Os alimentos e cosméticos do dia a dia que usam plantas silvestres podem estar a afetar o ambiente

Carité, zimbro, alcaçuz e muito mais – por trás de produtos como loções, champôs e chás, há cadeias de abastecimento complexas que ocultam riscos ambientais e sociais.

As plantas silvestres – como a castanha-do-brasil e raiz de alcaçuz (na parte de cima da imagem); olíbano, goldenseal e goma-arábica (na parte de baixo da imagem) – são usadas em alimentos, cosméticos e remédios. Mas tem sido dada pouca atenção aos locais onde se encontram ou à forma como são colhidas.

Fotografia por Rebecca Hale, National Geographic
Por Rachel Fobar
Publicado 31/08/2022, 10:43

O chocolate que comemos, o hidratante que usamos, o chá que bebemos – são produtos do quotidiano que contêm ingredientes de plantas selvagens. A forma como estas plantas – muitas delas ameaçadas – são colhidas pode estar a afetar o ambiente e a explorar os trabalhadores, segundo um relatório publicado no início deste ano.

Este relatório afiliado à ONU foi feito por especialistas em comércio de vida selvagem e destaca 12 plantas: olíbano, carité, castanha-do-brasil, zimbro, alcaçuz, baobá, argão, candelilla, cerejeira africana, nardo, goma-arábica e goldenseal.

Os derivados de plantas presentes nos produtos domésticos “passam muitas vezes despercebidos”, diz Caitlin Schindler, autora principal do relatório e diretora de projetos da Traffic, uma organização sem fins lucrativos que monitoriza a sustentabilidade do comércio de vida selvagem. Estas plantas “ficam algures no meio da lista de ingredientes” presentes nos rótulos dos produtos. Mesmo que os consumidores reparem nos nomes dos ingredientes, não há informações sobre o que está envolvido na sua obtenção e processamento.

Por exemplo, o rendimento de cerca de 20.000 brasileiros depende direta ou indiretamente da colheita de castanha-do-brasil, que é uma das castanhas mais consumidas no mundo e está vulnerável à extinção. Muitas vezes, há famílias inteiras que vêm de regiões vizinhas para colher as castanhas, vivendo em acampamentos florestais temporários, que oferecem abrigo precário e sem acesso a água potável. Nestes locais, os trabalhadores correm o risco de serem picados por escorpiões, atingidos por frutas pesadas que caem das árvores ou atacados por jaguares. Quando as castanhas são vendidas, são os países importadores que lucram, aumentando o preço cerca de 2.5 vezes, apesar de não ser necessário processamento adicional.

Muitas das plantas identificadas no relatório – publicado em abril pela Traffic, a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura e pelo Grupo de Especialistas em Plantas Medicinais da União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN) – estão ameaçadas de extinção. As principais ameaças são a colheita excessiva, as pragas e doenças invasivas, as alterações climáticas e a perda de habitat. Tal como acontece com a castanha-do-brasil, a colheita destas plantas pode envolver trabalho infantil e violações dos direitos dos trabalhadores, de acordo com o relatório. Muitas das pessoas que fazem estas colheitas são mulheres pobres que vivem em áreas rurais marginalizadas.

O relatório afirma que a UICN nunca avaliou o estado de conservação de mais de 500.000 espécies de plantas que são comercializadas regularmente, o que significa que é impossível saber se a sua utilização é sustentável.

Enquanto isso, o comércio de plantas silvestres – para aromaterapia, medicina natural, suplementos alimentares e produtos naturais de beleza – está a crescer. Em 2020, os consumidores nos EUA gastaram mais de 11 mil milhões de dólares em suplementos dietéticos à base de plantas – um aumento de 17% em relação a 2019. Plantas como alcaçuz são usadas em preventivos e remédios herbais para a COVID-19, e a casca da árvore quilaia nativa do Chile é usada na vacina Novavax contra a COVID-19.

As comunidades locais usam plantas silvestres há séculos – olíbano na Somália, castanha-do-brasil na América do Sul ou pó de baobá no sul de África – mas a atual demanda global coloca muitas destas plantas em risco de colheita excessiva.

Por outro lado, quando estes ingredientes são exportados, os clientes internacionais geralmente não fazem ideia da origem dos produtos.

“Historicamente, a indústria de plantas medicinais tem estado envolta em muito secretismo”, diz Ann Armbrecht, diretora do Programa de Ervas Sustentáveis, que trabalha na transparência no fornecimento de plantas. As empresas não querem partilhar informações proprietárias e os consumidores nem sequer pensam em perguntar, diz Ann Armbrecht, que não esteve envolvida no relatório. Ann diz que quando começou neste campo, “havia tanta discussão sobre de onde vinha a comida, mas ninguém estava a perguntar de onde vinha a camomila para o [chá]”.

Muitos brasileiros dependem dos rendimentos vindos da colheita de castanha-do-brasil, uma das castanhas mais consumidas. Mas esta árvore é vulnerável à extinção e os trabalhadores arriscam condições perigosas para colher as castanhas.

Fotografia por Rebecca Hale, National Geographic

Olíbano

Boswellia sacra
O abastecimento responsável de olíbano é um desafio porque a expansão de terras agrícolas e a colheita excessiva reduzem a distribuição já de si limitada de árvores. A escravatura dos tempos modernos, as violações dos direitos dos trabalhadores e o trabalho infantil são problemas reais na Somália e no Iémen. Na Somalilândia, os trabalhadores que dependem do olíbano como fonte principal de rendimento são afetados pelas flutuações de preços, e as mulheres muitas vezes não podem possuir ou gerir os terrenos onde estas árvores crescem.

Carité

Vitellaria paradoxa
As árvores de carité, que são exaustivamente exploradas na produção de madeira e carvão, são lentas a regenerar. Enquanto isso, a demanda por manteiga feita de nozes de carité continua a aumentar. A colheita sazonal de nozes de carité, feita principalmente por mulheres, pode ser perigosa, dado que estas árvores podem estar infestadas com cobras venenosas. No Mali, de acordo com os relatos, são usadas crianças na colheita.

Castanha-do-brasil

Bertholletia excelsa
Os riscos para os trabalhadores são elevados: o trabalho infantil e a escravatura moderna têm sido documentados nesta cadeia de abastecimento, e os funcionários por vezes trabalham sem contratos, resultando em salários baixos e incertos. Os trabalhadores, que vivem em acampamentos florestais temporários, enfrentam problemas de saúde e segurança, como picadas de insetos, parasitas, água imprópria para consumo e até ataques de jaguares. Em 2020, a Confederação Sindical Internacional classificou o Brasil como um dos 10 piores países do mundo em termos de violência contra os trabalhadores.

Na Somália, Iémen e Omã, as árvores que produzem olíbano – um ingrediente usado em perfumes, incensos e produtos para a pele – estão mal distribuídas e são colhidas em excesso. Os trabalhadores são muitas vezes mal pagos.

Zimbro

Juniperus communis
As ameaças ao Juniperus communis, um arbusto que é lento a regenerar, incluem a redução dos habitat de pastagem, as doenças fúngicas, o pastoreio excessivo de gado e também a colheita em excesso. Na Europa Oriental e Central, estas bagas são frequentemente colhidas por grupos desfavorecidos, como por exemplo ciganos, incluindo os seus filhos.

Alcaçuz

Glycyrrhiza glabra
Os colhedores de caules subterrâneos da erva Glycyrrhiza glabra podem enfrentar penalidades se ingressarem em sindicatos no Irão e, para além de recorrerem ao trabalho infantil no Azerbaijão, também resultam em taxas elevadas de escravatura moderna no Turquemenistão, Uzbequistão e Irão, de acordo com o Índice Global de Escravatura.

Baobá

Adansonia digitata
As árvores baobá estão escassamente distribuídas e a desflorestação das comunidades rurais ameaça as suas populações. Geralmente, são as mulheres e crianças que colhem os frutos, as folhas e as cascas de baobá – trabalho que pode exigir caminhadas longas e subir às árvores, com o risco de quedas acidentais.

O alcaçuz pode ser encontrado em doces, refrigerantes, chá e remédios tradicionais, mas as pessoas que o colhem em toda a sua faixa de alcance enfrentam uma variedade de ameaças, incluindo trabalho infantil, escravatura moderna e violações dos direitos dos trabalhadores.

 

Argão

Sideroxylon spinosum
O processo trabalhoso de extração de óleo do fruto do argão recai geralmente sobre as mulheres indígenas, que muitas vezes são analfabetas, pagas abaixo do salário mínimo e excluídas da tomada de decisões. A demanda por óleo de argão tem aumentado, mas a seca, a perda de habitat e a extração excessiva de madeira para combustível e produção de óleo são obstáculos para estas árvores de crescimento lento. O trabalho infantil, as duras condições de trabalho e os salários irregulares são problemas bem documentados.

Candelilla

Euphorbia antisyphilitica
O arbusto de candelilla corre o risco de sofrer uma colheita excessiva devido à cera derivada dos seus caules. A Convenção sobre o Comércio Internacional de Espécies da Fauna e da Flora Selvagem Ameaçadas de Extinção (CITES), que regula o comércio global de vida selvagem, restringe o comércio transfronteiriço desta cera. Os salários precários são comuns para os chamados candelilleros que extraem a cera. Os seguros de saúde são raros e o processamento da candelilla requer a utilização de ácido sulfúrico, que é prejudicial para a pele, olhos, dentes e pulmões.

Cerejeira Africana

Prunus africana
Os colhedores de casca de Prunus africana, também conhecida por cerejeira africana, recebem tão pouco que, para obterem um lucro que valha a pena, muitas vezes cortam as árvores e retiram a casca toda. Os “caçadores de casca” também subornam as comunidades locais para terem acesso a um número cada vez mais reduzido de árvores.

A planta goldenseal – uma planta de crescimento lento usada para tratar problemas bucais, respiratórios e estomacais – é vulnerável à extinção devido à colheita excessiva, destruição de habitat e ao forrageio por parte de veados.

 

Nardo

Nardostachys jatamansi
Para garantir a regeneração desta planta herbácea perfumada, o governo do Nepal recomenda que um terço dos caules subterrâneos fiquem intactos. Mas os colhedores que contraem empréstimos aos comerciantes acabam por retirar caules inteiros para pagar as suas dívidas.

Goma-arábica

Senegalia senegal
As alterações climáticas, o pastoreio de gado e a colheita excessiva são ameaças para este arbusto do Senegal, a fonte da chamada goma-arábica. Nos principais países exportadores – Sudão, Chade e Nigéria – os trabalhadores de comunidades marginalizadas que fazem a maior parte da colheita ganham pouco e são privados do direito à liberdade de associação e negociação coletiva.

Goldenseal

Hydrastis canadenses
A colheita excessiva ameaça esta planta medicinal de crescimento lento, que é afetada pela destruição de habitat e pelos herbívoros que a comem, como por exemplo veados.

São os grupos mais vulneráveis e mal pagos – incluindo crianças – que geralmente colhem a goma-arábica, um aditivo alimentar e farmacêutico. As alterações climáticas, o pastoreio de gado e a colheita excessiva ameaçam o arbusto que produz esta goma.

O que devem fazer os consumidores?

“O primeiro passo é simplesmente perceber que estamos a comprar algo que contém um ingrediente selvagem”, diz Caitlin Schindler, que incentiva os consumidores a contar aos seus familiares e amigos e a publicar nas redes sociais quando usam estes ingredientes.

Existem vários programas de certificação que avaliam as cadeias de abastecimento de plantas silvestres relativamente à sua sustentabilidade e condições de emprego. Entre estes estão o Forest Stewardship Council, a Rainforest Alliance, a Fair for Life e a Union for Ethical Biotrade. A fundação FairWild, uma organização que avalia os riscos sociais e biológicos relacionados com as plantas silvestres, recomenda as melhores práticas de colheita.

Há várias empresas que incluem as suas certificações, quer seja no rótulo dos produtos ou online. Se estas certificações não estiverem listadas, Caitlin Schindler incentiva as pessoas a perguntarem às empresas como é que estas garantem que os seus produtos não afetam a biodiversidade e que os trabalhadores são pagos e tratados de forma justa. “Enquanto as empresas não sofrerem um pouco de pressão por parte dos consumidores, não iremos ver qualquer tipo de mudança a acontecer”, diz Caitlin.

As empresas que não se dão ao trabalho de aprender sobre as fontes dos seus ingredientes podem começar a fazê-lo se os consumidores assim o exigirem, diz Ann Armbrecht. “Quanto mais as empresas perceberem que os consumidores estão cientes da diferença entre plantas selvagens e cultivadas, mais irão perceber que também devem saber o que está acontecer, e compreender o que estão a fazer nestas regiões.”

Os consumidores não devem parar de usar estes produtos, diz Caitlin Schindler, “porque, na realidade, estes ingredientes são vitais para a subsistência de muitas pessoas”.

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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