Os ‘animais professores’ são raros – e notáveis

Os biólogos têm uma definição para o que é ensino à qual muito poucos animais correspondem, tirando orcas e suricatas. Mas seguem-se mais alguns exemplos.

Por Brian Handwerk
Publicado 8/09/2022, 15:21
suricatas

Os suricatas adultos passam muito tempo a ensinar as suas crias a lidar com escorpiões perigosos, uma das suas presas favoritas.

Fotografia por Thomas P. Peschak, Nat Geo Image Collection

Os animais fazem todo o tipo de coisas incríveis – e a forma como o aprendem a fazer tem intrigado os cientistas há muito tempo.

Alguns conhecimentos são herdados – as borboletas-monarca, por exemplo, migram do México para o Canadá através de um roteiro que têm nos genes. Outras espécies imitam habilidades e comportamentos, como as crias de lobo que observam a sua alcateia a caçar um alce. Contudo, outros animais continuam a aprender a sobreviver por tentativa e erro, como acontece com os corvos da Nova Caledónia, que descobriram que atirar seixos para um jarro aumenta o nível da água.

Contudo, entre os animais, os verdadeiros professores são uma raça rara, com apenas um punhado de espécies – como alguns pássaros, primatas e insetos – a terem um bom desempenho.

“Durante muito tempo, houve uma resistência real em acreditar que os animais conseguem ensinar, porque essa é realmente uma das marcas da humanidade e que nos torna especiais”, diz Lisa Rapaport, ecologista comportamental da Universidade de Clemson.

Os biólogos também criaram uma definição específica sobre o que constitui um animal professor – os animais devem mudar o seu comportamento à frente de um aluno, sem qualquer benefício imediato para si próprios, e o aluno deve mostrar que adquiriu algum conhecimento ou aptidões, diz Lisa Rapaport.

Seguem-se alguns animais ​​professores notáveis que se asseguram que a escola está sempre em funcionamento.

Quando a comida morde de volta

Os suricatas da África subsaariana vivem em “gangues” sociais de até 30 animais, nos quais as instruções práticas fazem parte do trabalho dos pais e de outros ajudantes adultos que ensinam cooperativamente os mais novos.

Há várias espécies de escorpiões que são proeminentes na ementa dos suricatas, mas a sua picada mortal significa que exigem um manuseio cuidadoso. É por isso que, ao princípio, os pais entregam primeiro alguns aracnídeos mortos aos recém-nascidos. À medida que as crias crescem, os suricatas professores tornam as suas aulas gradualmente mais difíceis, removendo por exemplo os ferrões de escorpiões vivos para os tornar inofensivos e deixar os jovens suricatas praticar.

À medida que as crias desenvolvem aptidões e confiança para lidar com os escorpiões, os seus professores levam-nos gradualmente escorpiões mais saudáveis até que os alunos aprendam a remover com segurança o ferrão e a matar a presa por si próprios.

Apesar de os suricatas adultos dedicarem o seu tempo a ensinar, tempo que podia ser aplicado noutras atividades, isto funciona a seu favor. Como muitos suricatas num grupo estão intimamente relacionados, manter o grupo seguro e vivo perpetua os genes da família.

Aulas de música

As carriças australianas Malurus cyaneus levam a aprendizagem precoce ao extremo, começando a ensinar as suas crias antes de estas nascerem. Esta ave canta para os seus ovos cerca de 30 vezes por hora, expondo os embriões a uma senha musical secreta que é única para cada fêmea. Depois de nascer, as crias usam o som para pedir comida à mãe e ao pai, que também aprende a melodia.

Num estudo, Sonia Kleindorfer, bióloga da Universidade de Flinders, em Adelaide, e os seus colegas trocaram ovos entre ninhos de pássaros selvagens e descobriram que as crias produziam o chamamento da mãe adotiva que cantava para eles, mostrando que as crias não têm uma compreensão genética dos chamamentos.

Há boas razões para estas aulas de canto – os cucos geralmente põem ovos nos ninhos das carriças para passarem o fardo de incubar e criar as suas próprias crias, um fenómeno chamado parasitismo de ninhada. Mas os pais cucos fazem isto demasiado tarde e os embriões não aprendem o chamamento, ou seja, ao cuidarem apenas das crias que conhecem o chamamento real, as carriças não perdem tempo e comida valiosos a alimentar impostores.

Mostrar o caminho a um amigo

Quando uma formiga-das-rochas encontra uma nova fonte de alimento ou ninho, leva outra formiga até ao local com uma técnica chamada “corrida em tandem”. A formiga guia a outra ao longo da rota, fazendo pausas ao longo do caminho para a outra formiga poder memorizar cada marco. A formiga professora depende do feedback da aluna, que confirma quando cada lição é aprendida; um toque nas antenas permite à professora saber que está na hora de seguir em frente.

“A formiga que ensina coloca o outro indivíduo no processo de concordar com um local melhor para nidificar. Isto beneficia todas as formigas da colónia e ajuda-as a passar os seus genes mais abundantemente à geração seguinte”, diz Nigel Franks, professor emérito de biologia da Universidade de Bristol, no Reino Unido, coautor de um estudo feito em 2006 onde este comportamento é documentado – a primeira evidência publicada de um animal não humano a ensinar outro.

Nigel Franks está atualmente a fazer experiências com professores robóticos para aprender quais os aspetos da educação das formigas são mais cruciais para o seu sucesso.

Manobras em águas perigosas

Dependendo de onde vivem, as orcas comem presas muito diferentes. Na Noruega, as orcas trabalham em conjunto para reunir cardumes de arenque em aglomerados densos e, de seguida, atordoam os peixes com as suas caudas antes de se banquetearem. Na Antártida, as orcas unem-se para afastar as focas-de-weddell do gelo, para depois as comerem. Os cientistas acreditam que, em algumas destas situações únicas, os pais ensinam as crias a capturar presas.

Ao largo da Patagónia, por exemplo, algumas orcas caçam crias de leões-marinhos na costa, ficando intencionalmente encalhadas. As orcas adultas mostram às mais jovens como realizar esta manobra perigosa muito antes de começarem sequer a caçar, ajudando a empurrar os alunos de regresso para a água quando necessário. (Veja um vídeo incrível deste comportamento de caça na praia.)

Nas águas do Alasca, foram observadas orcas a treinar as suas crias para capturarem presas por etapas, atordoando primeiro as aves marinhas com as suas barbatanas, para as orcas mais jovens conseguirem aprender e praticar a sua própria técnica.

Estas lições não são apenas exemplos de ensino, mas também de cultura, que acontecem quando um grupo acumula conhecimento social e passa esse conhecimento para a geração seguinte, diz Brian Skerry, Explorador da National Geographic e fotógrafo de vida selvagem.

“As orcas não estão apenas a ensinar às suas crias as aptidões que irão precisar para sobreviver, também estão a ensinar as suas tradições ancestrais, as coisas que lhes são importantes.”

Curso superior de forrageio

Os micos-leões-dourados da Mata Atlântica do Brasil fazem cursos superiores de forrageio com mais de 150 tipos diferentes de frutas, insetos, sapos, lagartos e outras presas.

“Se formos uma criança na floresta, onde é que colocamos a mão para encontrar realmente algo sem sermos mordidos ou picados?” diz Lisa Rapaport, que estuda o ensino e aprendizagem entre os micos-leões-dourados.

É por isso que os adultos usam um chamamento do género “vem e leva” que inicialmente atrai os jovens durante a distribuição de comida, e depois apresentam-nos a situações de forrageio gradualmente mais difíceis, desde reconhecer um tipo de fruta até escavar um buraco numa árvore para procurar presas.

“Durante o período em que os adultos exibem este comportamento, o sucesso das crias a apanhar presas aumenta exponencialmente, portanto há evidências circunstanciais de que está a funcionar”, diz Lisa Rapaport.

Os adultos também têm mais propensão para oferecer novos alimentos aos mais jovens, acrescenta Lisa. “Isto indica que os adultos estão a prestar atenção ao que as crias fazem e às coisas que não sabem.”

Lisa Rapaport também observou os adultos a realizar o que ela acredita ser uma característica incrível para estes professores não humanos: focar a sua energia nos que mais precisam.

“Não temos a metodologia para dizer inequivocamente que reservam o ensino para as crias que aprendem mais devagar, mas foi essa a impressão que tive”, diz Lisa. “Eu adorava que alguém olhasse realmente para isto de uma forma meticulosa.”

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

Continuar a Ler

Também lhe poderá interessar

Animais
Alguns animais evoluíram para se sacrificar. Porquê?
Animais
Não Podíamos Ter Figos Sem Vespas. Descubra Como Funciona o Mutualismo.
Animais
Como as Feromonas Ajudam as Abelhas-rainha a Governar e os Lémures a ‘Seduzir’
Animais
Orcas observadas pela primeira vez a matar baleias-azuis, os maiores animais da Terra
Animais
Os parasitas podem ser repugnantes, mas mantêm a coesão dos ecossistemas

Descubra Nat Geo

  • Animais
  • Meio Ambiente
  • História
  • Ciência
  • Viagem e aventuras
  • Fotografia
  • Espaço
  • Vídeos

Sobre nós

Inscrição

  • Revista
  • Registar
  • Disney+

Siga-nos

Copyright © 1996-2015 National Geographic Society. Copyright © 2015-2021 National Geographic Partners, LLC. Todos os direitos reservados