Mamíferos machos peludos cantam com um ritmo semelhante ao dos humanos – porquê?

Novo estudo revela que o damão-do-cabo consegue obter mais parceiras – e proles mais saudáveis – quando consegue manter um ritmo sem falhas.

Por Jason Bittel
Publicado 23/09/2022, 11:31
Damão-do-cabo

Um damão-do-cabo macho boceja no Parque Nacional do Serengueti, na Tanzânia. Esta espécie é nativa de partes de África e do Médio Oriente.

Fotografia por Manoj Shah, Getty Images

Quando o sol nasce sobre o Mar Morto, os machos damão-do-cabo em Israel saem das suas tocas escuras e começam a cantar.

Para o ouvido humano, estas notas parecem uma mistura entre a gargalhada de uma hiena e o som de giz a chiar num quadro de ardósia. Mas para as fêmeas damão-do-cabo, cada refrão é uma balada poderosa que ecoa pelos desfiladeiros – e quanto mais os machos mantêm o ritmo, mais probabilidades têm de cativar fêmeas.

Ao combinar as análises de espectrogramas de canções de cortejo de damão-do-cabo com os resultados de várias épocas sucessivas de reprodução, os cientistas demonstraram pela primeira vez que os machos que cantam com mais frequência e mantêm melhor o ritmo também são pais de crias que sobrevivem melhor – de acordo com um estudo publicado na Journal of Animal Ecology.

Através de coleiras e marcadores coloridos, os cientistas conseguiram identificar os animais à distância e combinar as suas músicas com os resultados de testes de paternidade. (Ouça os machos a cantar.)

“A explicação mais simples é a de que a consistência em termos de ritmo é atraente, ou pelo menos reflete de alguma forma qualidade”, diz Vlad Demartsev, líder do estudo e ecologista comportamental que estava no Instituto Max Planck de Comportamento Animal enquanto este trabalho estava a ser realizado.

Tal como acontece com as melodias criadas pelos humanos, as músicas de damão-do-cabo tendem a ficar mais complexas à medida que avançam, atingindo um clímax final que parece projetado para manter os ouvintes bem atentos.

“Não se trata apenas de produzir som, ou de o produzir o maior número de vezes possível”, diz Vlad Demartsev.

“Estes animais estão de facto a dar um bom espetáculo”, diz Vlad.

A canção é mais poderosa do que a espada

Durante as últimas duas décadas, os cientistas estudaram o damão-do-cabo, um mamífero do tamanho de um coelho cujo parente mais próximo é o elefante, na Reserva Natural de Ein Gedi, em Israel.

Quando um macho conquista o direito de conviver com um grupo de até 30 fêmeas, juvenis e crias, pode manter essa cobiçada posição até ao fim dos seus dias, aos nove anos de idade.

No entanto, em casos raros, um macho residente pode ser derrubado e expulso da sua posição por um macho não residente, chamado solteiro. Esta pode ser uma das razões pelas quais o damão-do-cabo macho canta durante o ano inteiro, e não apenas na época de acasalamento, que atinge o pico durante algumas semanas em julho e agosto.

Segundo Vlad Demartsev, é provável que sinalizar o seu valor através do canto pode de facto impedir a agressão entre machos.

“É uma espécie de ritual que pode minimizar a necessidade de lutar, porque isso pode sair caro para ambos os lados.”

Solteiros contra residentes

Noutra descoberta fascinante, os cientistas também detetaram uma diferença nos estilos de canto dos machos.

Apesar de os machos residentes produzirem canções frequentes com um ritmo constante, as melodias diminuem em complexidade depois de um macho assumir um grupo.

“Todas as fêmeas já o conhecem e têm noção das suas qualidades. Elas vivem com o macho nas mesmas tocas”, diz Vlad Demartsev. “Portanto, o macho pode precisar de investir menos para alcançar o mesmo objetivo.”

Contudo, dado que a maioria dos machos são solteiros, as suas canções aumentam constantemente de complexidade à medida que envelhecem.

Isto pode dever-se ao facto de os solteiros tentarem regularmente atrair as fêmeas mais jovens na periferia do grupo. No entanto, estas fêmeas também tendem a ser mães menos experientes, o que pode explicar as razões pelas quais os descendentes dos machos residentes têm mais probabilidades de sobreviver ao primeiro ano de vida.

Em relação ao motivo pelo qual as fêmeas são atraídas por machos com um bom ritmo, Vlad acrescenta que ainda não se sabe ao certo. Talvez ao colocarem tantas notas numa respiração revele um nível de condicionamento físico, e a sua organização num ritmo repetível é a forma mais eficiente de o fazer.

As origens antigas do ritmo

Há poucas décadas atrás, muitos cientistas supunham que os animais comunicavam por padrões que eram mais ou menos imutáveis, diz Chiara De Gregorio, primatologista da Universidade de Turim, em Itália, e autora de um estudo feito em 2021 sobre lémures cantores – estudo que inspirou a investigação sobre as canções do damão-do-cabo.

“Agora estamos a descobrir que este tipo de padrão pode mudar consoante o contexto e até depender de outros aspetos, como a qualidade do macho”, diz Chiara De Gregorio.

Este tipo de investigação não serve apenas para compreender melhor o damão-do-cabo ou os lémures, porque sempre que os cientistas descobrem outra espécie que comunica entre si usando princípios como o ritmo, isso sugere origens aparentemente antigas de componentes que eventualmente influenciariam a forma como os humanos criam e apreciam música.

“Dadas as evidências, creio que estes padrões são claramente mais comuns [no reino animal] do que se pensava anteriormente”, diz Chiara De Gregorio.
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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