Peixes-leão destruidores estão a invadir o Brasil

O peixe-leão invasor, que não tem predadores nativos, tem provocado estragos na Flórida e nas Caraíbas – e agora chegou ao Brasil.

Por Rebecca Dzombak
Publicado 22/08/2022, 11:04
peixe-leão

O peixe-leão é uma espécie invasora nativa da região do Indo-Pacífico que se estabeleceu em partes das Caraíbas e do Atlântico Ocidental – e agora na costa do Brasil. Estes peixes têm apetites vorazes e nenhum predador nativo de relevo (exceto os humanos).

Fotografia por Humberto Ramirez, Getty Images

O peixe-leão é uma das espécies invasoras mais nocivas a nadar nos oceanos da atualidade. E agora, na sua expansão territorial contínua e destrutiva, chegou ao sul do Brasil.

Os peixes-leão estão a migrar para sul há anos. Estes peixes foram capturados pela primeira vez no Golfo do México em 1985, provavelmente libertados do comércio de aquários, e expandiram-se rapidamente para a Costa Leste dos EUA e Caraíbas. Por volta de 2010, já tinham chegado às costas da América do Sul.

Mas a espécie estagnou na Venezuela e em Trinidad e Tobago. Durante 10 anos, a água doce vinda do rio Amazonas para o Atlântico e uma confluência de correntes atuaram como barreiras geográficas, impedindo os peixes de continuar para sul. Contudo, por volta de 2020, num momento em que poucos cientistas estavam a observar devido à pandemia de COVID-19, o peixe-leão começou a furar estas barreiras e a seguir para sul.

Agora, dezenas de peixes-leão foram avistados ao longo de 240 quilómetros da costa brasileira, de acordo com um novo estudo publicado na Frontiers in Marine Science. Entre março e maio deste ano, quando a água estava clara o suficiente para permitir o rastreio dos peixes, investigadores e pescadores documentaram 72 indivíduos em estreita associação. Uma concentração tão elevada sugere que os peixes-leão provavelmente estabeleceram com sucesso novas populações – um marco perigoso e muitas vezes irreversível para uma espécie invasora.

“Desde março de 2022, o peixe-leão já conseguiu cobrir 700 quilómetros de costa”, diz Marcelo Soares, ecologista marinho e autor principal do novo estudo. Marcelo Soares acrescenta que o número de indivíduos está agora acima dos 300. “Se não forem tomadas medidas urgentes, estimamos que o peixe-leão possa invadir os 6.000 quilómetros restantes da costa brasileira em dois anos.”

Para muitos cientistas, a questão não passava por saber se esta espécie de peixe continuaria a mover-se para sul, mas sim quando.

“Já sabíamos que, assim que eles passassem a barreira na Amazónia, espalhar-se-iam como um incêndio”, diz Osmar Luiz, ecologista aquático da Universidade Charles Darwin da Austrália, que não participou no estudo.

O peixe invasor mais nocivo

Os peixes-leão, nativos do Indo-Pacífico, são incrivelmente destrutivos. Onde quer que passem, provocam danos nos ecossistemas locais, porque comem espécies nativas e interrompem as cadeias alimentares. Estes fatores granjearam-lhes a reputação de um dos peixes invasores mais nocivos. Para além de se estar a espalhar para o sul do Brasil, o peixe-leão também já estabeleceu populações no Mediterrâneo, passando pelo Oceano Índico e o Canal do Suez. Osmar Luiz diz que não ficaria surpreendido se chegassem a África Ocidental em breve, “à boleia” das correntes da costa brasileira.

Para além do seu impacto demolidor, o peixe-leão liberta milhares de ovos a cada dois a quatro dias, tem as costas cobertas de espinhos venenosos e adapta-se incrivelmente a vários tipos de ambientes e comida. Os seus milhões de larvas são levados para longe nas correntes, e por vezes chegam a ser espalhadas por furacões. Mas o pior de tudo reside no facto de terem poucos predadores naturais nas áreas que invadem e, muitas vezes, a ameaça que representam não é completamente percetível.

“São peixes com várias características que os tornam bem-sucedidos”, diz Nicola Smith, ecologista marinho da Universidade da Colúmbia Britânica, que não participou na nova investigação. “Não estou surpreendida por estarem a ocupar a costa do Atlântico e agora o Brasil.”

“O peixe-leão é um predador voraz”, diz Marcelo Soares, e uma invasão de peixes-leão pode ameaçar espécies vulneráveis. Ao contrário de outros predadores, que mudam para presas mais abundantes quando uma espécie começa a escassear, o peixe-leão persegue implacavelmente os últimos indivíduos de uma espécie até estes desaparecerem.

Devido a estes hábitos de caça, as espécies endémicas – organismos que se encontram apenas numa área – são particularmente vulneráveis ao peixe-leão. E o Brasil está cheio de espécies endémicas.

Peixe-leão no Brasil

Marcelo Soares e os seus colegas documentaram o aumento de peixes-leão na costa brasileira recorrendo aos relatos de investigadores, pescadores e publicações nas redes sociais. Entre os 72 indivíduos encontrados durante a investigação de três meses, mais de metade foi encontrada perto de estruturas feitas pelo homem, como recifes artificiais, que os habitantes locais usam para pescar.

“Isto levanta preocupações sobre o impacto que o peixe-leão vai ter na pesca”, diz Marcelo Soares. “O litoral brasileiro tem uma atividade pesqueira artesanal considerável, que é vital para a segurança alimentar numa área com enorme desigualdade social.”

O pargo e a garoupa, dois peixes economicamente importantes, podem ficar reduzidos a poucos indivíduos; nas Bahamas, por exemplo, o peixe-leão matou a garoupa com tanta eficácia que a pesca de garoupa é agora restrita. (Os números de garoupas estão finalmente a começar a recuperar.)

Durante a pesquisa, foram encontrados peixes-leão à espreita em águas turvas e cheias de sedimentos. Isto torna o método comum de gestão de espécies invasoras através da pesca com arpão – na qual mergulhadores atingem os peixes – muito mais difícil.

Um artigo publicado recentemente descobriu que há pelo menos 29 espécies de peixes endémicas das águas brasileiras que são particularmente vulneráveis ao peixe-leão, como é o caso do Haemulon squamipinna, um pequeno peixe com listas amarelas que é muito importante para a pesca costeira de subsistência. A centenas de quilómetros da costa, os arquipélagos rochosos como o de Fernando de Noronha abrigam inúmeras espécies que têm algumas das pegadas geográficas mais pequenas do mundo – algumas, diz Osmar Luiz, estão contidas em poucos metros quadrados.

“Ainda não conhecemos toda a nossa biodiversidade marinha, sobretudo as espécies raras e crípticas”, diz Marcelo Soares. “Se os peixes-leão povoarem estes habitats com a mesma densidade que alcançaram nas Caraíbas, a redução das populações locais é uma possibilidade entre as espécies mais raras e enigmáticas.”

Agora que o peixe-leão já estabeleceu populações em águas brasileiras, o próximo passo inevitável é espalhar-se ainda mais.

“Assim que [os peixes-leão] entram na fase de se estabelecer, podemos pescar, pescar e pescar o quanto quisermos”, diz Nicola Smith. “Mas estamos a lidar com uma situação perdida, porque eles vão continuar a reproduzir-se e a renovar a sua população.”

O desafio de domar o peixe-leão

Para outras espécies de peixes, a remoção de indivíduos de uma área resultaria em densidades populacionais mais reduzidas. Mas isso não acontece com o peixe-leão, diz Nicola Smith.

“Por muito rápido que os consigamos pescar, eles conseguem recolonizar. Como os peixes-leão tendem a mudar-se para áreas com baixas populações de outros peixes-leão, quanto mais peixes-leão abatermos, mais se erguem das profundezas para reabastecer os que removemos.”

Os esforços feitos para reduzir as populações de peixes-leão incluem torneios de pesca, que podem remover rapidamente muitos indivíduos de uma área grande, e armadilhas projetadas particularmente para os peixes-leão, embora cerca de metade escape, diz Nicola Smith. Os chefs também têm pressionado para transformar o peixe-leão numa opção gastronómica.

Mas não é fácil transformar um peixe invasor coberto de espinhos venenosos numa iguaria local. Muitas pessoas acham que o peixe-leão não é bom para comer. E também consomem mais tempo para pescar com uma lança devido aos seus espinhos perigosos – e os seus filetes, apesar de saborosos, são pequenos.

Segundo Nicola Smith, vale bem a pena tentar transformar um peixe-leão num jantar.

“Já comi muito peixe-leão. É bom, parece garoupa.”

Embora os esforços para eliminar completamente estes peixes sejam fúteis, os esforços para reduzir as suas populações ajudam a limitar os danos nas espécies nativas. Osmar Luiz diz que o próximo passo é rastrear os peixes-leão enquanto estes se movem e tentar impedir que estabeleçam novas populações. Vai ser importante fazer uma monitorização dos locais ao largo da costa, incluindo arquipélagos distantes, que não são frequentados por pescadores ou turistas.

Para as espécies nativas do Brasil, esta luta é uma questão de sobrevivência.

“A melhor gestão que podemos fazer é evitar que levem à extinção qualquer espécie nativa”, diz Osmar Luiz.
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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