Três novas espécies de cobras descobertas em cemitérios

Nativas do sul do Equador, as serpentes recém-descobertas pertencem a um grupo pouco estudado de cobras que passa a vida no subsolo.

Por Jason Bittel
Publicado 27/09/2022, 12:15
Atractus michaelsabini

Os cientistas encontraram a Atractus michaelsabini escondida junto a uma igreja na cidade andina de Guanazán, no Equador.

Fotografia por Amanda Quezada

Em novembro de 2021, Alejandro Arteaga e a sua equipa viajaram até às florestas nubladas do sul do Equador com o objetivo de encontrar sapos que se receava estar extintos. Infelizmente, os cientistas não conseguiram encontrar um único sapo. Mas um encontro fortuito a caminho de casa levou a equipa a fazer um tipo diferente de descoberta.

Desiludidos e famintos, Alejandro Arteaga e a sua equipa fizeram uma paragem na pequena cidade de Amaluza para desfrutar de uma refeição.

“É assim que costuma funcionar nas áreas rurais do Equador”, diz Alejandro, biólogo de investigação da Fundação Khamai, uma nova organização não governamental que visa proteger a biodiversidade do Equador. “Não existe realmente um restaurante onde possamos parar para comer, ou seja, basicamente precisamos de bater à porta das pessoas. E se houver alguém em casa, as pessoas fazem gosto em cozinhar para nós e contar histórias.”

Uma habitante local acolheu os viajantes e, quando começou a preparar trutas capturadas localmente, ouviu a equipa a falar sobre anfíbios e cobras.

“E depois a senhora disse-nos que muitas vezes vê cobras no cemitério local, quando vai visitar os familiares falecidos”, diz Alejandro Arteaga. (Descubra como os cemitérios são uma fonte surpreendente de vida.)

Com base na descrição da cozinheira, Alejandro suspeitou que pudessem ser cobras terrestres do género Atractus – animais discretos que passam muito tempo no subsolo e nunca tinham sido cientificamente registados naquela região do Equador. Rejuvenescida, a equipa decidiu fazer um pequeno desvio para passar algumas horas a perscrutar o cemitério local numa encosta.

“E eis que encontramos duas das cobras enterradas no solo macio ao lado das sepulturas”, diz Alejandro, acrescentando que nenhum cemitério foi escavado ou perturbado durante a investigação.

A equipa, surpreendida com as serpentes de barriga amarela, dedicou mais tempo a esta região andina, reunindo inclusivamente amostras de cobras recolhidas por um professor local chamado Diego Piñán. Ao todo, esta expedição levou à descrição de três espécies de cobras terrestres que até agora eram desconhecidas da ciência, de acordo com um estudo publicado no dia 15 de setembro na revista ZooKeys.

Os nomes propostos pelos cientistas para as novas espécies são Atractus discovery; que tem olhos particularmente pequenos e uma barriga amarela com uma linha negra; Atractus zgap, que tem uma barriga amarela sem a linha, e Atractus michaelsabini, “que é a mais gordinha de todas”, diz Alejandro Arteaga. (Michael Sabin, que dá nome a esta cobra, é um jovem naturalista cuja família tem protegido mais de 106.000 hectares de habitat crítico com um foco em répteis e anfíbios.)

O biólogo Alejandro Arteaga mostra a barriga amarela brilhante de uma espécie de cobra recém-descoberta, a Atractus zgap, numa placa de Petri.

Fotografia por David Jácome

“É importante considerar sempre as observações ou as crenças da população local, porque podem levar a descobertas impressionantes”, diz Alejandro Arteaga.

Cobras enigmáticas

Se esta é a primeira vez em que ouve falar sobre cobras terrestres, não se preocupe, porque não está sozinho.

“Não seria errado dizer que são o grupo de cobras menos estudado do planeta”, diz Alejandro; por exemplo, nunca foram registados machos ou jovens de algumas espécies.

Isto acontece em parte porque as 146 espécies conhecidas de cobras terrestres vivem no subsolo, nas fendas de rochas profundas, muitas vezes em florestas remotas. E são todas nativas da América Central e do Sul.

Porém, com esta nova descoberta, os habitats feitos pelo homem, como os cemitérios e igrejas de pequenas localidades, também podem ser adicionados a esta lista. Alejandro Arteaga acrescenta que nesta região do Equador as cobras podem ser atraídas para estes tipos de locais precisamente porque são calmas e pouco perturbadas pelas pessoas, que geralmente matam as cobras por receio.

Felizmente, para as pessoas que vivem perto de cobras terrestres, estes animais são completamente inofensivos.

“Mas não se formos uma minhoca!” diz em tom de brincadeira Paulo Roberto Melo-Sampaio, investigador de cobras terrestres do Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro, que não participou neste novo estudo.

“A descoberta de novas espécies é sempre emocionante”, diz Paulo Melo-Sampaio, acrescentando que quase metade das espécies conhecidas de Atractus foram descritas apenas nos últimos 40 anos.

“No Equador, Alejandro Arteaga e a sua equipa têm muito mérito por conseguirem realizar as suas pesquisas na região neotropical, onde há escassez de financiamento e dificuldades logísticas no trabalho de campo”, diz Paulo Melo-Sampaio por email.

É necessária mais investigação?

No entanto, Paulo Melo-Sampaio também expressa preocupação com a metodologia usada no estudo, sobretudo por se apoiar fortemente na genética para analisar as três novas espécies.

Ao descrever uma nova espécie, os cientistas dependem geralmente de uma combinação entre análise genética e morfologia – ou os atributos físicos de um animal – para determinar que é diferente dos seus parentes.

No caso da Atractus michaelsabini, por exemplo, Paulo Melo-Sampaio diz que a aparência física deste réptil é muito semelhante à de uma cobra terrestre já descrita, a Atractus roulei, portanto é demasiado cedo para afirmar que se trata definitivamente de uma nova espécie. Da mesma forma, o investigador brasileiro diz que a Atractus discovery também é parecida com outra espécie conhecida por Atractus resplendens.

Por outro lado, Alejandro Arteaga diz que a sua equipa planeia estudar mais a morfologia das cobras terrestres num artigo de acompanhamento, que já está em andamento.

Cobras terrestres ao salvamento

Embora as cobras terrestres ainda sejam pouco conhecidas, Alejandro acredita que estas podem vir a ter um grande impacto na saúde humana.

“À primeira vista, as cobras terrestres não são tão coloridas e pode parecer que não têm tanta importância biomédica como as víboras e cobras-coral”, cujo veneno é frequentemente estudado, diz Alejandro Arteaga.

“Mas o principal predador das cobras terrestres são as cobras-coral venenosas.”

Devido a este fator, os cientistas suspeitam que as cobras terrestres podem ter algum tipo de resistência biológica ao veneno da cobra-coral. Estudar o sangue das cobras terrestres pode levar a avanços no desenvolvimento de antivenenos que ajudem as pessoas mordidas por cobras-coral. O Equador, por exemplo, tem uma das maiores taxas de acidentes com dentadas de cobras da América do Sul, registando entre 1.400 a 1.600 incidentes por ano.

Portanto, é possível que um dia uma criatura encontrada enterrada entre lápides possa ser a chave para manter as pessoas longe do cemitério.

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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