O risco de demência nos cães aumenta todos os anos

O nível de atividade e o declínio cognitivo parecem estar ligados, mas os cientistas dizem que é necessário mais investigação.

Por Jason Bittel
Publicado 29/08/2022, 10:58
cão

A perda de memória e o declínio cognitivo são comuns nos cães mais velhos, mas alguns podem desenvolver uma doença mais grave chamada disfunção cognitiva canina.

Fotografia por DESIGN PICS INC, Nat Geo Image Collection

O seu velho e querido cão de família está de repente a ter acidentes ou a ficar perdido nos cantos da casa? Por vezes parece que o seu animal de estimação não reconhece alguém que conheceu a vida inteira?

A perda de memória e o declínio cognitivo são comuns nos cães idosos e nos humanos. Mas em casos extremos, segundo os cientistas, os cães podem passar por algo que se chama disfunção cognitiva canina, ou DCC. Outros sintomas podem incluir padrões de sono interrompidos, perda da noção espacial e comportamentos sociais novos e invulgares.

“Os cães enfrentam muitas das mesmas doenças relacionadas com a idade que os humanos”, diz por email Sarah Yarborough, epidemiologista do Departamento de Medicina Familiar da Universidade de Washington.

“Obter uma melhor compreensão sobre a forma como estas doenças se manifestam na nossa população de cães pode revelar pistas que explicarão melhor o progresso de doenças [humanas] como a demência”, diz Sarah.

Para aprofundar mais os fatores de risco associados à referida DCC, Sarah Yarborough e os seus colegas recolheram recentemente dados de mais de 15.000 cães e, de seguida, ajustaram essas informações para levar em consideração variáveis como idade, raça e nível de atividade. Os cães enquanto espécie – Canis familiaris – incluem um pouco tudo, desde o diminuto Chihuahua ao enorme Dogue alemão, e estas diferenças de tamanho, forma e comportamento podem distorcer as descobertas.

No geral, os cientistas descobriram que as probabilidades de DCC aumentam em mais de metade por cada ano de vida de um cão.

“Quando dois cães têm o mesmo estatuto de esterilização, problemas de saúde, tipo de raça e nível de atividade, o risco de DCC é 52% mais elevado no cão que é um ano mais velho do que no cão um ano mais novo”, diz Sarah Yarborough, que também é a autora principal de um estudo publicado na Scientific Reports.

Para além disso, os cães descritos como inativos pelos seus donos tinham quase 6.5 vezes mais propensão para sofrer de DCC – mas os especialistas enfatizam que este vínculo é uma correlação e não uma causa. Por outras palavras, os cientistas não podem afirmar definitivamente que a inatividade deu origem à DCC ou se foi o desenvolvimento desta condição que desencadeou a inatividade. Isto exige mais investigação para desvendar, diz Sarah Yarborough.

O Projeto de Envelhecimento Canino

Os estudos fetos anteriormente encontraram uma ligação entre envelhecimento e DCC, mas estes trabalhos tendem a ter uma abrangência mais reduzida.

No campo da medicina veterinária, um estudo com uma centena de cães é muitas vezes considerado impressionantemente grande, diz Natasha Olby, cientista clínica e veterinária da Universidade da Carolina do Norte, que não esteve envolvida no novo estudo.

O estudo mais recente, porém, usa dados inovadores de 15.000 cães. Isto é possível graças ao Projeto de Envelhecimento Canino. Fundado em 2014 por Kate Creevy, Daniel Promislow e Matt Kaeberlein, e financiado em parte por doações do Instituto Nacional de Envelhecimento dos EUA, o novo projeto recolhe informações sobre dezenas de milhares de cães nos Estados Unidos à medida que estes crescem. Em alguns casos, os proprietários também fornecem registos veterinários e amostras biológicas, como material genético.

O laboratório de Natasha Olby adota uma abordagem oposta para estudar o envelhecimento – os cães individuais são avaliados por vários especialistas – mas todos estes trabalhos procuram respostas para as mesmas perguntas, diz Natasha.

“A parte boa é podermos validar observações práticas vindas das pessoas através de questionários”, diz Natasha. “Estamos a encontrar uma grande sinergia entre os nossos grupos.”

Ajudar cães, ajudar pessoas

A boa notícia para os cães e donos é a de que a DCC é relativamente rara. Apenas 1.4% dos cães que participaram no estudo mostraram sinais desta doença. Mas há um senão – esta estatística refere-se a cães de todas as idades. Aparentemente, até certo ponto, o declínio cognitivo torna-se inevitável.

“Ainda não vimos um cão normal com mais de 15 anos”, diz Nartasha Olby.

Também pode haver mais cães com DCC do que os refletidos pelo estudo.

“Devo dizer que não trato muitos cães com disfunção cognitiva”, diz Andrea Y. Tu, diretora médica da Behavior Vets de Nova Iorque, que também não participou na nova investigação.

Isto pode dever-se ao facto de muitos donos de animais simplesmente encararem a demência como um sinal normal de envelhecimento. Se um cão não estiver a provocar problemas, como morder pessoas, os donos não procuram tratamento, diz Andrea Y. Tu.

Esta condição também pode ser difícil de diagnosticar com base apenas num sintoma. Por exemplo, quando um cão começa a provocar problemas em casa, pode ser o resultado de uma infeção na bexiga, não de demência, diz Natasha Olby. Da mesma forma, os tumores cerebrais também podem induzir sintomas semelhantes aos da demência.

No entanto, ao estarem cientes da DCC, isso pode ajudar os donos de animais a reconhecer a doença mais cedo e a retardar o seu progresso.

“Nas pessoas, há muitas evidências de que manter a mobilidade e fazer exercício ajuda a retardar a demência e talvez até a revertê-la um pouco nas fases iniciais”, diz Natasha.

Da mesma forma, quando um cão começa a mostrar sinais de que está a ficar mais lento, o dono do animal pode perguntar ao veterinário se há algo que pode ser feito. Por exemplo, diz Natasha Olby, os medicamentos anti-inflamatórios podem ajudar a aliviar a dor relacionada com a artrite, permitindo a um cão idoso permanecer ativo durante mais tempo, podendo assim mitigar o declínio cognitivo.

E também pode haver benefícios para as pessoas que estão a envelhecer.

“Acredito realmente que a disfunção cognitiva canina pode ser um modelo para os estudos de Alzheimer nos humanos”, diz Andrea Y. Tu, acrescentando que a imagiologia de cérebros de cães com DCC pode permitir aos cientistas tirar ainda mais conclusões a partir dos dados do Projeto de Envelhecimento Canino.

Outra razão pela qual os cães são animais modelo particularmente interessantes para estes tipos de estudos, diz Natasha Olby, reside no facto de os cães sofrerem naturalmente estes tipos de doenças relacionadas com a idade, em vez de serem condições induzidas artificialmente por cientistas em laboratório.

“Os cães também vivem com os donos no mesmo ambiente, comendo muitas vezes os mesmos alimentos, dormindo na mesma cama ou exercitando-se ao mesmo tempo que os donos”, diz Natasha. “Portanto, temos uma maneira realmente única de compreender muito melhor estas pistas ambientais cumulativas, que muitas vezes são bastante subtis, ao observar os cães. Estou muito entusiasmada com o potencial deste trabalho.”

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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