Estes animais têm alguns dos hábitos de acasalamento e parentais mais surpreendentes

Desde ferozes rainhas roedoras a pais dragões-marinhos leais, os animais assumem uma maravilhosa diversidade de papéis sexuais no desenvolvimento das suas espécies.

Por Jude Coleman
Publicado 11/08/2022, 09:00
dragão-marinho

Um dragão-marinho macho transporta ovos sob a cauda perto de Wool Bay Jetty, no sul da Austrália. O macho recebe os ovos por fertilizar de uma fêmea e, se quiser, fertiliza-os e transporta-os até estes estarem prontos para eclodir.

Fotografia por Alex Mustard, Minden Pictures

As relações podem ser complicadas, sobretudo na natureza. Existem dezenas de formas pelas quais as criaturas acasalam, quer sejam bactérias microscópicas ou enormes mamíferos na selva. Contudo, tal como acontece com os humanos, não existe um tamanho único no reino animal – tal como não há escassez de variedade nos hábitos reprodutores e parentais.

Enquanto protegem as suas espécies, os animais macho e fêmea assumem papéis sexuais distintos. Este termo não se refere apenas ao ato de copulação, inclui tarefas específicas que os animais cumprem no acasalamento e na paternidade. Um tema comum no mundo do cortejo na natureza passa por uma fêmea escolher um companheiro entre vários pretendentes concorrentes, criando depois a sua prole predominantemente sozinha.

As baleias-jubarte macho, por exemplo, competem pelas fêmeas e deixam as crias aos cuidados da mãe. Outros animais, como os elefantes-marinhos, formam um harém – um grupo de fêmeas liderado por um macho que detém o monopólio do acasalamento e interage pouco com a sua prole. Ambos os cenários englobam-se na poligamia, onde um macho acasala com várias fêmeas.

Por outro lado, nos animais monogâmicos, como o albatroz, um par reprodutor acasala para toda a vida. Estes são os papéis sexuais considerados convencionais.

Uma ema macho fica por perto para proteger a sua nova cria de predadores em Nova Gales do Sul, na Austrália. Os machos desta espécie são responsáveis por cuidar das suas proles.

Fotografia por Jami Tarris, Getty Images

No entanto, as relações de reprodução como os matriarcados ou haréns liderados por fêmeas que não se integram na poligamia ou monogamia tradicionais são consideradas inversões de papéis.

As inversões de papéis no mar, no céu e no subsolo destacam a diversidade de cortejos no reino animal – e a maravilhosa variedade de vida na Terra.

Rainhas mamíferas

Nas colónias subterrâneas de ratos-toupeira-pelados, uma poderosa rainha governa centenas de súbditos cegos e sem pelo. Como acontece nas colónias de abelhas ou formigas, as rainhas de rato-toupeira-pelado são as únicas fêmeas que acasalam e dão à luz. A rainha é acompanhada por um – ou ocasionalmente alguns – macho reprodutor, a quem concede o direito de gerar a próxima geração. O resto da colónia tem a tarefa de cuidar das proles, para além de expandir as tocas com os seus dentes robustos e alimentar a rainha. Os biólogos chamam a este processo “reprodução cooperativa extrema”.

“Os ratos-toupeira-pelados são o exemplo mais extremo entre os mamíferos”, diz Melissa Holmes, neurocientista comportamental da Universidade de Toronto. “É uma coisa extremamente rara.”

A rainha governa de forma suprema ao suprimir os comportamentos reprodutores na colónia. Os investigadores suspeitam que a rainha faz isto através de um comportamento dominante, subjugando os membros da colónia. Quando a rainha morre, outra fêmea pode pacificamente tomar o seu lugar, começar a acasalar e a gerar descendentes. Mas às vezes, antes de morrerem, as fêmeas subordinadas encenam um golpe, atacando a rainha e lutando até à morte por uma oportunidade de tomar o trono. Devido ao seu tempo de vida útil extraordinariamente longo – mais de 30 anos – as rainhas, se não forem derrubadas, podem governar ao longo de décadas.

À superfície, nas planícies aluviais e savanas africanas, as fêmeas de antílopes topi também assumem o controlo das situações de reprodução. Em vez de serem os machos a lutar entre si por uma parceira, são as topi fêmea que atacam agressivamente as suas competidoras – algumas até fazem emboscadas durante o acasalamento de outros casais. A competição é inevitável: as topi fêmea são férteis apenas um dia por ano. Ao acasalar com cerca de quatro outros machos num dia, as fêmeas aumentam as suas probabilidades de conceção. Enquanto isso, os topi macho fazem os seus próprios jogos de amor, rejeitando as fêmeas com as quais já acasalaram e permitindo os avanços de novos parceiros.

Debaixo de água

Semelhante ao que acontece com os ratos-toupeira-pelados, os grupos de peixes-palhaço também são liderados por uma fêmea que está “praticamente no comando total”, diz Savannah Dodds, aquarista no Oregon Coast Aquarium. A nadar ao lado desta fêmea está um companheiro macho, um único peixe com permissão para fertilizar os seus ovos. Juntos, cuidam dos ovos em desenvolvimento até à eclosão. Mas se a fêmea morrer, acontece uma reversão de um tipo diferente – o seu companheiro transforma-se em fêmea e assume o seu lugar.

Um peixe-palhaço ocidental com uma fêmea grande e dominante atrás de si em Bitung, Celebes do Norte, na Indonésia.

Todos os peixes-palhaço são hermafroditas, o que significa que estão equipados com dois conjuntos de material reprodutor – mas nascem todos do sexo masculino. A “nova” fêmea de peixe-palhaço começa a colocar os ovos e o maior macho do cardume assume o papel de pai dos peixes.

Os dragões-marinhos que se escondem nas algas ondulantes na costa da Austrália levam as inversões de papéis ainda mais longe – são os machos que carregam e dão à luz as suas crias. Tal como acontece com os seus parentes cavalos-marinhos, os dragões-marinhos macho recebem os ovos por fertilizar das fêmeas, que deixam as suas crias numa bolsa especial sob as caudas dos machos. Se um macho não ficar impressionado com uma fêmea – que o tenta seduzir com uma dança elaborada – o macho rejeita os ovos.

Mas se for bem cortejado, o macho guarda e fertiliza os ovos. Os ovos desenvolvem-se na bolsa do pai durante seis semanas antes de emergirem. Depois de nascerem, as crias devem enfrentar os perigos do oceano e as mudanças das correntes por conta própria. Só cerca de 5% das crias de dragões-marinhos sobrevivem, diz Savannah Dodds, e a União Internacional para a Conservação da Natureza considera algumas espécies quase ameaçadas.

Pais emplumados

Na Austrália continental, as ema macho também assumem o dever de pai. Quando a época de reprodução começa, as ema conquistam as fêmeas com uma exibição lenta onde balançam o pescoço. Mas a mãe, após o acasalamento, em vez de incubar os ovos que põe, deixa-os com o seu companheiro e afasta-se para repetir o processo com outro animal – um padrão de acasalamento chamado poliandria. O pai ema fica com uma ninhada de ovos e deve permanecer sentado no ninho durante os dois meses seguintes. Durante este período, o pai renuncia à comida e perde até um terço do seu peso corporal. Após a eclosão, estes pais dedicados criam a sua prole durante cerca de um ano, ensinando as crias a sobreviver em terreno inóspito.

Enquanto isso, nas árvores tropicais da Nova Guiné, Austrália e ilhas vizinhas, há papagaios coloridos que estão a desafiar a noção de que as fêmeas devem ser enfadonhas. Numa exibição impressionante de dicromatismo sexual invertido, onde as fêmeas têm cores mais vibrantes do que os machos, os papagaios-eclectus fêmea destacam-se como se fossem joias preciosas nas suas cavidades de nidificação – exibindo uma plumagem vermelha e azul brilhante. Os machos ostentam principalmente penas verdes, nas quais confiam para passarem despercebidos nas copas das árvores.

Numa exibição impressionante de dicromatismo sexual invertido, os papagaios-eclectus fêmea são mais vibrantes do que os machos, destacando-se como joias preciosas nas suas cavidades de nidificação com uma plumagem vermelha e azul brilhante. Os machos, por sua vez, têm uma plumagem verde.

Apesar de o apelo sexual desempenhar um papel nesta ousada troca de cores, a coloração das fêmeas provavelmente surgiu para reivindicar território, diz Rob Heinsohn, biólogo evolucionário da Universidade Nacional Australiana.

“É um sinal evidente de posse: ‘Não venhas aqui; vou lutar contra ti’”, diz Rob.

As cavidades habitadas pelos papagaios-eclectus são muito procuradas, e estas aves defendem-nas a todo custo de outras mães invasoras. A sua coloração deslumbrante anuncia que uma árvore está ocupada, mas algumas fêmeas continuam a lutar até à morte por um local valioso de nidificação. Como as fêmeas guardam as suas cavidades ininterruptamente, dependem dos companheiros para lhes trazer comida. E quanto mais companheiros têm, mais comida recebem.

Apesar de só colocarem dois ovos por ninhada, as fêmeas acasalam com muitos machos, levando todos a acreditar que podem ser o pai. Os machos, com o objetivo de promover a sua linhagem, também acasalam com várias fêmeas. Os machos ajudam a cuidar das crias de todos outros e levam fruta de árvore em árvore, que as fêmeas comem e regurgitam para as crias. Este é um tipo de criação cooperativa chamada poliandria cooperativa, um comportamento que combina os métodos parentais dos ratos-toupeira-pelados e o hábito das emas.

Há outras aves que exibem esquemas de cores invertidos, “mas nada de tão ousado ou óbvio como o papagaio-clectus”, diz Rob Heinsohn. “Quando estão a brilhar à luz do sol no dossel, provavelmente não há nada mais bonito no mundo inteiro.”

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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