Raia enorme estabelece recorde mundial para maior peixe de água doce

Um trabalho de décadas culminou na descoberta de um gigante fluvial com quase 300 quilos.

Por Stefan Lovgren
Publicado 24/06/2022, 11:53
raia gigante

Uma raia gigante de água doce com 299.8 quilos, retirada temporariamente da água para ser pesada, é o maior peixe de água doce de que há registo. A população local e os investigadores trabalharam apressadamente para medir a raia, regando-a frequentemente antes de a libertar novamente no rio.

Fotografia por S. Ounboundisane, FISHBIO

CAMBOJA, RIO MEKONG – Moul Thun sabia que a raia gigante presa na ponta da sua linha era maior do que qualquer peixe que ele alguma vez tinha encontrado. Contudo, este pescador de 42 anos de Kaoh Preah – uma ilha remota no rio Mekong, no norte do Camboja – não fazia ideia de que a raia acabaria por ser considerada o maior peixe de água doce de que há registo no mundo.

Para Zeb Hogan, que documenta peixes enormes de água doce há quase duas décadas, a descoberta desta raia, que foi libertada viva no rio, encheu-o de esperança.

“Isto prova que estes titãs subaquáticos, que estão em perigo crítico de extinção, ainda existem”, diz Zeb Hogan, biólogo de peixes da Universidade do Nevada, em Reno, e Explorador da National Geographic.

A raia gigante é medida numa lona verde dentro de água, mantendo-a contida mas permitindo o acesso à água doce.

Fotografia por S. Ounboundisane, FISHBIO

Com o apelido “Projeto Megapeixes” e apoio da National Geographic Society, o trabalho de Zeb Hogan na sua busca por peixes gigantes começou em 2005, quando pescadores no norte da Tailândia retiraram um bagre de 293 quilos do rio Mekong. Zeb Hogan, que passou vários anos no Sudeste Asiático a estudar o bagre gigante do Mekong, nome pelo qual esta espécie é conhecida, concluiu que este era o maior – ou seja, o mais pesado alguma vez capturado na região. Foi então que Zeb começou a questionar se poderia haver gigantes do rio ainda maiores noutros lugares.

Com o intuito de descobrir a resposta, Zeb Hogan começou a perscrutar as bacias hidrográficas de todo o planeta, muitas vezes como apresentador do programa Monster Fish da National Geographic. Mas a resposta à sua questão provou ser mais elusiva do que Zeb antecipava. Para além dos pescadores terem propensão para exagerar nas suas histórias, também há a questão dos desafios logísticos, a falta de informações científicas sobre os peixes de água doce e evidências impossíveis de verificar, incluindo desenhos e fotografias antigas.

Enquanto ia encontrando vários peixes gigantes – como o arapaima que respira ar na Amazónia e o bagre que come pombos na Europa – Zeb não conseguia encontrar nenhuma captura cientificamente documentada de um peixe de água doce maior do que aquele que tinha desencadeado a sua busca.

Tudo isto mudou na semana passada, quando a equipa de pesquisa apoiada pela Agência dos EUA para o Desenvolvimento Internacional (USAID) que Zeb Hogan lidera no Camboja, a Wonders of the Mekong, recebeu um telefonema de Moul Thun. O pescador disse a um membro da equipa que tinha apanhado acidentalmente uma raia gigante de água doce “muito maior” do que qualquer outra que ele alguma vez tinha visto. Era tão grande, disse Moul Thun, que até podia ser uma espécie diferente.

Quando a equipa chegou a Kaoh Preah, determinou que o peixe de Moul Thun, uma fêmea que parecia estar de boa saúde, pertencia à mesma espécie de raias conhecidas no rio Mekong. Mas Moul Thun estava certo em relação ao tamanho enorme – mais de 3,9 metros. Depois de manobrar o peixe gigante para o colocar em três balanças alinhadas ao lado umas das outras, os investigadores ficaram surpreendidos quando viram o peso: atingindo os 299.8 quilos, esta fêmea tinha estabelecido um novo recorde mundial.

Criaturas antigas

O objetivo original do Projeto Megapeixes era encontrar, estudar e proteger os maiores peixes de água doce do mundo. O projeto concentrou-se em espécies que podiam crescer pelo menos até ao tamanho de um humano – pelo menos um metro e oitenta de comprimento ou mais de 90 quilos – e que viviam exclusivamente em água doce. (Os peixes como o esturjão-branco, que alterna entre a água doce e salgada, não foram considerados.) Zeb Hogan começou por elaborar uma lista com cerca de 30 espécies para se focar.

O problema, tal como Zeb Hogan rapidamente veio a descobrir, residia no facto de muitos destes peixes serem difíceis de encontrar. São criaturas que vivem em lugares remotos, em zonas inacessíveis e muitas vezes em águas turvas. Por vezes, mesmo as pessoas que vivem uma vida inteira perto do habitat dos “megapeixes” nunca ouviram falar sobre tais criaturas, muito menos as viram. No início da investigação, havia relativamente poucos cientistas a estudar este tipo de peixes.

Contudo, era evidente que os gigantes fluviais estavam a desaparecer, ameaçados por uma série de fatores, incluindo a sobrepesca, espécies invasoras que competem por comida, poluição da água e a presença de barragens, que impedem os peixes migratórios de completar os seus ciclos de vida.

Os estudos mostram que as populações globais de megafauna de água doce tiveram uma redução duas vezes mais acentuada do que as populações de vertebrados em terra ou nos oceanos, deixando muitas das espécies de peixes gigantes em perigo crítico de extinção. Um dos grandes candidatos ao título de maior peixe de água doce do mundo, o peixe-espátula chinês, ficou extinto durante os estágios iniciais da investigação de Zeb Hogan.

À medida que o trabalho de Zeb avançava, o seu foco virava-se cada vez mais para a conservação. “Nunca se tratou apenas de encontrar o maior peixe”, diz Zeb Hogan, “mas sim procurar maneiras de proteger estes animais extraordinários que, em alguns casos, estão na Terra há centenas de milhões de anos, mas agora estão a deixar de existir”.

Raias recordistas

Zeb Hogan já suspeitava há muito tempo que o maior gigante fluvial podia estar entre as raias, cujas espécies de água doce chegam às dezenas. Numa expedição feita para o programa Monster Fish na Argentina, o próprio Zeb Hogan apanhou uma raia de cauda curta com pouco mais de 180 quilos. Contudo, Zeb sabia que a raia gigante de água doce (Urogymnus polylepis) do Sudeste Asiático podia atingir tamanhos muito maiores.

Ao longo de vários anos, Zeb e uma equipa de investigadores tailandeses estudaram raias em dois rios não muito longe de Bangkok. Durante este período, a equipa capturou várias raias que pareciam rivalizar com o tamanho recorde do bagre gigante apanhado no Mekong em 2005, mas Zeb Hogan e os seus colegas nunca conseguiram obter uma confirmação do peso.

Depois, em 2016, um derrame de químicos no rio Mae Klong, na Tailândia, matou pelo menos 70 raias gigantes. Quando os cientistas regressaram ao rio passados dois anos, encontraram muito menos raias no geral e quase nenhum animal grande.

Mais recentemente, o projeto Wonders of the Mekong de Zeb Hogan acelerou as investigações no norte do Camboja, onde o rio Mekong está rodeado por florestas que inundam sazonalmente e está repleto de biodiversidade – e acredita-se que gera até 200 mil milhões de peixes por ano. Esta região também é considerada um refúgio importante na estação seca para muitos dos chamados “megapeixes” do Mekong, incluindo raias gigantes.

Em cooperação com as comunidades locais, a equipa de investigação desenvolveu uma rede de contactos entre os pescadores, que são incentivados a relatar as capturas de raias e de outros peixes ameaçados antes de os libertarem novamente no rio. Apesar de ser legal pescar raias no Camboja, os pescadores raramente as atacam porque não são consideradas um bom peixe para comer. As raias, porém, podem ser apanhadas acidentalmente, como aconteceu com a fêmea capturada durante a noite de 13 de junho e que estabeleceu um novo recorde.

Depois de receber o telefonema de Moul Thun, os membros da equipa sediados em Phnom Penh, capital do Camboja, apressaram-se em direção às margens do rio, onde se juntaram a outra equipa de cientistas americanos que trabalham na área. A equipa implantou rapidamente um identificador acústico na base da cauda da raia, que os investigadores esperam vir a ajudar a revelar mais sobre o comportamento desta espécie esquiva, incluindo os locais onde se alimenta, para onde viaja e reproduz.

“O facto de [Moul Thun] nos ligar é uma prova do quão importante é trabalhar com as comunidades locais”, diz Zeb Hogan. “Estes pescadores podem de facto ser grandes aliados no trabalho de proteção destes animais.”

Quando a raia foi libertada no rio, uma multidão de pessoas já se tinha reunido no local, incluindo funcionários governamentais e aldeões curiosos. Muitas destas pessoas aproveitaram para fotografar a criatura gigante, à qual os cientistas chamaram “Boramy”, ou “lua cheia” na língua khmer, porque este peixe de aparência redonda foi libertado durante a lua cheia. Este nome também é normalmente usado para descrever uma mulher bonita.

Sinal de esperança

Para Zeb Hogan, a extensão do rio Mekong onde a raia foi encontrada não é apenas uma potencial zona de foco para as raias gigantes, também é uma fonte de esperança para todas as espécies ameaçadas de grandes peixes. Contudo, apesar da terrível situação enfrentada por muitos dos gigantes fluviais por todo o planeta, Zeb Hogan diz que ainda há motivos de esperança.

Na América do Norte, por exemplo, os esforços de conservação têm ajudado na recuperação de populações de várias das grandes espécies de peixes de água doce, como o peixe-jacaré e o esturjão do lago. O mesmo acontece com o arapaima da Amazónia, onde as comunidades indígenas restringiram a pesca deste gigante que respira ar.

“Quando as pessoas percebem que estes animais existem e começam a apreciar o quão incríveis são, sentem-se inspiradas”, diz Zeb Hogan. “Eu olho para o peixe que bateu o recorde em 2005, e esse peixe foi morto e vendido. Mas agora estamos a monitorizar o maior peixe de água doce do mundo. É uma grande diferença. Isto significa que nem tudo está perdido.”

A National Geographic Society, comprometida em iluminar e proteger as maravilhas do nosso mundo, financiou o trabalho do Explorador Zeb Hogan.


Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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