeados.”

32 METROS

As “abelhas das orquídeas”, primos tropicais dos zangões e abelhas, estão entre a infinidade de insetos que os entomologistas recolheram na torre de observação.

Fotografia por Brian Brown, Natural History Museum of Los Angeles County

A maioria das análises foi feita com base na latitude e longitude e, por vezes, na altitude – numa montanha, por exemplo, onde os habitats podem mudar drasticamente. Contudo, ao recolher insetos verticalmente nos habitats florestais, algo que por si só já é difícil de fazer, acrescenta Floyd Shockley, “estamos a adicionar uma dimensão adicional à nossa compreensão sobre a diversidade no espaço tridimensional”.

As moscas, por exemplo, podem ter má reputação – as pessoas têm dificuldade em compreender porque é que nos devemos preocupar com as moscas. “Para a estrutura da floresta, os organismos [como os insetos] são indiscutivelmente mais importantes do que os mamíferos ou as aves”, diz Brian Brown. “São importantesara outro local.s moscas aosr eeolo mundo antigo de Yunnan.e ser transplantado para outro local.ão importantes para a polinização, ao nível energético, para a reciclagem e muito mais. O que aconteceria se não houvesse insetos a alimentarem-se dos corpos em decomposição? Os serviços ecossistémicos que os insetos fornecem são extremamente vitais – embora quase invisíveis.”

A National Geographic Society, comprometida em iluminar e proteger as maravilhas do nosso mundo, financia o trabalho de Exploradores pelo mundo inteiro.


Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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