Das pastagens às praças de touros: a vida, venda e morte dos touros de lide após a COVID

O ano da ressurreição das touradas em Espanha após a pandemia começa com uma época tauromáquica marcada por um excesso de oferta: demasiados ganadeiros. As touradas em praças de touros têm diminuído, mas nas festas populares têm aumentado.

A corrida inaugural da Feira de San Isidro 2022 na praça de touros de Las Ventas, em Madrid, no dia 8 de maio.

FOTOGRAFIA POR ANTHONY COYLE
Por Anthony Coyle
Publicado 3/08/2022, 09:45

Está uma tarde quente de domingo em Madrid. Tirando a área da bancada que está ao sol, a praça de touros mais importante do mundo está lotada. Passados três anos, no dia 8 de maio, a praça de touros de Las Ventas recebe a corrida inaugural do festival taurino mais prestigiado de Espanha, a Feira de San Isidro – juntamente com as Festas de São Firmino em Pamplona, o festival taurino mais importante do país. O primeiro touro não é bom e a paciência esgota-se. “Mata agora!”, gritam da 7ª bancada, onde se sentam os puristas, apenas 15 minutos depois de Calabrés entrar na arena, um touro castanho de 566 quilos da Ganadaria Montalvo.

O toureiro, Daniel Luque, nem pestaneja e, no terço final, acaba com o animal. Com o touro seguinte, o toureiro é novamente acompanhado pela ovação do publico, mas por motivos diferentes – quase todos os 15.438 espectadores, de lenços brancos na mão, pedem ao presidente para lhe dar uma orelha do animal, mas o presidente nega. Só um dos três matadores irá regressar para casa com o tão desejado louro – uma recompensa pela sua habilidade – e é Álvaro Lorenzo quem recebe a aprovação do presidente para cortar a orelha de Negro, o último touro do dia. Na agenda seguem-se 28 tardes consecutivas de touradas – com 178 touros. Com base no que se viu em Las Ventas, podemos pensar que as touradas em Espanha estão a viver um bom momento. Contudo, à medida que nos aprofundamos no mundo da tauromaquia, percebemos que existem muitas facetas envolvidas.

No dia 8 de maio, no exterior da praça de touros de Las Ventas (para além de uma banca do partido Vox), havia comerciantes a vender almofadas, cobertores, ímanes para o frigorifico e bandeiras, entre outros objetos. Na imagem vemos o detalhe da fachada da praça de touros em Madrid.

FOTOGRAFIA POR ANTHONY COYLE

A ganadaria: o lugar onde tudo começa

Apesar de as empresas dedicadas à criação de touros de lide serem obrigadas a estar registadas no Registo de Empresas de Criação de Gado de Lide, a verdade é que o número de ganadarias em Espanha varia dependendo da instituição ou associação a quem perguntamos (existem cinco agrupamentos de criadores de touros, um número “impressionante”, de acordo com Antonio Lorca, jornalista veterano em tauromaquia). Em dezembro de 2019, o Ministério da Agricultura quantificava 895 ganadarias, ao passo que o Ministério da Cultura registava 1339. Para ser considerada uma ganadaria, a empresa deve ter pelo menos 25 fêmeas reprodutoras e um macho. Mas há uma coisa sobre a qual não existem dúvidas: nem todas reúnem as condições necessárias para levar os seus touros a uma das oito praças de touros de elite espanholas.

Quais são as praças de touros de primeira linha em Espanha?

As praças de touros consideradas de primeira linha também variam de acordo com o ano e o entrevistado. Embora a maioria das fontes indique que são oito praças, há listas que incluem apenas sete e outras que vão até às nove ou mais. A praça de Las Ventas em Madrid é a líder indiscutível, seguida por La Maestranza em Sevilha, o Monumental de Barcelona (encerrado desde a interdição às touradas na Catalunha em 2012), a praça de touros de Valência, Vista Alegre em Bilbau, Ronda de Málaga, Misericórdia em Saragoça e a praça Los Califas em Córdoba.

Uma ganadaria é composta por vacas mãe e touros que se reproduzem de forma natural, mas controlada, com o objetivo de controlar o pedigree dos touros. A ganadaria é dividida em recintos de machos e fêmeas com nove meses de gestação que dão à luz naturalmente e sem ajuda. As crias vivem perto das mães durante os primeiros oito ou nove meses, até que são separadas (fazem o desmame). Apesar de os touros poderem viver até aos 15 anos, são muito poucos os que chegam a essa idade, dado que aos quatro ou cinco anos já são considerados prontos para as touradas.

Todas as fontes tauromáquicas consultadas para este artigo referem consensualmente que há um excesso de oferta por parte das ganadarias. “A situação é terrível. Há muitos amantes dos animais e muitas proibições”, diz Felipe Garrigues, criador da ganadaria Dehesa de Guadarrama, que tem 200 cabeças de gado e é especializado em novilhos – animais de um ou dois anos que são usados em festas populares por toda a Espanha. A ganadaria de Felipe Garrigues é uma humilde quinta madrilena com mais machos do que o habitual. Manter cada touro custa a Felipe cerca de 2.000 euros por ano (embora algumas das fontes consultadas para este artigo gastem o dobro ou o triplo deste valor).

Na sua quinta em Brunete (Madrid), Felipe Garrigues organiza cursos tauromáquicos, casamentos, batizados, comunhões e visitas guiadas. Dias antes da minha visita à praça de touros de Las Ventas, este ganadeiro recebeu-me quando cheguei de autocarro com 18 aposentados austríacos. Enquanto Felipe prendia o seu trator a um atrelado coberto, os turistas preparavam-se, de câmara na mão, para o tentadero, a praça de touros em miniatura onde é colocada à prova a bravura das “bestas” (como por vezes são chamados os touros no mundo das touradas). Os animais que não demonstrarem qualidades suficientes (agressividade, resistência, grau de distração/foco na capa...) vão para o matadouro e daí para o talho.

Um touro da ganadaria Dehesa de Guadarrama

FOTOGRAFIA POR ANTHONY COYLE

Felipe Garrigues, um homem de poucas palavras, mete-se no trator e arranca. O guia (e também jornalista), Gonzalo Bienvenida, está de pé no atrelado com as mãos entrelaçadas na grade e o corpo completamente exposto ao gado. Penso no mayoral (chefe dos pastores numa ganadaria) que foi colhido até à morte este ano em Valência. Pergunto a Gonzalo Bienvenida se não tem medo, e ele responde calmamente: “Não me fazem nada.” O terreno é instável e o barulho da máquina é constante. Enquanto o teto do atrelado deixa um ocasional ramo de oliveira no seu rasto, Gonzalo Bienvenida sussurra frases em espanhol que o intérprete da visita traduz em voz alta para o público. Percorremos a ganadaria e vemos as vacas, as eralas (vacas de dois anos), os novilhos (touros de dois a três anos) e os bezerros. Também vemos uma pequena quinta ocupada por 30 vacas à disposição de um só garanhão, cujo pedigree é tão bom (ou bravo) que foi tomada a decisão de o deixar viver os seus 15 anos.

A ganadaria de Felipe Garrigues é uma de 20 quintas de gado que pertencem à iniciativa Ruta del Toro promovida pela Comunidade de Madrid (CAM). O proprietário, referindo-se aos mais de dois anos de ausência de festas populares, diz que isto o salva da ruína total. Em Espanha, a ajuda dada aos criadores de gado para mitigar os efeitos da pandemia tem variado consoante as ideias da Comunidade Autónoma. Madrid, por exemplo, deu aos agricultores 500 euros por cada vaca mãe com mais de 18 anos (no total, foram 4,5 milhões de euros em 2020). Em Navarra, que é famosa pelas Festas de São Firmino, o montante total da ajuda dada em 2020 rondou um milhão de euros.

Mais à frente, encontramos ganadarias como a de Aurelio Hernando, que desde a primavera já vendeu oito touros para as Fiestas del Ángel de Teruel, realizadas a partir de 11 de julho. Ciente da sua posição (Teruel não é a praça de Las Ventas, é uma praça de touros de segunda categoria), Aurelio Hernando comenta por telefone qual é o segredo para chegar à Liga dos Campeões: “Acredito que 90% dos criadores querem lutar nas praças de touros de primeira linha, mas é muito complicado. Acontece o mesmo no futebol, temos uma pirâmide com uma base muito larga que se vai  estreitando. É preciso que os touros sejam do agrado do toureiro, do empresário e dos adeptos.” Aurelio Hernando, proprietário de três ganadarias espalhadas por Madrid com um total de 500 cabeças de gado, descreve-se como um artista: “Não pinto quadros, mas sinto-me um criador de arte, crio vidas”.

Aurelio Hernando, ganadeiro de touros de lide em Madrid: “Acredito que 90% dos criadores querem lutar nas praças de touros de primeira linha, mas é muito complicado.”

FOTOGRAFIA POR GANADARIA AURELIO HERNANDO

“Em alguns casos, 40% dos seus rendimentos vêm da Europa, que lhes paga pelos hectares de terra e por alguns direitos adquiridos, como prémios pelas vacas recém-nascidas ou em período de aleitamento.”

por JOSÉ ENRIQUE ZALDÍVAR, PRESIDENTE DA AVATMA

Um ganadeiro vive de quê?

Em 2019, pouco antes de surgir a pandemia, foram realizadas 1425 touradas nas praças de touros espanholas, de acordo com as estatísticas mais recentes sobre a tauromaquia no país, publicadas pelo Ministério da Cultura espanhol. Se levarmos em consideração que o número mais generoso para os touros de lide em Espanha é inferior a 1400, os números não batem certo. Para além disso, as touradas representam apenas 24,5% da fatia ocupada pelas chamadas vacadas, ou novilladas, rejoneos, becerradas e outras festividades onde touros e novilhos estão misturados como protagonistas. Em 2019, só 290 ganadarias é que venderam touros ou bois para touradas em Espanha, segundo a Associação de Veterinários Abolicionistas da Tauromaquia e Abuso de Animais (AVATMA).

A maioria dos entrevistados para este artigo concorda numa coisa: a Comunidade de Madrid é uma das regiões mais generosas para com o setor. Nos últimos anos, Madrid emergiu como o bastião espanhol das touradas. De acordo com os orçamentos da CAM, entre 2020 e 2021, a região gastou quase 16 milhões de euros em ajudas às touradas (incluindo os já mencionados 4,5 milhões em 2020 devido à COVID-19).

O presidente da AVATMA, José Enrique Zaldívar, destaca o “apoio importante” dado ao sector proveniente do erário público que os criadores recebem sob a forma de ajudas ou subsídios da Comunidade Autónoma, das câmaras municipais, dos conselhos regionais e da União Europeia para as ganadarias de touros de lide. “Em alguns casos, 40% dos seus rendimentos vêm da Europa, que lhes paga pelos hectares de terra e por alguns direitos adquiridos, como prémios pelas vacas recém-nascidas ou em período de aleitamento.” Nesse aspeto, a opacidade e a falta de transparência são manifestas. De acordo com um estudo detalhado feito por esta associação, um total de cerca de 600 explorações pecuárias receberam 442 milhões de euros de fundos europeus ao abrigo da Política Agrícola Comum (PAC) entre 2002-2013 e 2018-19.

Apesar de oficialmente a União Europeia não subsidiar qualquer tipo de atividade tauromáquica, pode dizer-se que os subsídios da PAC destinados aos criadores de touros de lide ocupam uma espécie de vazio jurídico, no qual os ganadeiros beneficiam dos fundos destinados a todo o gado. Os subsídios europeus são concedidos com base na superfície, ou na manutenção e cuidados da terra, para os terrenos estarem em boas condições agrícolas e ambientais. Em outubro de 2020, o Parlamento Europeu aprovou a cessação do financiamento das touradas através dos fundos agrícolas europeus, tendo em conta a iminente reforma da PAC prevista para o período de 2023-2027.

Enquanto falamos ao telefone, José Zaldívar destaca a existência de uma terceira fonte de rendimentos para além das ajudas nacionais e comunitárias. “Muitas ganadarias estão nas mãos de latifundiários e oligarcas de diferentes Comunidades Autónomas espanholas, que estão intimamente relacionados com outros tipos de exploração agropecuária, incluindo o mundo da construção civil e das grandes empresas.”

O estudo La Ganadería de Lidia en España. Historia, Geografía y Empresa, de Antonio Luis López Martínez, destaca este fenómeno. “A criação de touros de lide tem estado intimamente associada a outras atividades agrícolas, quer seja à agricultura ou a outras quintas de gado. Nestes casos, a criação de touros de lide é uma atividade complementar a estas explorações, com o objectivo de aumentar a sua rentabilidade. Só quando o aumento do preço dos touros o permite é que a criação de touros de lide surge como uma atividade especializada dedicada quase exclusivamente à obtenção de animais para touradas.”

No canal de YouTube La Dehesa y el Toro, o documentário dedicado à ganadaria Montalvo de Salamanca (proprietária dos touros que inauguraram a temporada deste ano na praça de Las Ventas) vemos que os criadores de touros de lide afirmam que “a rentabilidade do porco ibérico é muito mais elevada e segura do que a fornecida pelos touros de lide”. O próprio José Ignacio Pérez Tabernero (chefe desta ganadaria), já alertava para isto em entrevista no final de 2020, durante as restrições devido à pandemia, dizendo que estava a pensar dedicar-se completamente ao gado dócil e à criação de porco ibérico.

Transladação de vacas mansas da ganadaria de Aurélio Hernando. “Temos 50 vacas da raça Berrenda no Colorado, uma raça nativa de Espanha. Como se pode ver pela fotografia, o acompanhamento dos animais a cavalo é muito importante para nós."

FOTOGRAFIA POR AURELIO HERNANDO

A conservação dos montados é importante para os touros de lide?

Os montados ibéricos são um sistema agro-silvopastoril com um ecossistema e biodiversidade únicos no mundo, caracterizado pela abundância de pastagens (17 entidades em Espanha e Portugal estão a trabalhar para que este ecossistema seja considerado Património Mundial da UNESCO). O sistema de uso e gestão das terras é feito com base principalmente na pecuária extensiva, de acordo com a Lei 7/2010 para o montado da Andaluzia. Segundo o Ministério da Cultura espanhol, “esta é a paisagem mais extensa do país, abrangendo cerca de 3 milhões de hectares, em comparação com os 2,4 milhões de hectares ocupados por oliveiras”, e é uma das armas usadas por María Jesús Gualda, presidente da Associação de Ganadarias de Lide, para defender a importância do gado tauromáquico, que assegura ser “o mais extenso do mundo com cerca de 1,5 a 2 hectares por cabeça de gado”.

Existem 25.000 explorações de pastagens em Espanha, das quais 895 são para o gado tauromáquico, segundo dados da AVATMA. A presidente da Associação de Ganadarias de Lide argumenta que a criação de touros tem ajudado enormemente a preservar e a manter este ecossistema único no mundo. “Como são áreas protegidas, não podemos fazer nada nas pastagens, como cortar madeira de uma azinheira. Há 50 ou 60 anos, os montados não só não eram protegidos, como o uso agrícola destes territórios era incentivado através de subsídios para plantar oliveiras.”

A AVATMA discorda. “As terras de pasto, para serem conservadas, não precisam nem nunca precisaram da presença de ganadarias. A biodiversidade (que se refere a espécies e não a raças), as iniciativas contra as alterações climáticas e o combate à desertificação dependem até certo ponto dos montados, mas não desta raça de animal”, como se pode ler no extenso relatório da associação, Dehesa Vs Ganadería de lidia. Em termos de produção alimentar, a AVATMA destaca o contraste entre a grande repercussão cultural e turística da criação de touros de lide e a importância da suinicultura. “O único animal que paga a lavoura e o trabalho necessário para conservar os montados é o porco ibérico, que come bolotas.”

A ganadaria Dehesa de Guadarrama tem 200 cabeças de gado que incluem touros, vacas, novilhos e bezerros.

FOTOGRAFIA POR ANTHONY COYLE

“Por amor aos touros.”

María Jesús Gualda coloca o custo anual de criação de um touro em 4.000 euros (“embora dependa das chuvas”) e afirma que “em poucas ocasiões se atinge o preço de custo” quando são vendidos. María Gualda, responsável pela ganadaria El Añadío em Jaén (que tem 300 cabeças de gado e um hotel rural que procura promover a educação taurina), tenta destacar o lado romântico da profissão. “Temos de compreender que a grande maioria de nós está nisto por vocação, não é um negócio, são poucas as ganadarias que dão lucro, e se investissem o dinheiro que isto custa noutro setor, com certeza ganhariam muito mais. Os ganadeiros dedicam-se a esta atividade por amor aos touros e às touradas.”

“O mundo rural em Espanha está mais do que sobrecarregado”, afirma Trinidad Gómez Vadillo, secretária-geral da Associação Espanhola de Criadores de Touros de Lide. Trinidad Vadillo destaca que os ganadeiros são pessoas “muito peculiares e resilientes” e alega conhecer vários casos de famílias que, durante 2020, tiveram de pedir empréstimos ao banco para sobreviver. “Os políticos fazem muita propaganda sobre os subsídios que oferecem, mas as coisas não dão em nada”, diz Trinidad, que não hesita em referir que “o setor mais afetado durante a COVID-19 foi o dos touros de lide”. Trinidad também critica o iminente pacote de ajuda financeira de 193 milhões de euros que a União Europeia vai destinar, devido à guerra na Ucrânia, aos produtores de leite e, em breve, aos criadores de gado. “No máximo, uma exploração recebe até 7.000 euros. Isto significa muitos milhões, mas há muitos agricultores e este dinheiro não é suficiente. É apenas uma pequena ajuda para comprar um camião de ração, que pode durar 10 dias.”

Como (e por quanto dinheiro) é que um touro chega à praça de touros?

Tal como um olheiro no futebol anda à procura de novos talentos, um veedor viaja por Espanha em busca dos touros que serão selecionados dentro de alguns meses. O seu trabalho é silencioso e discreto, mas fundamental dentro da complexa logística das diferentes empresas envolvidas na tauromaquia e na ligação entre os criadores e o espetáculo tauromáquico. No caso das oito principais praças de touros espanholas, é paga uma taxa, determinada por um processo de leilão. A documentação detalhada da licitação indica o número de eventos a serem realizados – a praça de Las Ventas, por exemplo, organizou 67 eventos em 2019, todos pela mão do licitante vencedor, a Simón Casas Production. As empresas têm toda a responsabilidade, incluindo a seleção dos touros e toureiros, e a logística de todos os eventos a realizar naquela praça durante os próximos quatro anos.

Ainda mais misterioso do que a figura do chamado veedor é a quantidade de dinheiro que um matador recebe por tourada. Tal como acontece com as ganadarias e praças de touros, a hierarquia impõe-se mais uma vez de acordo com a qualidade e o prestígio. “Numa praça de touros de primeira classe, um toureiro do grupo A recebe pelo menos (e raramente recebe o mínimo) 22.000 euros. Um toureiro do grupo B, 17.000 euros, e um toureiro do grupo C, cerca de 15.000 euros”, diz Mar Gutiérrez, secretária-geral da Associação Nacional de Organizadores de Espetáculos Taurinos (ANOET). Os valores são negociados entre a empresa e o procurador, cabendo ao matador dividir a taxa entre a sua equipa, que é composta por dois picadores, três bandarilheiros, um ajudante de espadachim, um assistente e o próprio procurador, que é representante do matador. Com os nomes mais conhecidos, as coisas mudam. “Se for um toureiro do grupo A, que são os que todas as pessoas conhecem, esqueça, podem ser valores astronómicos. Com estes toureiros estamos a falar de valores com quatro zeros”, diz Mar Gutiérrez.

O número de touradas nas praças de touros está a diminuir, mas há mais eventos nas festas populares.

A secretária-geral do principal grupo de empresas tauromáquicas em Espanha diz que 2022 é um ano entusiasmante. Mar Gutiérrez afirma que, em relação a 2019, houve uma subida de 60% nos eventos tauromáquicos realizados em Espanha em março, e uma subida de 100% em abril. Contando com os eventos que envolvem touros fora das grandes praças, realizam-se em Espanha cerca de 20.000 festas populares com touros, vacas, bezerros ou novilhos. Com base nos relatórios fornecidos pela ANOET, verifica-se uma ligeira redução no número de touradas nas praças e um ligeiro aumento nos eventos de rua. “São eventos mais baratos e há muitas cidades que gostam deste tipo de festas.”

O touro embolado é uma festa que se celebra em algumas áreas da Comunidade Valenciana, Aragão, Catalunha, Baleares e Andaluzia.

FOTOGRAFIA POR ANIMA NATURALIS

Aïda Gascón Bosch, diretora da organização sem fins lucrativos Anima Naturalis, discorda do alegado aumento de festas populares que envolvem touros. “Ninguém sabe dizer ao certo se o número de festas está a aumentar ou a diminuir porque é um campo pouco estudado. De qualquer forma, são eventos que se mantêm ou desaparecem gradualmente porque são festas gratuitas financiados por municípios que oferecem poucas alternativas de lazer para além destes eventos, das missas e dos bailes.”

Em relação ao número de pessoas que assistem às touradas, Aïda Bosch é categórica. “É claro que o interesse pelas touradas está a diminuir.”

Aïda e a sua equipa, ao abrigo da Lei de Transparência de acesso à informação pública, começaram há dois anos a investigar todas as festas populares realizadas em Espanha  que envolvem touros. Ainda faltam os dados de quatro regiões autónomas para concluir um estudo que revela, por exemplo, que na Catalunha são realizados 450 espetáculos taurinos em 30 dos seus 947 municípios.

Gastar dinheiro público e uma nova mentalidade: mudança à vista?

Sediado nos Países Baixos (onde as touradas são proibidas), o Comité Anti Stierenvechten (CAS – ou Comité Antitaurino) analisa há anos o mundo das touradas por toda a Europa. Em La Rioja, de acordo com esta associação, gasta-se quase um milhão de euros por ano só em festas populares com touradas, região seguida pela Catalunha com 850.000 euros e do País Basco com 300.000. A tauromaquia é considerada um Bem de Interesse Cultural em Madrid, Múrcia e Castilla-La Mancha, ao passo que noutras Comunidades Autónomas a rejeição popular é cada vez maior. Há 99 municípios espanhóis que se recusam a acolher festividades tauromáquicas, de acordo com um relatório do CAS.

“A inflação está a chegar, os custos vão ter de mudar porque, se não mudarem, não sei quem vai conseguir manter isto. Temos de nos preparar para a retirada, não estou a mandar queimar os navios, mas temos de recolher as velas.”

por JOAQUÍN NÚÑEZ, GANADARIA NÚÑEZ DEL CUVILLO

A organização Anima Naturalis não defende a eliminação completa de todas as festas tauromáquicas. Apesar de os seus membros acreditarem que as touradas “devem ser banidas imediatamente”, a organização concentra-se primeiro em eliminar “as práticas mais sangrentas” e é flexível com celebrações como as Festas de São Firmino em Pamplona. “Não fazem mal ao touro, e embora este também sofra e nós sejamos contra, compreendemos que é uma tradição profundamente enraizada e que atrai muito turismo, e somos a favor de uma mudança mais progressiva. Acreditamos que as vilas e aldeias vão afastar-se gradualmente destas festividades à medida que vão surgindo mais opções culturais.”

Contudo, se há um estandarte que todos os “antitaurinos” devem exibir, é o do partido PACMA. Estabelecido como a força extraparlamentar mais forte de Espanha, o PACMA obteve 226.376 votos nas últimas eleições gerais (de um total de 26 milhões de votos), embora não tenha sido o suficiente para conseguir assento parlamentar. Fundado em 2003 como um partido político antitaurino e posteriormente renovado como um partido de defesa de todos os animais, o Partido Animalista contra el Maltratro Animal é, com algumas diferenças, o mesmo que a PETA nos EUA, e teve sempre como estandarte a erradicação das touradas. “Não queremos uma alteração do regime taurino onde o animal não é esfaqueado; queremos a abolição completa. Eles publicitam isto com palavras sonantes como ‘arte’ ou ‘inspiração’, mas continua a ser um ato de crueldade incompreensível para qualquer pessoa que não nasceu e não viveu nesta cultura”, diz Javier Sanabria, membro do partido.

“Porque é que temos quase o mesmo número de touradas do que ganadarias?” pergunta Javier, antes de afirmar que 90% das ganadarias vivem de subsídios e que as touradas são, para quase todas as ganadarias, apenas um rendimento extra. Na Catalunha, a proibição das touradas foi anulada em 2016 por ser inconstitucional e a última tourada numa praça registada nesta comunidade autónoma foi no dia 25 de setembro de 2011. Nesse sentido, a única proibição em Espanha que foi executada com severidade foi a de Toro de la Vega (um “torneio”, segundo a Câmara Municipal de Tordesilhas, no qual os habitantes da cidade, armados com lanças, matam o touro). A nova lei, aprovada em maio de 2016 e ratificada em 2019 pelo supremo tribunal, fez com que se passassem seis anos sem que qualquer touro fosse morto por uma lança na cidade castelhana de Tordesilhas.

Segundo José Enrique Zaldívar, presidente da AVATMA, “toda a legislação, tanto nacional e regional como europeia, isenta os maus tratos aos animais que se exercem sobre o gado de lide, tanto nas explorações como nas festas em que são utilizados, reconhecendo, portanto, que existem maltratos”. Na imagem, vários jovens preparam um touro embolado numa festa na Catalunha.

FOTOGRAFIA POR ANIMA NATURALIS

Este ano, pela primeira vez na história, a Comunidade Valenciana não atribuiu qualquer orçamento à celebração tradicional “bous al carrer”, onde, como o próprio nome indica, vários touros são libertados pelas ruas das cidades que acolhem esta tradição levantina e catalã. Apesar de este anúncio ter sido bem recebido pelos defensores dos direitos dos animais, a sua relevância é quase anedótica – como acontece no resto do país, o financiamento destas celebrações locais continua a ser da responsabilidade de cada câmara municipal. Só em 2019, na Comunidade Valenciana, as câmaras municipais destinaram 37 milhões de euros a festividades tauromáquicas.

A diretora da Anima Naturalis informa que há mais de uma década que a sua ONG regista e divulga “os espetáculos tauromáquicos mais cruéis”, como o touro embolado (ou correbous, uma festa noturna onde se solta um touro com chifres em chamas) ou o touro ensogado (“amarram um touro pela cabeça com duas cordas e forçam-no a correr pelas ruas, e quando o touro vai atacar, eles diminuem-lhe a velocidade, mas se o touro ficar parado e recusar-se a correr, eles puxam-no”). Aïda Bosch diz que o motivo pelo qual a ONG faz estas gravações é puramente informativo. “Como isto acontece nas cidades mais pequenas no sul e quase na fronteira com Castellón, é algo muito distante da vida quotidiana da maioria das pessoas e a falta de conhecimento é muito generalizada.”

Na Comunidade Valenciana, os famosos bous a la mar foram objeto de debate em meados de junho em Denia devido à petição popular para a sua proibição (que foi rejeitada pelo vereador de Fiestas, que reconheceu que, apesar de haver “uma sensibilidade” contra o festival, esta não é suficientemente representativa). Esta celebração, que foi considerada Festa de Interesse Nacional em 1993 pelo Ministério do Turismo, decorre numa espécie de praça de touros instalada temporariamente num porto. Como acontece noutras festividades, o touro é perseguido e empurrado pelos aldeões, mas com uma diferença – se o touro ficar tonto o suficiente, o animal é mergulhado na água salgada.

No mês passado, a maior praça de touros do mundo sofreu um revés judicial sem precedentes, a Plaza México, na Cidade do México, que já não pode receber touradas depois de um juiz federal ter decidido suspender os eventos por causa do tratamento “degradante” dos animais. Em Portugal, por outro lado, a proibição de touradas foi chumbada em 2018, mas o animal não morre na arena. Os outros países onde se realizam touradas são França (70 por ano, sendo que Nimes é a praça de touros mais famosa) e a Colômbia, cujo próximo candidato eleitoral (e ex-presidente da câmara de Bogotá), Gustavo Petro, prometeu há poucos dias proibir as touradas se for eleito.

Espectadores na praça de touros de Las Ventas sentados nas bancadas ao sol, as mais baratas, mas também as menos práticas para assistir à tourada.

FOTOGRAFIA POR ANTHONY COYLE

Qual é a melhor ganadaria em Espanha?

Temos de rumar para sul, até Cádiz, para encontrarmos a joia da coroa. Se há uma ganadaria famosa onde não faltam compradores e boa imprensa é a de Núñez del Cuvillo, provavelmente a mais famosa de Espanha, muito presente na corrida de touros das Festas de São Firmino, “e a melhor ou uma das três melhores”, na opinião do ganadeiro-artista Aurelio Hernando. “Devem estar a fazer confusão, existem muitas ganadarias como a minha”, diz do outro lado do telefone fixo entre uma gargalha tímida o seu gerente, Joaquín Núñez, uma instituição viva de 91 anos (com 40 anos no ramo), filho, neto e bisneto de ganadeiros, que se refere à COVID como uma “praga trágica” e que ainda fala na moeda antiga. “Toda a minha vida criar um touro custou sempre um milhão de pesetas [6000 euros].”

A voz de Joaquín Núñez estremece quando recorda a tourada feita poucos dias antes, quando seis dos seus touros protagonizaram uma tourada improvável na praça Maestranza de Sevilha (para muitos, a melhor praça de touros de Espanha, juntamente com Las Ventas). “Esperava que os meus touros fossem melhores, mas os toureiros e a sua qualidade compensaram as suas falhas”, diz Joaquín Núñez, antes de protestar de forma inusitada (e muito precisa), porque o último touro da tarde suscitou a ovação do público; “mas o presidente agiu de forma arbitrária, negou a Roca Rey, a segunda orelha, e não permitiu que o touro saísse pela Puerta del Príncipe e, claro, o público atirou as suas almofadas para a arena”.

O toureiro Daniel Luque está prestes a acabar com Calabrés, o primeiro touro da tarde, na corrida realizada no dia 8 de maio na praça de touros de Las Ventas, em Madrid.

FOTOGRAFIA POR ANTHONY COYLE

Joaquín Núñez está entusiasmado com o número de espectadores registados este ano nas praças de touros em Espanha. “O ambiente é muito bom e está a demonstrar que a pandemia não nos conseguiu derrotar.” Mas Joaquín Núñez também está ciente de que se avizinham tempos difíceis. “A inflação está a chegar, os custos vão ter de mudar porque, se não mudarem, não sei quem vai conseguir manter isto. Temos de nos preparar para a retirada, não estou a mandar queimar os navios, mas temos de recolher as velas.” Até recentemente, Joaquín Núñez tinha 700 vacas (que produziam touros suficientes para 25 touradas por ano), mas vendeu 200 vacas pela carne porque o negócio tornou-se “antieconómico”. “Quase todos os ganadeiros estão a vender com prejuízo, e outros tiveram de recolher velas.”

Apesar de toda a fama, das entrevistas e das fotografias com celebridades, e apesar dos inúmeros prémios e da oferta frequente de touros para as grandes praças de touros em Espanha, também este colosso do mundo tauromáquico está a vacilar. Será que há algum ganadeiro em Espanha que esteja a salvo do espectro da economia? Pergunto a Joaquín Núñez sobre futuro das touradas e o ganadeiro divide o problema em duas questões – por um lado, o futuro dos ganadeiros e, por outro, o futuro das touradas. “Como acontece felizmente com a Igreja Católica, não a conseguiram obliterar, vai existir para sempre, acho que vai acontecer algo semelhante com as touradas.”

 

 

Este artigo foi publicado originalmente em espanhol no site nationalgeographic.es

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