Como uma pequena ilha se está a unir para salvar uma ave em perigo de extinção

Só restam 1500 lóri-de-rimatara na natureza. Numa ilha da Polinésia Francesa, os ilhéus estão a tentar preservar o habitat dos lóri e a combater os ratos invasores.

Por Tiare Tuuhia
Publicado 7/07/2022, 10:21
lóri-de-rimatara

O lóri-de-rimatara, endémico da Polinésia Francesa, está em perigo de extinção, restando apenas 1500 individuos na natureza. Um terço destas aves vive na ilha de Rimatara, onde enfrentam a destruição de habitat.

Fotografia por AGAMI Photo Agency, Alamy Stock Photo

RIMATARA, POLINÉSIA FRANCESA – Todos os dias ao nascer do sol, na pequena ilha de Rimatara da Polinésia Francesa, Tiraha Mooroa gosta de correr com o seu cão Koha – uma espécie de border terrier com o pelo desgrenhado. Koha tem um trabalho importante, que é farejar e matar quaisquer ratos negros que encontre.

Koha é a única defesa da ilha contra os roedores invasores. Manter a ilha livre de ratos é vital: os roedores, que vem nos barcos e navios de carga, são a maior ameaça para as espécies de aves nativas das ilhas do Pacífico. Os ratos são muito engenhosos a encontrar ninhos e ovos.

Uma destas espécie é particularmente importante – o lóri-de-rimatara, uma bela ave de peito vermelho com uma crista verde e azul. Endémico da Polinésia, este lóri está em perigo de extinção – restando apenas 1500 individuos na natureza. Um terço de toda a sua população vive na pequena ilha de Rimatara. Os esforços para proteger os lóri revelam os desafios singulares que se enfrentam quando se tenta salvar uma espécie fortemente concentrada numa área pequena e vulnerável.

“Sempre que chega um cargueiro, vou com o Koha e verificamos todos os contentores que chegam a terra”, diz Tiraha Mooroa, que trabalha para a organização conservacionista Rima Ura. “Se ele farejar um rato, as pessoas fazem um círculo em torno do contentor, depois abrem-no… e Koha faz o resto”, exterminando o rato.

Os esforços deste canino têm funcionado. “Koha é o nosso protetor – é a nossa estrela”, diz Tiraha Mooroa. Entre as 118 ilhas e atóis da Polinésia Francesa, Rimatara é uma das três únicas que não têm ratos negros. Tiraha Mooroa está comprometida em manter as coisas desta forma.

Uma pequena ilha com uma ave especial

Rimatara, uma ilha de 8,6 quilómetros quadrados na Polinésia Francesa, está repleta de praias de areia branca e coqueiros. Entre as suas três pequenas aldeias do interior e numerosos campos de taro, paragens de autocarro e edifícios, todas usam as imagens da mascote da ilha: o lóri-de-rimatara.

Conhecido na Polinésia Francesa por 'Ura, que significa vermelho, o lóri já foi muito difundido no Pacífico Sul. No século XVIII, porém, já havia sido caçado até quase à extinção pelos polinésios, que valorizavam as suas penas vermelhas para fazer mantos e cocares. No início do século XX, só restavam lóri em Rimatara, onde a rainha da ilha, Temaeva V, proibiu a sua caça, preservando efetivamente a população restante, que se manteve estável ao longo do século passado.

Contudo, desde a década de 1990 que os lóri enfrentam ameaças crescentes em Rimatara, ameaças que reduziram a população da ilha de 1000 individuos em 1992 para os cerca de 500 da atualidade. A perspetiva de ratos negros se estabelecerem na ilha pode significar um desastre para o lóri-de-rimatara, mas há outros fatores, como a destruição de habitat e a competição pelos locais de nidificação, que também são responsáveis ​​pelos números cada vez mais reduzidos desta ave.

Em 2007, num esforço para restabelecer uma população de lóri-de-rimatara noutros lugares, 27 aves foram levadas de Rimatara para a ilha de Atiu, nas Ilhas Cook. O Fundo de Património Natural das Ilhas Cook, projeto de conservação dirigido pela organização Rima Ura em parceria com entidades governamentais e internacionais, foi bem-sucedido. Atualmente, a população de lóri em Atiu já atinge pelo menos os 400 individuos. Esta espécie também sobrevive em pequeno número em vários atóis nas ilhas Kiribati.

No futuro, “podem restar apenas em Atiu”, diz Caroline Blanvillain, fundadora da Rima Ura e diretora do departamento de conservação da Sociedade Ornitológica Polinésia. “Mas como permanecem 500 aves em Rimatara, temos algo a que chamo de margem antes de acontecer o pior”. Os lóri, com o apelido vini – que significa conversar – são adorados pelo seu carisma. “Estas aves estão constantemente a comunicar umas com as outras. Quando as ouvimos e depois vemos”, diz Caroline Blanvillain, “ficamos muito comprometidos em protegê-las.”

Uma descoberta inesperada

Junto a uma árvore que abriga um casal de lóri e tem o nome de “ninho número 12”, Samuel Ravatua-Smith transfere um novo vídeo da câmara que monitoriza o ninho para o seu iPad. Samuel espera conseguir obter um vislumbre das duas novas crias de lóri.

O investigador socioambiental Samuel Ravatua-Smith dirige um programa de observação de ninhos que a organização Rima Ura lançou em 2021 para compreender melhor os hábitos do lóri e o seu declínio populacional. Financiado pelo Gabinete Francês de Biossegurança, este programa rastreia e monitoriza todos os ninhos de lóri na ilha através de câmaras equipadas com Bluetooth. As câmaras, acionadas pelo movimento, rastreiam qualquer criatura que consiga encontrar os ninhos.

O rosto de Samuel Ravatua-Smith altera-se quando vê as filmagens. Ao ditar as suas observações para registar no iPad, Samuel diz: “Os vídeos confirmam que após a visita de [uma ave] rabo-de-palha-de-bico-laranja, as duas crias já não estão no ninho. Trata-se de um evento confirmado de predação.”

É uma descoberta importante, e mais um passo da organização Rima Ura para salvar os lóri. As filmagens revelam que a ave rabo-de-palha-de-bico-laranja pode estar a atacar e a ocupar os ninhos de lóri porque também está a perder habitat, diz Samuel Ravatua-Smith.

Lidar com a destruição de habitat

Da mesma forma, Samuel Ravatua-Smith e Caroline Blanvillain acreditam que a perda de habitat pode ser a razão principal para o declínio dramático da população de lóri em Rimatara. Entre 2006 e 2008, foi construído na ilha um aeroporto, uma pista de aterragem e os primeiros alojamentos turísticos, cuja construção obrigou à desflorestação de enormes extensões de terra.

Este ano, prevê-se a construção de 100 novas casas de habitação, financiadas por uma nova iniciativa do governo que visa fornecer terrenos e moradias para os ilhéus mais necessitados. Os trabalhos de limpeza e construção podem acabar por abranger mais de metade da ilha.

Para mitigar os efeitos da perda de habitat, a organização Rima Ura trabalha na educação dos habitantes de Rimatara, para que estes possam ajudar a proteger o lóri, por exemplo, ou incentivando os moradores a plantar mais árvores de fruto em torno das suas casas. Esta organização floresceu e transformou-se numa iniciativa comunitária, contando agora com mais de 400 membros – aproximadamente metade da população da ilha. Os membros da Rima Ura que vivem na ilha também identificam as árvores de nidificação e participam em iniciativas de reflorestamento. Os ilhéus estão a plantar árvores amigas dos lóri no planalto desabitado da ilha.

“Existe um provérbio havaiano – ‘Aʻohe hana nui ke alu ‘ia’ – que diz que, quando trabalhamos juntos, nenhuma tarefa é demasiado grande. Eu acredito realmente nisto. Dá-me esperança para o futuro”, diz Samuel Ravatua-Smith.

Tehio Pererina, professora do ensino básico de 62 anos e presidente da organização Rima Ura, tem muito orgulho no trabalho do grupo. “Antigamente, eu não tinha amor pelas árvores, pela natureza”, diz Tehio Pererina, sentada no exterior da sala de aula. “Só quando me tornei parte da Rima Ura é que tudo mudou. Foi-me dada a responsabilidade de fazer algo mais, de trabalhar com o coração. Os ‘Ura, esta ilha, são a nossa herança. Precisamos de a preservar. Fazer isto é algo que nos enche de alegria.”

Tiare Tuuhia é uma escritora freelancer sediada na Polinésia Francesa que escreve sobre as Ilhas do Pacífico, viagens, paternidade e cultura.

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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