O Monte Evereste está repleto de vida, desde fungos a borboletas

Estudo recente revela que o ADN à espreita na água do degelo do cume mais alto do planeta contém um tesouro de biodiversidade.

Por Jude Coleman
Publicado 20/09/2022, 12:30
galo-das-neves-tibetano

O galo-das-neves-tibetano (aqui fotografado no Tibete) é uma das espécies registadas no Monte Evereste.

Fotografia por J Dong Lei, Nature Picture Library

Na primavera de 2019, Tracie Seimon ficava acordada a ouvir os estrondos profundos do gelo a quebrar. O glaciar onde Tracie dormia na base do Monte Evereste estava em movimento debaixo da sua tenda.

Tracie Seimon, bióloga molecular da Wildlife Conservation Society em Nova Iorque, passou três semanas a caminhar em torno deste glaciar. Tracie queria criar uma imagem sobre a biodiversidade num dos ambientes mais extremos do planeta – uma montanha com mais de oito quilómetros de altura, propensa a temperaturas abaixo de zero, oxigénio limitado e tempestades intensas.

Contudo, apesar da sua natureza inóspita, o cume mais alto do mundo está repleto de vida. Apenas no flanco sul do Monte Evereste, Tracie Seimon e a sua equipa encontraram 16% das ordens taxonómicas da Terra – uma classificação que inclui famílias, géneros e espécies. A equipa publicou recentemente as suas descobertas na revista iScience.

“Sentimo-nos muito pequenos quando nos aventuramos nas montanhas”, diz Tracie Seimon. “É incrível.”

Tracie acrescenta que a maioria dos caminhantes não tem noção da abundância de vida que os rodeia.

O acampamento-base do Monte Evereste fica no topo do Glaciar Khumbu, onde durante parte do estudo a equipa de Tracie Seimon viveu em tendas ao lado de caminhantes que procuravam alcançar o cume. Este aglomerado colorido de tendas recebe cerca de 40.000 pessoas todos os anos, fator que pode ser prejudicial para o ecossistema circundante, diz Anton Seimon, coautor do estudo, cientista atmosférico da Universidade Appalachian e Explorador da National Geographic.

Para além do tráfego de pedestres, as alterações climáticas também estão a sobrecarregar a montanha, sendo estas as razões que levaram os investigadores a querer criar uma linha de base sobre a sua biodiversidade. Compreender a vida que existe agora no Monte Evereste vai ajudar os cientistas a rastrear as mudanças no futuro.

“Tem sido uma experiência fascinante e um privilégio fazer parte deste esforço”, diz Anton Seimon, que é casado com Tracie Seimon.

Encontrar vida na água do degelo

A equipa trabalhou no Monte Evereste integrada da iniciativa Perpetual Planet, uma colaboração de investigação entre a National Geographic Society e a Rolex que estuda as florestas, oceanos e montanhas da Terra. Para além de estudar a biodiversidade, outras equipas têm montado novas estações meteorológicas e recolhido núcleos de gelo. Como acontece com maioria dos investigadores e caminhantes no Evereste, também este trabalho foi apoiado por uma equipa de xerpas que carregou os equipamentos, fez a manutenção do acampamento e guiou os cientistas pela montanha.

A chave de Tracie Seimon para encontrar sinais de vida passou pela recolha de ADN em poças de água do degelo. Todos os seres vivos vertem rotineiramente ADN ambiental, ou eDNA, no ar, na água e no solo. Os cientistas podem encontrar a correspondência entre um pedaço de ADN ambiental desconhecido com os dados já existentes para descobrir o organismo de onde veio, da mesma forma que um código de barras numa biblioteca revela aos bibliotecários as informações sobre um livro.

Os investigadores concentraram-se nas lagoas e riachos mais altos do Evereste, localizados entre os 4.480 e 5.480 metros na zona alpina e mais além. No total, a equipa recolheu cerca de 20 litros de 10 corpos de água em torno da região de Khumbu. A partir destas amostras, os investigadores identificaram 187 ordens diferentes, um sexto de todas as ordens taxonómicas da Terra.

Uma ordem taxonómica é uma classificação que ajuda os cientistas a mapear a forma como os organismos individuais estão distantemente relacionados entre si. Por exemplo, os humanos são classificados por Homo (género) e sapiens (espécie), mas também se enquadram na família dos Hominídeos e na ordem Primata, que também inclui lémures, macacos e símios.

Em alguns casos, os investigadores conseguem identificar organismos especificamente até ao nível de género; mas como existem tão poucos dados sobre os habitantes do Monte Evereste, muitas vezes não há informações suficientes para referenciar de forma cruzada o ADN com tanto detalhe.

Tracie Seimon diz que o Monte Evereste e outros ecossistemas de montanha de alta altitude são pouco estudados. (Descubra como o Monte Evereste cresceu quase um metro.)

“A massa terrestre global que existe acima dos 4.480 metros é menos de 3% da massa terrestre global da superfície terrestre”, diz Tracie. “Foi muito emocionante encontrar tanta biodiversidade como a que encontrámos lá em cima.”

Observar mais atentamente o Evereste

Entre os organismos que nadam, voam e correm pelas encostas aparentemente desoladas do Monte Evereste estão os tardígrados e os rotíferos, duas criaturas microscópicas resistentes que conseguem sobreviver até no vácuo do espaço. Borboletas, efeméridas e outros insetos voadores também estavam presentes, para além de vários fungos, bactérias e plantas.

“É o topo do mundo e é bastante inacessível”, diz Kristine Bohmann, bióloga da Universidade de Copenhaga que trabalha com ADN ambiental presente no ar e não esteve envolvida na investigação. Kristine Bohmann diz que este trabalho mostra que estudar a biodiversidade nem sempre exige uma equipa completa de taxonomistas e por vezes é um trabalho que pode ser feito de uma forma mais simples e eficiente, mesmo em ambientes hostis.

As investigações adicionais vão ajudar a criar um registo melhorado sobre a diversidade presente no Monte Evereste e documentar organismos específicos. A realização de estudos futuros em diferentes estações do ano pode revelar mais biodiversidade e mostrar quais são os géneros e espécies que vivem na montanha em diferentes condições climáticas.

Agora que criou uma linha de base, um dos objetivos seguintes de Tracie Seimon é comparar estes dados com os de futuras amostragens, para documentar especificamente os efeitos das alterações climáticas na biodiversidade do Evereste. Este trabalho pode ajudar estudos futuros, abrindo caminho para mais investigação sobre o teto do mundo.

A National Geographic Society, comprometida em iluminar e proteger as maravilhas do nosso mundo, financia o trabalho da bióloga Tracie Seimon e do Explorador Anton Seimon, que faz parte da Expedição Evereste 2019 da National Geographic e Rolex Perpetual Planet.

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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