A raiva continua a ser uma ameaça – mas os especialistas dizem que não precisa de ser assim

Apesar de haver formas de o prevenir, este vírus mata cerca de 60.000 pessoas por ano. Eis o que precisa de saber.

Por Amy McKeever
Publicado 19/08/2022, 10:43
Tadarida brasiliensis

Com luvas brancas grossas, um naturalista segura gentilmente num morcego Tadarida brasiliensis no exterior da Reserva de Morcegos Eckert James, no Texas. Nos países onde os cães são amplamente vacinados contra a raiva, a doença permanece endémica entre os morcegos, raposas, guaxinins e outros mamíferos.

Fotografia por Milehightraveler, Getty Images

Nos EUA, no início deste ano, as autoridades de saúde pública foram surpreendidas por casos de raiva quando uma raposa-vermelha selvagem mordeu nove pessoas – incluindo um congressista dos Estados Unidos – em Washington D.C. Em menos de um dia, um laboratório de saúde pública em Washington confirmou que a raposa, que foi abatida, tinha testado positivo para esta doença mortal.

A raiva mata cerca de 60.000 pessoas por ano no mundo inteiro, principalmente nas áreas rurais de África e da Ásia. Esta doença, que se propaga maioritariamente através de dentadas de animais, é praticamente 100% mortal quando os sintomas se instalam.

“Temos tendência para pensar na raiva como uma doença do passado, mas há uma pessoa que morre de raiva a cada 10 minutos em todo o mundo”, diz Katie Hampson, professora de biodiversidade, saúde animal e medicina comparada na Universidade de Glasgow, especializada em ecologia da raiva. “É uma forma horrível de morrer.”

Um homem que foi mordido por um cão que se suspeitava ter raiva recebe uma vacina pós-exposição no Instituto Pasteur em Paris, por volta de 1905. Louis Pasteur desenvolveu a primeira vacina contra a raiva em 1885 – e a tecnologia moderna tornou-a mais eficaz e fácil de administrar.

Fotografia por Bettmann, Getty Images

Estas mortes são quase completamente evitáveis graças à vacina contra a raiva, que foi desenvolvida pela primeira vez por Louis Pasteur em 1885 e aprimorada ao longo do tempo com os avanços da tecnologia. Os EUA registam milhares de casos de raiva entre a vida selvagem todos os anos, mas apenas uma ou duas mortes humanas.

Levando em consideração tudo o que se conhece sobre esta doença, os especialistas dizem que a erradicação seria uma vitória fácil para a saúde pública – e este movimento tem vindo a crescer nos últimos anos. Em 2018, a Organização Mundial de Saúde e os seus parceiros anunciaram um plano para eliminar as mortes humanas devido à raiva até 2030.

“É uma daquelas questões sobre as quais podemos fazer realmente algo”, diz Andy Gibson, diretor de pesquisa estratégica da Mission Rabies, uma instituição de caridade sediada no Reino Unido. “Existe um vislumbre de luz nisto.”

O que é a raiva – e como se transmite?

O lyssavirus da raiva é um vírus RNA especializado em atacar o sistema nervoso central do corpo. O vírus transmite-se através do contacto com a saliva ou o tecido do sistema nervoso de um animal infetado. Isto normalmente acontece através da dentada de um animal ou, menos frequentemente, por arranhões ou exposição à saliva de um animal infetado.

Durante a infeção, o vírus liga-se às células nervosas e espalha-se pelas vias neurais até atingir a medula espinhal e o cérebro. No cérebro, o vírus começa a replicar-se e passa para as glândulas salivares – que é quando os sintomas clínicos começam a surgir.

Suspeitava-se que este canino tinha raiva porque exibia sintomas como inquietação e um comportamento agressivo invulgar. O teste fluorescente direto de anticorpos usado para diagnosticar a raiva requer a colheita de tecido cerebral e só pode ser realizado após a morte.

Fotografia por CDC

Todos os mamíferos são suscetíveis à raiva, mas Katie Hampson diz que os carnívoros são particularmente bons na sua transmissão porque as suas dentadas violentas podem facilmente romper a pele. Os cães são geralmente mais associados à raiva porque vivem no meio dos humanos e vagueiam livremente em muitas partes do mundo, aumentando as probabilidades de propagação da doença.

Porém, nos países onde os cães são amplamente vacinados contra a raiva, a doença permanece endémica entre outros carnívoros como raposas, guaxinins e morcegos. Os EUA, por exemplo, viram recentemente um aumento nos casos de raiva humana ligados a morcegos. Os animais notívagos são a principal causa de exposição à raiva no país, e os Centros de Controlo e Prevenção de Doenças (CDC) dos EUA dizem que isto pode dever-se ao facto de as pessoas não estarem cientes dos riscos representados pelos morcegos.

Quais são os sintomas da raiva?

Quando a maioria das pessoas pensa em raiva, imagina um animal a espumar pela boca e a agir de forma agressiva. Contudo, os especialistas alertam que os sintomas da raiva não são tão diretos e podem variar bastante, incluindo convulsões, ansiedade, delírio, insónia, dificuldades respiratórias, automutilação e outros comportamentos anormais.

“A raiva é mestre na dissimulação. Pode parecer qualquer coisa”, diz Andy Gibson. “O único sinal comum é a morte súbita.”

De acordo com os CDC, os primeiros sintomas da raiva são semelhantes aos da gripe, incluindo fraqueza, febre, dor de cabeça e formigueiro no local da dentada. À medida que o vírus se propaga para o cérebro – um processo que pode demorar semanas ou até meses – há toda uma variedade de sintomas mais graves que pode surgir.

Antigamente, a dentada de um cão com raiva era uma sentença de morte. Agora, devemos agradecer a uma experiência humana realizada no século XIX que deu origem à vacina contra a raiva.

A Organização Mundial de Saúde descreve duas manifestações principais da doença: raiva furiosa e raiva paralítica. As pessoas ou animais com raiva furiosa podem parecer agitados, agressivos e babarem-se excessivamente, ao passo que outros sintomas incluem hiperatividade, medo da água e até receio de ar fresco. Os sintomas da raiva paralítica, por outro lado, são mais discretos – geralmente provocam gradualmente paralisia à medida que o paciente permanece calmo e lúcido.

O que fazer em caso de suspeita de infeção?

Quando os sintomas clínicos se manifestam, a raiva é quase sempre fatal, ou seja, é fundamental agir de imediato se acharmos que fomos mordidos – ou se o nosso animal de estimação foi mordido – por um animal suspeito de ter raiva. Como as dentadas de morcegos nem sempre são visíveis, se tivermos um encontro com um morcego, os especialistas aconselham entrar em contacto com as autoridades.

Mas Andy Gibson acrescenta que o primeiro passo para o tratamento da raiva é algo que podemos fazer por conta própria. “Podemos reduzir muito o risco de contrair raiva se lavarmos a ferida com água e sabão durante 15 minutos”, diz Andy, explicando que o vírus da raiva é bastante frágil e pode ser perturbado pelo sabão.

Um cão de estimação é injetado com a vacina antirrábica durante uma campanha do governo filipino em julho de 2019, em Manila. A vacinação generalizada de cães tem ajudado países pelo mundo inteiro a reduzir drasticamente a ameaça da raiva.

Fotografia por Noel Celis, AFP, Getty Images

Ainda assim, os especialistas aconselham que depois devemos procurar atendimento de um médico que consiga avaliar o risco e administrar a profilaxia pós-exposição (PEP) – um tratamento que é 100% eficaz se for administrado de forma rápida e correta. O chamado PEP normalmente inclui quatro doses da vacina antirrábica tomadas no espaço de duas semanas, bem como uma dose de imunoglobulina antirrábica, um soro que neutraliza o vírus no local da dentada e oferece proteção à medida que o corpo monta uma resposta imunitária.

A vacina contra a raiva é única porque normalmente é administrada após uma infeção e não como medida preventiva. Katie Hampson diz que isto acontece porque é pouco provável que a maioria das pessoas – particularmente nos países que controlam a raiva em cães – seja exposta. No entanto, as pessoas em risco devido aos seus empregos, ou que viajam para um país de alto risco, podem considerar uma vacinação pré-exposição.

“Era preciso ter muito azar para sermos mordidos por um cão com raiva, mas há milhares de pessoas que vivem nestes países e que são mordidas todos os dias, portanto, é um risco a levar em consideração”, diz Katie Hampson.

Qual é a ameaça representada pela raiva para os humanos?

Para as pessoas que vivem nos países mais desenvolvidos, o risco de contrair raiva é extremamente baixo. Isto deve-se ao facto de os cientistas saberem o que funciona para prevenir a raiva – gerar imunidade de grupo ao vacinar pelo menos 80% da população hospedeira local, que geralmente são cães domésticos.

“Se conseguirmos alcançar esta imunidade crítica de grupo, interrompemos a transmissão – interrompemos o ciclo”, diz Louis Nel, diretor executivo da Aliança Global para o Controlo da Raiva, uma ONG que trabalha com governos e organizações internacionais no combate à raiva. “É assim que erradicamos o vírus.”

Nos EUA, o número de mortes humanas devido à raiva desceu de mais de uma centena por ano no início do século XX para apenas uma ou duas por ano desde 1960, ano em que o país começou a vacinar os cães. Sucessos semelhantes aconteceram na Europa Ocidental e, mais recentemente, na América Latina e nas Caraíbas, onde os casos diminuíram 95% desde 1983, tornando a região praticamente livre de raiva.

Isto não significa que nestes países a ameaça é inexistente. Para além do risco representado por outros animais selvagens, como raposas e guaxinins, os cães com raiva podem cruzar fronteiras e reintroduzir a doença noutros locais. Mesmo nos EUA, há relatos ocasionais de raiva entre cães importados, e cerca de um quarto dos casos de raiva humana envolvem pessoas infetadas durante viagens.

Mas esta ameaça é muito maior nos países que não controlam a raiva nos cães. Em 2018, um estudo do Consórcio de Modelagem da Raiva da OMS, publicado no The Lancet, estimava que mais de um milhão de pessoas iriam morrer de raiva entre 2020 e 2035 se estes países não tomassem medidas.

O que pode ser feito para controlar a raiva globalmente?

A OMS e os seus parceiros globais pedem a eliminação das mortes humanas por raiva até 2030. Considerando tudo o que se sabe sobre como prevenir esta doença, os especialistas dizem que o que falta aos países afetados é vontade política e melhorias nas infraestruturas de saúde.

“Nem sempre é lógico para os governos, ou seja, não percebem que esta é uma área onde podem fazer uma diferença enorme na saúde pública”, diz Louis Nel. “Portanto, é por isso que precisamos de trabalhar no caso, para haver investimento.”

Em 2013, a Mission Rabies conseguiu fazer exatamente isso, quando começou a trabalhar em Goa, na Índia. Naquela altura, o governo estadual encontrava apenas cerca de cinco cães com raiva por ano. Contudo, o aumento nos esforços de vigilância revelou um problema muito mais sério, com dois casos positivos por semana. “De repente, descobrimos que havia raiva em todo o lado”, diz Andy Gibson.

Munida com uma compreensão mais aprofundada sobre o problema, Goa decretou um programa de um ano para eliminar a raiva, vacinando mais de 95.000 cães todos os anos para atingir 70% da cobertura vacinal. Com a ajuda da tecnologia dos smartphones, que facilita o rastreio dos cães e o acompanhamento do seu progresso, Goa está agora livre da raiva humana.

O estudo de modelagem feito pela OMS em 2018 também recomendava que se fornecesse aos países mais pobres um melhor acesso aos tratamentos pós-exposição – algo que Katie Hampson, autora principal do artigo, diz ser uma maneira económica de manter as pessoas seguras enquanto os países trabalham para alcançar a imunidade de grupo nos cães. Desde então, a Global Alliance Vaccine Initiative adicionou a vacina antirrábica ao seu portfólio.

A COVID-19, porém, tem complicado estes esforços globais, desviando recursos alocados ao combate à raiva para lidar com uma ameaça ainda mais grave. Louis Nel admite que a meta dos “zero até 2030” pode estar a fugir, mas acrescenta que é uma meta importante a alcançar. Andy Gibson concorda, acrescentando que mesmo os pequenos progressos contra a raiva continuam a ajudar a salvar muitas vidas.

“O fascínio da erradicação é muito apelativo”, diz Andy. “Mas até lá podemos fazer uma diferença enorme com estas medidas.”

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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