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Desafiar a Morte para Revelar o Último Caçador de Mel

Renan Ozturk enfrentou milhões de abelhas gigantes, o calor extenuante e uma escalada arrepiante para obter a fotografia perfeita.

Por Hannah Lang
Autorretrato dos pés de Renan Ozturk à medida que estão suspensos no ar com Mauli, no fundo, o último caçador de mel que sobe pela sua corda de bambu feita à mão. Os tornozelos estão tapados com fita adesiva para evitar que seja picado pelas abelhas que estão nas proximidades.

Renan Ozturk e a sua equipa reconhecem que não estavam preparados para as abelhas gigantes dos Himalaias. Estavam suspensos no ar a cerca de 60 metros de altura num rochedo para contar a história de Mauli Dhan, a última pessoa do mundo que recolhe o mel alucinogénio que as abelhas produzem no Nepal oriental, quando Ozturk constatou que o seu fato de apicultor fabricado nos EUA não estava à altura das abelhas locais. As abelhas dos Himalaias têm o dobro do tamanho das abelhas norte-americanas e picam mesmo através do vestuário de proteção.

“Estou habituado a fazer reportagens muito exigentes que requerem escaladas de montanha [com a colaboração de Alex Honnold] e, pela experiência que temos, pensámos que isto seria fácil", afirmou o nativo do Utah. "Mas foi mais difícil do que pensámos".

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E apesar de Mauli escalar os rochedos até às colmeias sem utilizar qualquer proteção, arnês ou até mesmo sapatos, Ozturk e o escritor Mark Synnot transportaram equipamento fotográfico, cerca de 90 kg de corda e um assento de madeira improvisado para que o arnês não cortasse a circulação das suas pernas.

"Transportar connosco uma corda com aquele peso é um verdadeiro desafio, e temos de ter corda suficiente para poder fugir para o solo, caso estejamos a sofrer uma reação alérgica", afirmou Ozturk.

Além de arrastar consigo equipamento pesado, Ozturk teve de encontrar uma forma de se estabilizar em pleno ar, para poder fotografar o percurso de Mauli.

Mauli Dhan sobre alguns metros numa escada feita com bambu para alcançar o seu prémio: uma colmeia cheia de mel neurotóxico. O fumo da vegetação queimada desorienta as abelhas, reduzindo eventualmente a quantidade de picadas que Mauli possa vir a sofrer.

"Quando se desce em rapel até ao espaço, começa-se a girar descontroladamente. Por isso, vamos para o lado para conseguir estabilidade, mas não havia tempo suficiente e era muito difícil de consegui-lo", afirmou.

Ozturk e Synnott só conseguiram controlar a situação durante 10 segundos até começarem a girar descontroladamente. Por isso, os dois arranjaram uma forma de se empurrarem mutuamente para conseguirem obter um local estável por um período de tempo mais extenso.

"É uma situação muito complicada para se conseguir obter concentração e também acontece muito rapidamente", afirmou Ozturk, que revelou ter sido picado entre 30 e 50 vezes. "Os caçadores de mel têm um processo pelo qual passam onde tudo acontece de forma rápida e eficaz porque não têm todo este equipamento moderno".

No entanto, a coisa mais importante é ser uma "mosca silenciosa na parede", afirmou Ozturk.

"Temos de dar espaço — não tocar, não interferir em nada do que estão a fazer, porque isso pode resultar na sua morte", afirmou.

Tal foi particularmente desafiante, pois Ozturk criou uma relação próxima com Mauli. Passou horas a entrevistá-lo na sua casa em Kulung, seguiu-o pelos campos de cultivo perto da sua pequena aldeia e até falou com ele em nepalês, que Ozturk tinha aprendido durante um programa de intercâmbio.

"No final de contas, sentimo-nos mais amigos e parte de uma equipa em vez de simples fotógrafos que lá estavam", afirmou.

Desde que voltou a casa, Ozturk desenvolveu uma grave reação alérgica às picadas de abelha, tendo ido parar ao hospital.

Em trabalho no Congo, com acesso limitado a cuidados de saúde, Ozturk teve de utilizar uma caneta com epinefrina à medida que se sentia com falta de ar e edema no rosto.

"Creio que funciona e modo oposto", afirmou. "É algo contraintuitivo, quanto mais picados somos, mais alergias desenvolvemos".

Mas nenhuma alergia impediria o regresso de Ozturk ao Nepal. Visita o país há 15 anos e não tem falta de ideias para futuras reportagens no país dos Himalaias. Para Ozturk, todos os problemas valem a pena.

"É verdadeiramente espetacular de observar, apesar de todos os nossos desafios", afirmou. "É ainda mais impressionante ver o que está a ser feito lá em cima e ter a oportunidade de documentá-lo".

 

Leia mais sobre esta história em: http://www.natgeo.pt/photography/2017/08/este-homem-suportou-picadas-de-abelha-e-uma-escalada-que-desafia-morte-para

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