Conheça as amadas araras da capital da Venezuela

Caracas é o lar de centenas de araras coloridas, que se tornaram coletivamente as mascotes da cidade.

Por Paula Ramón
Publicado 15/09/2022, 12:18
arara-azul-e-amarela

Uma arara-azul-e-amarela (Ara Ararauna) abre as asas ao pousar num telhado no bairro de Macaracuay, em Caracas, Venezuela.

Fotografia por Alejandro Cegarra, National Geographic Collection

Durante uma pausa momentânea no confinamento da pandemia de COVID-19, Elinor Zamora subiu ao telhado do seu prédio para respirar ar fresco. No telhado, em 2020, Elinor deparou-se com uma visão surpreendente – dezenas de araras enormes e coloridas a reunirem-se pouco antes do pôr do sol, atraídas por um vizinho que as estava a alimentar. Hipnotizada pela majestosidade das aves, Elinor Zamora ficou impressionada com o cenário que encontrou. Tal como os pássaros, também Elinor começou a fazer uma peregrinação diária ao telhado, mas neste caso para desfrutar do esplendor das araras.

“Independentemente do que acontecer, todas as pessoas sabem que às quatro da tarde vou a casa para ver as minhas guacamayas ao telhado”, diz Elinor.

Estas aves, que podem atingir tamanhos consideráveis, são um símbolo de Caracas, uma capital construída num vale separado do mar das Caraíbas pelas montanhas costeiras venezuelanas. As araras vagueiam nos telhados e varandas de inúmeros edifícios à procura de comida. As pessoas alimentam-nas e inundam as redes sociais com fotografias da sua plumagem azul, verde, amarela e vermelha. (Em geral, os especialistas desaconselham dar comida a animais selvagens, porque isso pode prejudicá-los e criar uma dependência de humanos. Contudo, neste caso, esse conselho não parece ser bem-vindo ou correspondido.)

As pessoas também partilham detalhes das histórias que inventam sobre as aves como se fossem telenovelas. “A amarela namora com a laranja, mas tem sido maltratada”, é uma das histórias que se contam.

“Aquela arara amarela está sempre suja; deve passar os dias numa oficina”, ou “a blanquita é muito mimada”, são outros dos comentários que se podem encontrar.

Ao longo do tempo, estas aves tornaram-se coletivamente as mascotes da cidade.

Diversas cores

“O que torna as araras de Caracas únicas é a sua diversidade”, diz a bióloga Malú González, docente na Universidade Simón Bolívar. “Entre araras, papagaios e periquitos, temos 17 espécies a voar por aqui”, explica Malú González.

Entre estas aves estão quatro espécies de araras, todas nativas da Venezuela. A arara-severa (Ara severus), predominantemente verde, é a mais pequena e a única desta região central. A arara-macau (Ara macao) – com uma coloração amarela, azul e vermelha a fazer lembrar a bandeira tricolor nacional – é originária das planícies e da região amazónica. A arara-vermelha (Ara chloropterus) tem pequenas populações na região leste e oeste da Venezuela. Estas duas últimas têm sido superadas nos céus de Caracas pela arara-azul-e-amarela (Ara ararauna).

Esquerda: Superior:

Elinor Zamora alimenta araras no telhado do seu edifício em Caracas, um hábito que começou durante os primeiros confinamentos da pandemia de COVID-19.

Direita: Inferior:

Lawrence Ginnari está sentado num tanque de água no telhado do seu prédio para alimentar araras. “Elas vêm todas as manhãs e... acordam-me”, diz Lawrence, que se tornou criador de conteúdos no TikTok (S8Law) e usa os fundos obtidos através desta rede social para comprar sementes para as araras.

Gabriel Zamora, de 9 anos, observa duas araras que chegaram à sua varanda para pedir comida.

Historicamente, as araras não são nativas de Caracas e não se sabe exatamente quais são as razões que levaram estas aves a começar a nidificar nas palmeiras da cidade, mas Malú González acredita que a chegada das araras é motivada pelo comércio de animais de estimação.

“Há gerações inteiras que cresceram com um papagaio, periquito ou uma arara em casa”, explica Malú. “Alguns pássaros escaparam, outros foram libertados.”

Quando as pessoas falam sobre as araras em Caracas, muitas vezes mencionam Vittorio Poggi, um imigrante italiano que uma vez resgatou uma arara-azul-e-amarela ferida. Apesar de Vittorio Poggi não ter mantido o pássaro em cativeiro, a arara seguia Vittorio enquanto este andava de moto pelas ruas da capital. Vittorio Poggi ficou conhecido como o “menino arara”.

Durante vários anos, graças à sua fama, muitas pessoas levaram-lhe pássaros feridos ou doentes, para além de araras de estimação que já não queriam manter em casa, para Vittorio cuidar.

Malú Gonzalez salienta que as araras não devem viver em cativeiro. “A verdade é que estas aves são terríveis para ter como animais de estimação. São barulhentas, partem e sujam tudo. Muitas pessoas gostam de as ter porque são bonitas. O primeiro mês é idílico, mas depois as pessoas não aguentam e procuram maneiras de se livrar delas.”

Souvenirs preenchem um quadro na casa de Vittorio Poggi, na Venezuela. Vittorio Poggi, um imigrante italiano vindo de Génova, tornou-se inadvertidamente cuidador de araras quando uma destas aves entrou desajeitadamente pela sua janela.

Vittorio Poggi e a sua arara Pancho em casa. Na sua juventude, Vittorio Poggi ficou conhecido como a pessoa que conversava com as araras. Ao longo dos anos, as pessoas começaram a levar-lhe as aves que já não queriam.

Durante décadas, Vittorio Poggi libertou na área urbana dezenas de animais que recebeu de pessoas que estavam cansadas de os manter em casa. Este não foi o único motivo para a proliferação das araras, “mas favoreceu em parte a predominância das araras-amarelas-e-azuis”, diz Malú Gonzalez.

De asas abertas

Não se sabe ao certo quantas araras existem em Caracas, mas em 2016, Malú Gonzalez contava entre 300 a 400 araras-amarelas-e-azuis.

“Depois, aconteceram duas coisas. Em 2017, os protestos em Caracas impactaram as populações. As aves podem ter sido mortas por gás lacrimogéneo e por outras perturbações. Mas depois veio a pandemia. E as aves regressaram para recuperar os espaços vazios, e acho que foi assim que esta população cresceu”, acrescenta Malú.

Um mural que ilustra araras a voar foi feito com cerca de 200.000 tampas de plástico pintadas pelo artista Oscar Olivares.

Malú González quer compreender a forma como a interação com os humanos está a mudar o comportamento destas aves, cujas populações nos seus habitats originais estão a diminuir. “Parte deste processo envolve ‘cuidadores’ [que] têm uma paixão pelas araras – dedicam muito tempo às aves e essa observação torna-os especialistas.” Para ajudar neste esforço, Malú está a procurar financiamento para desenvolver uma aplicação com reconhecimento facial de pássaros, para criar uma base de dados com o apoio das pessoas que observam e alimentam as araras todos os dias.

Não se sabe exatamente de que forma a vida urbana afeta as aves. Mas Malú Gonzalez explica que algumas mudanças são visíveis nas próprias araras. “As araras estão a reproduzir com parentes próximos, e isso está a provocar mais mutações que geralmente são muito raras.”

Araras-azuis-e-amarelas contornam os edifícios residenciais. As araras acasalam para toda a vida e muitas vezes voam aos pares.

Malú Gonzalez explica que algumas mutações, que são comuns nas pequenas populações engaioladas que se reproduzem entre si, mas que são raras na natureza – como a coloração branca – estão a tornar-se cada vez mais frequentes em Caracas porque as aves não viajam para fora da cidade.

Outro fenómeno que está a ficar cada vez mais visível são as araras híbridas, resultado da mistura entre duas espécies diferentes. Uma forma de reconhecer as aves híbridas é a abundância de cores – laranja, por exemplo – ao contrário dos pássaros com mutações, que perdem o tom, como as araras brancas.

Aves citadinas

Em geral, os especialistas dizem que não se devem alimentar animais selvagens. Nos pântanos e florestas, as araras normalmente têm uma alimentação variada e voam longas distâncias. Porém, na cidade, os pássaros comem alimentos processados, bananas ou alguns tipos de sementes que lhes são oferecidos – e tendem a ser relativamente sedentários. Isto significa que as araras de Caracas podem ter uma esperança média de vida mais reduzida. Por vezes, as araras são atropeladas por carros e a poluição urbana também pode afetar a sua saúde.

“Esta dieta alterada pode, por sua vez, afetar os seus ciclos de reprodução. A abundância de árvores frutíferas em Caracas, [juntamente] com as sementes e alimentos que recebem nos telhados, tem possibilitado o aumento da sua população”, diz Malú Gonzalez, que está a tentar determinar se estes fatores estão a levar a taxas mais elevadas de eclosão.

Estes animais vivem numa zona cinzenta entre o selvagem e o doméstico. Algumas pessoas consideram-nos animais de estimação, ao passo que outras não. Por outro lado, para quê comprar uma ave quando há centenas de araras a voar pelas ruas?

Elinor Zamora, por exemplo, nunca teve um pássaro – e não precisa. “Eu digo sempre que vivo sozinha com as minhas guacamayas.”

O fotógrafo Alejandro Cegarra nasceu em Caracas e agora vive na Cidade do México. Esta viagem para fotografar as araras foi a sua primeira viagem a casa desde o início da pandemia. Pode encontrar Alejandro Cegarra no Instagram.


Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

Continuar a Ler

Também lhe poderá interessar

Animais
Estes Papagaios Desenvolveram Novos Dialetos em Cativeiro. Será que os Seus Parentes Selvagens os Conseguem Compreender?
Animais
‘Lágrimas de Crocodilo’ São Surpreendentemente Semelhantes às Nossas
Animais
Novo Estudo: os Papagaios Entreajudam-se
Animais
Três novas espécies de cobras descobertas em cemitérios
Animais
Mamíferos machos peludos cantam com um ritmo semelhante ao dos humanos – porquê?

Descubra Nat Geo

  • Animais
  • Meio Ambiente
  • História
  • Ciência
  • Viagem e aventuras
  • Fotografia
  • Espaço
  • Vídeos

Sobre nós

Inscrição

  • Revista
  • Registar
  • Disney+

Siga-nos

Copyright © 1996-2015 National Geographic Society. Copyright © 2015-2021 National Geographic Partners, LLC. Todos os direitos reservados