Estas cegonhas colossais sobrevoaram outrora uma ilha indonésia povoada por humanos diminutos

Há mais de 60.000 anos, a ilha das Flores era o lar de uma ave quase duas vezes mais alta do que os pequenos hominídeos.

Por Riley Black
Publicado 14/07/2022, 15:15
Liang_bua

Esta ilustração retrata Liang Bua, um sítio fóssil na ilha das Flores – como seria há mais de 60.000 anos – com uma cegonha gigante a desafiar um jovem dragão-de-komodo pelo acesso à carcaça de um Stegodon, um parente extinto dos elefantes.

Fotografia por Illustration by Gabriel Ugueto

Na antiguidade, na ilha das Flores, uma ilha no leste da Indonésia, humanos do tamanho de “hobbits” partilhavam a paisagem com uma ave enorme. Com mais de um metro e meio de altura, a cegonha Leptoptilos robustus da Idade do Gelo teria superado o Homo floresiensis, que só atingia os 90 centímetros de altura e viveu há mais de 60.000 anos.

Os paleontólogos acreditavam que este pássaro enorme era uma espécie que não voava e que se tinha adaptado para viver num ecossistema isolado da ilha. Contudo, os fósseis recém-analisados, incluindo ossos das asas, apresentados na revista Royal Society Open Science, mudaram a história. Apesar do tamanho desta cegonha, a sua envergadura de asas a rondar os 3,6 metros provavelmente possibilitava o voo.

Esta nova perceção levou os paleontólogos a reavaliar o que pensavam anteriormente sobre a anatomia e o comportamento da Leptoptilos robustus. Em vez de ser um caçador de pequenas presas, o novo estudo sugere que este pássaro provavelmente era um necrófago como as outras cegonhas voadoras pré-históricas, que dependiam das carcaças de herbívoros para se alimentar, ou como acontece atualmente com a cegonha marabu da África subsaariana. A preferência da cegonha da ilha das Flores por carcaças pode até explicar as razões pelas acabou extinta.

Para além de cegonhas enormes, a ilha das Flores também era o lar de uma espécie de Stegodon, um parente extinto dos elefantes, que crescia até um metro e vinte de altura. “As cegonhas gigantes dependiam em grande parte destes animais para a sua dieta”, diz a paleontóloga Hanneke Meijer, da Universidade de Bergen, autora principal do novo estudo. Hanneke Meijer sublinha que foram encontrados ossos de Stegodon ao lado de ossos destas cegonhas numa caverna, um local onde as aves dificilmente se aventurariam sem algum tipo de chamariz.

Hanneke Meijer e os seus colegas propõem que, quando o Stegodon desapareceu, o mesmo aconteceu com a Leptoptilos robustus. Os outros animais da ilha que dependiam de mamíferos como fonte de alimento, como os dragões-de-komodo, conseguiram sobreviver noutros lugares. Mas a extinção da Leptoptilos robustus também coincidiu com grandes mudanças na ilha das Flores, que foram desencadeadas por um período de aquecimento perto do final da Idade do Gelo. “A nossa teoria é a de que, quando o Stegodon ficou extinto, todo o ecossistema entrou em colapso”, diz Hanneke Meijer.

Os paleontólogos conseguiram chegar a esta nova visão sobre a cegonha gigante da ilha das Flores graças a 21 ossos – incluindo partes da asa – encontrados na caverna de Liang Bua. Este abrigo rochoso pode ter sido uma forma de alguns animais, como por exemplo o Stegodon, escaparem do calor e para se refrescarem – mas os carnívoros podem ter aproveitado a situação para conseguir obter uma refeição fácil. Os restos de presas mortas por um dragão-de-komodo ou Homo floresiensis seriam um petisco tentador para as cegonhas necrófagas, que podem ter morrido no interior da caverna e enterradas no local, ficando assim preservadas no registo fóssil até os cientistas desenterrarem os seus ossos dezenas de milhares de anos mais tarde.

Evolução insular

As ilhas podem ser laboratórios naturais intensos para a evolução. O relativo isolamento pode levar os organismos a adaptarem-se de formas muito diferentes do que acontece nas grandes extensões dos continentes da Terra. De acordo com um fenómeno chamado Regra da Ilha, por exemplo, as espécies grandes geralmente tornam-se mais pequenas para subsistir com recursos mais limitados, ao passo que os animais geralmente pequenos – como roedores e lagartos – crescem até atingir tamanhos sem precedentes.

Quando foi descrita pela primeira vez em 2010, acreditava-se que a cegonha da ilha das Flores fazia parte deste padrão. Inicialmente, presumia-se que esta ave era um gigante singular que não voava e se adaptou para perseguir presas mais pequenas nas florestas da ilha. O novo estudo, ao revelar que a cegonha da ilha das Flores conseguia voar, também sugere que este animal provavelmente não era um caso invulgar de evolução na ilha, mas parte de uma família de cegonhas gigantes que outrora voaram sobre grande parte do mundo.

“Creio que a minha perceção sobre a L. robustus mudou muito, tal como a minha carreira”, diz Hanneke Meijer, que estudou alguns dos primeiros exemplares desta  ave gigante. O conjunto original de ossos, diz Hanneke, era grande e estranho, suportando a teoria de que a vida nas ilhas alterava realmente as criaturas de formas inesperadas.

Mas a descoberta dos ossos das asas da cegonha revelou um cenário diferente.

Um gigante no céu

A caverna de Liang Bua preserva uma riqueza de espécimes paleontológicos e arqueológicos, incluindo restos de Homo floresiensis e Homo sapiens, ferramentas de pedra usadas por ambas as espécies e uma coleção de ossos de animais.

Os primeiros ossos de L. robustus foram descobertos em 2004, mas foram necessários vários anos para os especialistas recolherem e catalogarem mais restos deste animal. Só neste novo estudo é que Hanneke Meijer e os seus colegas juntaram todas as peças para criar uma imagem mais apurada sobre esta cegonha.

Se a cegonha da ilha das Flores não voasse, os ossos das suas asas seriam mais pequenos e mostrariam sinais anatómicos de que já não eram usados para voar. Os paleontólogos observaram isto repetidamente entre os carnívoros extintos, “pássaros do terror”, em emas e respetivos parentes, e em vários outros pássaros terrestres que evoluíram após a extinção dos dinossauros há 66 milhões de anos.

Quando os ossos das asas da cegonha da ilha das Flores foram identificados na coleção da caverna de Liang Bua, diz Hanneke Meijer, “pareciam ossos de asas funcionais e muito distantes dos ossos de espécies que não voam”. Estas descobertas levaram Hanneke Meijer e os seus colegas a repensar a vida deste pássaro gigante.

“Começamos a pensar em como se comportavam e interagiam com as outras espécies em Liang Bua”, diz Hanneke, “quase que ficamos a conhecer um animal ao nível pessoal”. Cada peça esquelética recuperada na caverna é outra parte do puzzle.

“Esta nova análise mostra que a nossa compreensão sobre o registo fóssil está a melhorar constantemente e que as nossas interpretações iniciais sobre a anatomia e o comportamento de um animal fóssil são hipóteses preliminares sujeitas a uma reavaliação”, diz o paleontólogo Daniel Field, da Universidade de Cambridge, que não esteve envolvido no estudo. Estas revisões não se limitam a ajudar os paleontólogos a compreender melhor como e por que razão as espécies evoluíram, mas também fornecem novas informações sobre a extinção de um organismo.

Ao fazer um levantamento sobre a distribuição de cegonhas gigantes em África e na Eurásia pré-histórica, por exemplo, o novo estudo também descobriu que a L. robustus foi provavelmente uma das últimas espécies sobreviventes destes tipos de aves, que outrora eram abundantes. Presas num refúgio insular entre os oceanos Índico e Pacífico, as cegonhas gigantes acabaram por morrer, mas deixaram pistas sobre a sua história na caverna de Liang Bua.

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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