As planícies ameaçadas prosperam com a presença de búfalos

Um estudo feito ao longo de 29 anos mostra como a reintrodução de bisontes pode criar ecossistemas mais ricos e gerar resiliência contra as alterações climáticas na América do Norte.

Por Jason Bittel
Publicado 7/09/2022, 11:57
Bisontes americanos

Bisontes americanos selvagens na Reserva de Caça Estadual de Maxwell em Canton, no Kansas. Este estado também abriga pradarias de vegetação alta, um ecossistema ameaçado.

Fotografia por Joël Sartore, Nat Geo Image Collection

Duas vezes por ano, ao longo dos últimos 29 anos, cientistas percorreram as mesmas secções de pradaria de vegetação alta na região leste do Kansas e registaram o maior número de espécies de plantas que conseguiram encontrar. O objetivo era determinar o impacto do bisonte americano e de gado neste ecossistema, em comparação com as parcelas de pradaria semelhantes protegidas destes animais de pasto.

É um trabalho feito debaixo de calor, é entediante e infestado de carraças, mas é incrivelmente importante – as pradarias de vegetação alta cobriram outrora uma grande parte do Texas e estendiam-se até ao sul do Canadá. Atualmente, este habitat, dominado por gramíneas, arbustos e plantas herbáceas com flor, está em perigo. As pradarias de vegetação alta estão agora presentes em apenas 4% da sua antiga distribuição na América do Norte.

Agora, décadas de trabalho árduo e recolha de dados mostram um resultado que pode ser surpreendente – nas últimas três décadas, quando os bisontes foram autorizados a pastar nos trechos de pradaria de vegetação alta, impulsionaram a riqueza de espécies de plantas nativas nuns impressionantes 86%, de acordo com um estudo publicado a 29 de agosto na revista científica Proceedings of the National Academy of Sciences.

As áreas de pastagem de gado também têm beneficiado com a presença desta espécie nativa, embora com um aumento de apenas 30%. O bisonte americano, também conhecido por búfalo, fornece quase três vezes o benefício ambiental proporcionado pelas vacas, e os investigadores ainda não sabem ao certo porquê.

“Ainda estamos surpreendidos com os efeitos abrangentes dos bisontes”, diz o líder do estudo, Zak Ratajczak, ecologista da Universidade do Kansas. “Creio que ninguém tinha previsto isto.”

Os cientistas compararam os seus resultados com 252 estudos semelhantes feitos pelo mundo inteiro e que analisaram o impacto de grandes herbívoros na diversidade de plantas. Entre estes estudos, o bisonte americano e os seus efeitos ficaram no percentil 95, o que significa que as descobertas do novo estudo são algumas das mais dramáticas de que há registo.

Em meados do século XIX, viviam nos Estados Unidos entre 30 a 60 milhões de bisontes, antes de o governo dos EUA exterminar grande parte da sua população, reduzindo os seus números para poucas centenas em 1889, parte de um esforço coordenado para negar uma fonte de alimento essencial para a população dos povos nativos americanos. As descobertas do novo estudo sugerem que os esforços contínuos para reintroduzir os bisontes na sua antiga área de distribuição podem trazer benefícios enormes não apenas para os povos nativos e as suas culturas, mas também para o solo e o ambiente natural.

“Era uma relação recíproca que foi de facto cortada”, diz Jason Baldes, diretor do programa tribal de búfalos do Programa de Parcerias Tribais da Federação Nacional de Vida Selvagem, que não participou no novo estudo.

“Enquanto povos nativos, à medida que restauramos esta ligação com os búfalos, é um processo que nos cura. E os búfalos, com a sua presença no terreno, curam a terra”, diz Jason Baldes, que também é ecologista e membro da tribo Shoshone Oriental. “E isto é algo com o qual todos nós podemos aprender, compreender e beneficiar.”

Como é que os bisontes afetam as pradarias de vegetação alta?

Para o estudo feito nas pradarias, os cientistas examinaram secções da Estação Biológica de Konza Prairie, uma reserva de pradaria de vegetação alta com 3.480 hectares, copropriedade da Universidade do Kansas e da Nature Conservancy. Em algumas áreas, que chegam aos 800 hectares, os bisontes foram autorizados a pastar durante o ano inteiro, e outras secções abrigaram gado durante a estação de crescimento, entre abril e novembro. Para testar o impacto destes herbívoros, um terceiro grupo de lotes de controlo foi mantido livre de ambas as espécies.

Nos lotes de terreno livres de herbívoros, grande parte da paisagem estava coberta por apenas quatro espécies de gramíneas nativas: Andropogon gerardi, Sorghastrum nutans, Panicum virgatum e Andropogon. No entanto, quando o bisonte e o gado foram autorizados a comer estas espécies, outras plantas menos dominantes conseguiram prosperar.

“Isto é algo ao qual chamamos ‘herbivoria fundamental’”, diz Zak Ratajczak.

Um beneficiário em particular foi uma planta herbácea florida conhecida por Solidago rigida. Os botânicos raramente viam esta espécie nos lotes sem animais, mas aparecia regularmente nas zonas frequentadas pelos bisontes. Da mesma forma, várias espécies de gramíneas adaptadas à seca também se instalaram nos lotes dos bisontes, juntamente com 11 espécies anuais que nunca tinha sido vistas anteriormente nestes terrenos.

Ruminantes benéficos

Apesar de Zak Ratajczak ainda não conseguir dizer ao certo porque é que os bisontes criam melhores oportunidades para as espécies nativas do que o gado, ele tem algumas teorias.

Os bisontes tendem a ser mais heterogéneos no seu pastoreio, diz Zak. Isto significa que podem esmagar uma área e comer praticamente tudo, mas deixam outro pedaço da pradaria intocado – criando assim mais diversidade de plantas. O gado, por outro lado, tende a ser mais metódico e uniforme no seu pastoreio.

“Os bisontes também alteram o solo”, diz Zak Ratajczak. “Criam áreas onde rebolam e se livram da pelagem de inverno, e isto cria pequenos pontos de foco com tipos muito diferentes de características no solo que não encontraríamos de outra forma.”

Estes locais endurecem e recolhem água depois de chover, por exemplo, criando pântanos em miniatura, que permitem o crescimento de tipos cada vez mais diferentes de plantas.

Curiosamente, ao promover o crescimento de diferentes tipos de plantas, os cientistas acreditam que os bisontes podem ajudar os ecossistemas onde vivem a tornar-se mais resistentes às secas prolongadas, um dos efeitos mais significativos das alterações climáticas no Oeste Americano.

Por exemplo, as espécies de plantas anuais, que eram abundantes nas áreas de pastagem, reproduzem-se antecipadamente antes de florescerem, voltarem a semear e, por fim, adormecer durante os meses mais quentes e secos, reaparecendo quando as condições climáticas melhoram.

Reavaliar o conceito de progresso

Jason Baldes ficou impressionado com a abrangência do novo estudo e diz que estas descobertas reiteram “o que já sabíamos sobre a importância destes animais enquanto espécie-chave”.

Os bisontes estimulam o crescimento de borboletas, salamandras e répteis porque criam habitats tanto para si próprios como para as plantas das quais precisam para sobreviver, diz Jason Baldes. Quando estes herbívoros enormes perdem a sua espessa pelagem de inverno, os pelos são utilizados pelas aves para nidificar. “Eu testemunhei águias-pescadoras a voar sobre mim no recinto dos búfalos, e parecia que levavam uma cobra, mas na verdade levavam pedaços grandes de pelo de búfalo de volta para o ninho.”

Jason Baldes está a trabalhar para colocar os bisontes novamente nas suas terras de origem, como na Reserva Indígena de Wind River, no Wyoming, que abriga quase uma centena de bisontes reintroduzidos. É uma ideia que está a ganhar tração nos EUA e no Canadá devido aos estudos como este. Outro estudo feito recentemente também pode ajudar a melhorar a soberania alimentar e a sustentabilidade económica das populações nativas americanas.

“Se rejeitarmos a exploração ambiental, se reintroduzirmos espécies importantes como os búfalos e trabalharmos para preservar as línguas nativas”, diz Jason Baldes, “podemos garantir que os nossos jovens se podem orgulhar de serem Shoshone, Arapaho, Blackfeet, Crow, Cheyenne ou qualquer uma das 574 tribos reconhecidas pelo governo federal neste país e que estão a tentar contar a sua história”.

“Passámos por um elevado nível de colonização, não apenas com os nativos, mas também na forma como a terra tem sido utilizada. Os terrenos têm sido arados, pavimentados, fechados, cercados – tudo com uma ideia de progresso.”

“Se queremos que a reintrodução de bisontes resulte”, acrescenta Jason Baldes, “a saúde do ambiente deve ter prioridade”.

“A forma de pensar colonialista destruiu predadores e removeu os búfalos. Portanto, temos de reavaliar este conceito de progresso.”

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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