Os grandes tubarões-brancos conseguem mudar de cor para iludir as suas presas

Experiências inéditas sugerem que o maior peixe predador do mundo consegue alternar entre o cinzento escuro e claro numa questão de horas.

Por Jason Bittel
Publicado 13/07/2022, 11:55
tubarão-branco

Um grande tubarão-branco nada na Reserva da Biosfera da Ilha Guadalupe, na Baja Califórnia.

Fotografia por Thomas P. Peschak, Nat Geo Image Collection

Os maiores peixes predadores da Terra, os grandes tubarões-brancos, já são impressionantes por si só, ou não estivessem armados com 300 dentes serrilhados e atingirem os mais de 2200 quilos. Agora, uma nova investigação vem adicionar mais mistério a estas feras oceânicas, sugerindo que conseguem mudar de cor – talvez como uma estratégia de camuflagem para se aproximarem das suas presas.

Nas novas experiências realizadas na África do Sul, os investigadores arrastaram um isco em forma de foca atrás de um barco para atrair vários tubarões a saltar da água, perto de um tubo projetado com painéis brancos, cinzentos e pretos. A equipa fotografou os tubarões sempre que estes saltaram da água, repetindo a experiência ao longo do dia.

Um dos tubarões, facilmente reconhecível devido a um abscesso na mandíbula, apareceu tanto em tons de cinzento escuro como num cinzento muito mais claro em diferentes momentos do dia. Os cientistas verificaram esta ocorrência com um software que corrige variáveis como o clima, níveis de luz e configurações da câmara.

Ao largo da costa da África do Sul, um grande tubarão-branco ignora o isco e tenta morder o equipamento de pesquisa. “Será escusado dizer que a experiência não correu como planeado, mas os resultados foram notáveis”, diz Gibbs Kuguru.

Fotografia por Gibbs Kuguru

Os investigadores extraíram depois cuidadosamente um pequeno pedaço de tecido de um dos tubarões e levaram-no apressadamente para o laboratório, onde o trataram com vários tipos diferentes de hormonas que ocorrem naturalmente nos tubarões.

Com uma câmara de lapso temporal e um microscópio confocal, os investigadores observaram em admiração os melanócitos do grande tubarão-branco – células da pele que contêm pigmento – a contrair e a ficar mais claros quando foram mergulhados em adrenalina. Ao mesmo tempo, outra hormona conhecida por MSH, ou hormona estimulante de melanócitos, fez com que as mesmas células se dispersassem, resultando numa cor da pele mais escura. (Descubra um tubarão de águas profundas que é um dos maiores animais bioluminescentes do mundo.)

Durante o mês de julho, o National Geographic Wild oferece um mês de programação em que os tubarões serão protagonistas. Com emissão todos os sábados e domingos, às 17h00, o especial Sharkfest irá cativar os espectadores com uma verdade que é mais estranha que a ficção.

“Queríamos fazer com que estas células de tubarão pensassem que estavam a receber algum tipo de estímulo, como o sol ou um estímulo emocional [como por exemplo avistar potenciais presas] para ver se as conseguíamos fazer mudar e ficar mais claras ou mais escuras”, diz Gibbs Kuguru, cientista especializado em tubarões da Universidade de Wageningen, nos Países Baixos.

“Fizemos testes e estes não só funcionaram, como foram um grande sucesso”, diz Gibbs Kuguru, que também é Explorador da National Geographic e vencedor do Prémio National Geographic Wayfinder em 2022.

Com dados de um número limitado de tubarões, os cientistas alertam que a capacidade do grande tubarão-branco em alterar a sua aparência ainda não está validada e que a sua investigação ainda não foi publicada numa revista científica. Contudo, outros especialistas dizem que as possibilidades são muito interessantes.

Esquerda: Superior:

Ryan Johnson, Gibbs Kuguru e um colega verificam a estrutura onde os tubarões descansam durante a experiência, antes de serem novamente libertados na água.

Direita: Inferior:

Um grande tubarão-branco salta da água para apanhar o isco.

fotografias de Fiona Ayerst, National Geographic

Desvendar os segredos do grande tubarão-branco

Nas últimas décadas, o foco no grande tubarão-branco tem sido, compreensivelmente, no seu carisma, diz Ryan Johnson, biólogo de tubarões da Unidade de Pesquisa de Tubarões Blue Wilderness na África do Sul e parceiro de investigação de Gibbs Kuguru.

“A sua velocidade, poder, tamanho e capacidade em dominar uma presa”, diz Ryan, “foi o que me entusiasmou nesta pesquisa, porque queríamos investigar algo incrivelmente subtil e microscópico”.

Curiosamente, Ryan Johnson e outros cientistas repararam que os grandes tubarões-brancos parecem alterar a tonalidade na metade superior do corpo, ou lado dorsal.

Esta estratégia é diferente do chamado contra-sombreamento, uma estratégia de camuflagem bem conhecida em muitos predadores marinhos onde as suas metades superiores são naturalmente mais escuras e as metades inferiores são mais claras. O contra-sombreamento evoluiu para ajudar os predadores a permanecerem impercetíveis vistos de cima e de baixo, imitando tanto a escuridão das profundezas como a luz do sol na superfície da água.

Mas não há nada na literatura científica a sugerir que os grandes tubarões-brancos conseguem mudar de cor, e foi isso que motivou Ryan Johnson e Gibbs Kuguru a continuar a estudar este fenómeno.

“Desde que terminámos o programa, saímos duas ou três vezes por semana e captamos centenas de fotografias dos tubarões em contraste com os painéis de cores”, diz Ryan Johnson.

A esperança é a de que, ao analisar um conjunto maior de dados, os cientistas consigam não só verificar se esta alteração de cor agora documentada é consistente, mas também identificar um padrão de quando e por que razão os animais usam este modo de camuflagem.

 

“Uma descoberta muito entusiasmante”

“Do ponto de vista de publicação científica, não creio que alguém tenha tentado verificar a coloração de um grande tubarão-branco desta forma”, diz Michelle Jewell, que estuda o comportamento do grande tubarão-branco nos Museus da Universidade do Michigan e não tem qualquer filiação com a investigação.

“Porém, pela minha experiência pessoal, observamos definitivamente mudanças na cor. Mas geralmente estas mudanças acontecem ao longo de uma série de dias.”

Segundo Michelle Jewell, a teoria mais aceite para estas mudanças é a de que os tubarões ficam bronzeados depois de passarem mais tempo em águas rasas, onde os raios do sol são mais fortes.

Isto pode parecer pouco plausível, mas não é. Um estudo feito em 1996 demonstrou que quando os tubarões-martelo juvenis em cativeiro ficavam presos em recintos de águas rasas, também ficavam gradualmente mais escuros do que os tubarões-martelo com permissão para mergulhar em águas mais profundas.

“Não levámos em consideração que isto pudesse ser algo que os próprios tubarões estivessem a manipular para ficarem mais escuros ou claros”, diz Michelle Jewell. “Mas faria muito sentido do ponto de vista evolutivo.”

George Probst, fotógrafo que contribuiu para o Projeto de Identificação Tubarão-Branco da Ilha de Guadalupe, no México, diz que nunca reparou em mudanças de cor no seu trabalho.

No entanto, dada a forma como estes animais extremamente grandes podem aparecer do nada, mesmo quando a visibilidade da água é excecional, faria sentido que os grandes tubarões-brancos evoluíssem para melhorar a sua camuflagem de contra-sombreamento.

“Não me surpreenderia se os tubarões conseguissem fazer isso, até porque são extremamente bons a aproximarem-se sorrateiramente de nós”, diz George Probst, que passou centenas de horas a mergulhar com mais de 200 tubarões-brancos. “Estes animais são predadores de emboscada que dependem da dissimulação.”

Gregory Skomal, especialista em tubarões e diretor do Programa de Pesquisa de Tubarões de Massachusetts, diz que também não está completamente surpreendido com esta investigação preliminar, embora gostasse de a ver suportada por um estudo científico mais estruturado.

“Conhecemos muitas espécies de peixes que conseguem mudar de cor”, diz Gregory Skomal. “Portanto, eu acho que esta é uma descoberta muito entusiasmante.”

A National Geographic Society, comprometida em iluminar e proteger as maravilhas do nosso mundo, financiou o trabalho do Explorador Gibbs Kuguru.


Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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