Peixe-lua gigante encontrado nos Açores estabelece recorde para o maior peixe ósseo do mundo

Com mais de 2.700 quilos, este peixe – encontrado morto ao largo dos Açores – tem o mesmo peso que um rinoceronte-branco.

Por Jason Bittel
Publicado 26/10/2022, 11:50
peixe-lua

Um peixe-lua (Mola alexandrini) nada ao lado de um cardume no norte da Nova Zelândia. 

Fotografia por Richard Robinson, Nature Picture Library

Assim que viu a enorme carcaça branca de um peixe-lua oceânico a flutuar nas ondas ao largo do arquipélago dos Açores, José Nuno Gomes-Pereira suspeitou que o animal podia bater um recorde. 

Estávamos a 9 de dezembro de 2021, e José Gomes-Pereira estava a responder a uma chamada integrada no seu trabalho de biologia marinha com a rede de arrojamentos marinhos dos Açores e a associação Atlantic Naturalist, uma organização não-governamental focada na monitorização dos oceanos. 

As carcaças maciças em putrefação representam uma ameaça para a saúde humana, diz José Gomes-Pereira. São também um perigo para o tráfego de navios, e é por isso que a rede mantém uma vigilância apertada sobre os restos enormes de animais que andam à deriva perto da costa. 

Da mesma forma, as embarcações humanas também matam ou causam ferimentos frequentemente nas grandes criaturas oceânicas devido a colisões junto à superfície. Suspeita-se que este peixe-lua, também conhecido por mola, pode ter morrido de uma colisão com um navio – devido à enorme contusão que tinha na cabeça. A ferida continha fragmentos de tinta anti-incrustante vermelha, que geralmente é usada na parte inferior dos navios. 

Porém, sem um veterinário marinho por perto, foi impossível determinar se a colisão aconteceu antes ou depois da morte, diz José Gomes-Pereira. 

Depois de rebocar o animal para terra, um empilhador colocou-o em posição para uma balança de guindaste conseguir avaliar o seu peso com mais precisão. Após alguns minutos de calibração, os cientistas sabiam que tinham descoberto algo. 

Com 2.744 quilos, este peixe-lua pesava mais do que o alinhamento inicial completo de uma equipa de futebol americano. Este espécime também tinha quase mais 450 quilos do que o anterior detentor do Recorde Mundial do Guinness para o peixe ósseo mais pesado – outro peixe-lua da mesma espécie, Mola alexandrini, capturado perto do Japão em 1996. (Os peixes estão divididos em duas grandes classes, os tubarões e raias são considerados peixes cartilaginosos, e praticamente tudo o resto está classificado como peixes ósseos.) 

Segundo José Gomes-Pereira, autor principal de um estudo publicado na Journal of Fish Biology, esta descoberta é tanto um motivo de esperança como um alerta. 

“Isto significa que o ecossistema marinho ainda é saudável o suficiente para sustentar estes animais enormes”, diz José Gomes-Pereira. 

“Contudo, como o animal pode ter morrido devido à atividade humana, este mola também deve servir como um alerta de que temos mais trabalho para fazer na área da conservação.” 

Um mola misterioso 

Os peixes-lua são fáceis de detetar na superfície da água. São animais que podem atingir os três metros de comprimento e gostam de desfrutar de banhos de sol. Mas os cientistas ainda têm muitas questões por responder sobre estas estranhas criaturas. 

“Não sabemos quanto tempo vivem ou o quão depressa crescem na natureza”, diz Tierney Thys, bióloga marinha da Academia de Ciências da Califórnia e Exploradora da National Geographic. “Também não temos uma boa noção sobre a quantidade de indivíduos existentes no mundo ou sobre os tamanhos das suas populações regionais.” 

Esquerda: Superior:

No dia 9 de dezembro de 2021, cientistas transportaram e pesaram a carcaça gigantesca de um peixe-lua que foi encontrada a flutuar perto da ilha do Faial, no arquipélago dos Açores. 

Fotografia por Atlantic Naturalist.org
Direita: Inferior:

O espécime foi pesado com uma balança de guindaste. A carcaça foi içada com um empilhador e depois mantida acima do solo para permitir a estabilização nas pesagens. 

Fotografia por Atlanticnaturalist.org

Tierney Thys tem tentado responder a estas questões desde 2000, ano em que recebeu a sua primeira bolsa da National Geographic Society para estudar estes peixes gigantes. 

Em relação ao animal recordista, provavelmente era uma fêmea com 20 anos ou mais, diz Tierney Thys, também fundadora do programa Adopt A Sunfish

“O Mola alexandrini é efetivamente uma das grandes excentricidades do oceano e, apesar de a sua aparência exterior poder parecer um pouco desajeitada e ter um ar pesado, na realidade trata-se de um gigante gentil que nada pela água com movimentos surpreendentemente graciosos”, diz Tierney Thys. 

Outra característica fascinante destes colossos? São animais que começam as suas vidas enquanto larvas com cerca de seis milímetros. Mas os cientistas continuam sem saber qual é o local onde acontece a desova, nem sabem exatamente como é que larvas do tamanho de uma borracha de lápis sobrevivem tempo suficiente para se transformarem no maior peixe ósseo do oceano. (Descubra a raia enorme que estabeleceu o recorde mundial para maior peixe de água doce.) 

“A única larva a ser verificada geneticamente como sendo M. alexandrini foi encontrada em Nova Gales do Sul, na Austrália, portanto essa área pode ser um dos locais de desova”, diz Tierney Thys. 

“Um lembrete colossal” 

Embora a maioria das pessoas provavelmente esteja mais familiarizada com o parente próximo do M. alexandrini, o Mola mola, o peixe-lua oceânico é simplesmente um daqueles animais que inspiram uma “curiosidade primordial”, diz Tierney Thys. 

“Adoro visitar o Aquário de Monterey Bay porque às vezes temos um peixe-lua em exibição no tanque com milhões de litros de água ao lado dos tubarões-martelo e de atuns. E depois, quando o peixe-lua aparece, as pessoas ficam do tipo ‘Uau! Como é possível?!’” diz Tierney Thys a rir. “É um animal que simplesmente levanta muitas questões.” 

Para começar a tentar responder a algumas delas, Tierney Thys foi recentemente coautora do primeiro livro académico sobre a família Molidae, The Ocean Sunfishes: Evolution, Biology and Conservation

O novo mola, detentor do recorde mundial, também vai ajudar a compreender melhor a espécie. José Nuno Gomes-Pereira e os seus colegas, para além de recolherem escamas, conteúdo intestinal e amostras genéticas do animal, algo que contribuirá para futuras investigações, também enterraram a carcaça na esperança de que um dia esta possa ser exumada e montada como um espécime de museu. 

“É um lembrete colossal de que os nossos oceanos ainda escondem muitas surpresas misteriosas”, diz Tierney Thys. 

 

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com 

Continuar a Ler

Também lhe poderá interessar

Animais
Peixe Estranho de Alto Mar Consegue Suster a Respiração Durante 4 Minutos
Animais
Peixes-leão destruidores estão a invadir o Brasil
Animais
Os pinguins têm uma evolução lenta, tornando-os vulneráveis às alterações climáticas
Animais
Os grandes tubarões-brancos conseguem mudar de cor para iludir as suas presas
Animais
Raia enorme estabelece recorde mundial para maior peixe de água doce

Descubra Nat Geo

  • Animais
  • Meio Ambiente
  • História
  • Ciência
  • Viagem e aventuras
  • Fotografia
  • Espaço
  • Vídeos

Sobre nós

Inscrição

  • Revista
  • Registar
  • Disney+

Siga-nos

Copyright © 1996-2015 National Geographic Society. Copyright © 2015-2021 National Geographic Partners, LLC. Todos os direitos reservados