Animais

Milhares de Tubarões Encontrados em Barco em Carregamento Ilegal de Grande Escala

A confiscação do navio chinês e a detenção dos 20 tripulantes nas Galápagos mostram a dificuldade existente na proteção dos santuários marinhos.

Por Rachael Bale

No domingo passado, o ecologista marinho Pelayo Salinas estava a regressar de uma missão de investigação de 12 dias num barco de patrulha do Parque Nacional das Galápagos quando, às 18h00, o capitão detetou um navio no radar. O acesso a estas águas é restrito, pelo que contactaram a embarcação via rádio para saberem o que fazia ali.

Não obtiveram resposta. Salinas, que trabalha com a Fundação Charles Darwin, e um oficial da marinha do Equador, que também seguia a bordo, tentaram novo contacto. Voltaram a não obter resposta. Avisaram o navio de que a lei exige que respondam. Silêncio.

Foi então que Salinas e três outros tripulantes pegaram num barco insuflável de quatro metros que tinha sido doado ao parque e seguiram em perseguição do navio. Identificaram a embarcação como sendo chinesa e ficaram com a forte suspeita de que estava envolvida em pesca ilegal.

Esta parte do Parque Nacional das Galápagos — um santuário marinho onde não é permitido nenhum tipo de pesca — tem a maior abundância de tubarões conhecida no mundo. É esta concentração que torna estas águas um alvo para os pescadores que procuram abastecer os mercados asiáticos com barbatanas e carne de tubarão. As populações de tubarões estão a diminuir no mundo inteiro, havendo mais de um quarto de tubarões e espécies relacionadas ameaçadas de extinção.

No entanto, o pequeno barco em que seguiam, um Zodiac, não foi concebido para perseguições a alta velocidade, pelo que não foram capazes de intercetar o navio chinês. Desistiram da perseguição e alertaram a sede do parque para a presença da referida embarcação. No centro do controlo do parque, as autoridades do parque e a marinha equatoriana identificaram o navio através do sistema de vigilância eletrónica e entraram em ação, afirma Walter Bustos, diretor do Parque Nacional das Galápagos.

Pouco depois, um helicóptero da marinha e um barco da guarda costeira foram destacados para o local juntamente com guardas do Parque Nacional das Galápagos. Depois de alcançarem o navio, uma embarcação com bandeira chinesa chamada Fu Yuan Yu Leng 999, o que descobriram deixou-os perplexos.

“Havia milhares, se não dezenas de milhares, de tubarões”, diz Salinas. “Trata-se de algo histórico. Com certeza, a maior apreensão de tubarões na história das Galápagos.”

Os 20 membros da tripulação foram detidos e as autoridades do Equador estão a planear fazer um apuramento completo do inventário do navio. É ilegal atravessar as águas do santuário marinho sem uma licença, bem como capturar, comercializar ou transportar tubarões na área. De acordo com uma declaração do Ministério de Ambiente do Equador, as autoridades ainda não sabem onde os peixes foram capturados.

A embarcação é um navio-mãe, ou navio refrigerado, que recolhe peixes de barcos de pesca menores, permitindo que fiquem mais tempo no mar. Tem mais de 90 metros de comprimento e seis compartimentos de carga, alguns dos quais estavam repletos, segundo Salinas. De acordo com a declaração do Ministério do Ambiente, o registo do navio indicava que havia cerca de 300 toneladas de peixes a bordo. Salinas ainda não esteve a bordo do navio, mas nas fotografias das cargas identificou tubarões-martelos e tubarões-luzidios recortados, além de atum.

Em conversa telefónica com a National Geographic, Bustos enalteceu todos quantos ajudaram a apreender a embarcação. “O esforço especial do exército do Equador e dos guardas do parque — eles são os verdadeiros heróis desta história.

Apanhados por mera sorte

“Infelizmente, isto é o pão nosso de cada dia no oceano”, diz Salinas. “Existem milhares destes navios a deambular por estas águas.”

O incidente sublinha o problema da pesca ilegal, não registada e não regulada que se verifica atualmente até nas águas mais protegidas do mundo.

Foi por mera sorte que a embarcação foi apanhada, diz Salinas. Por alguma razão (provavelmente por acaso, acredita), o navio tinha o AIS — um sistema de rastreamento automático usado por todos os navios — ligado. Os navios envolvidos em atividades ilegais desligam-no, por razões óbvias.

ver galeria

Apesar do elevado estatuto que tem no mundo do turismo e da ciência, o Parque Nacional das Galápagos não tem todos os recursos de que precisa para proteger o ecossistema.

“Os recursos são limitados”, diz Salinas. “Os maus da fita fazem mais dinheiro a cada dia que passa. As patrulhas são caras, sobretudo para um país que se encontra em situação de crise económica.” Salinas aponta o Zodiac como exemplo. Se tivessem um barco adequado para a atuação das autoridades, poderiam ter intercetado o navio assim que o avistaram. 

A tripulação detida enfrenta a possibilidade de três anos de prisão e os conservacionistas esperam que este caso seja seguido de forma agressiva.

A China é o maior credor do Equador, fornecendo cerca de 60 por cento do financiamento do governo do país, e os críticos têm vindo a acusar o Equador de ser permissivo relativamente à China no que respeita à proteção da madeira e de outros recursos naturais da floresta tropical da Amazónia.

“O Equador mostrou liderança na sua visão” ao estabelecer a área marinha protegida, diz Enrica Sala, Explorador Residente da National Geographic que liderou uma expedição do projeto Pristine Seas às Galápagos. “Agora, o país tem de mostrar que está empenhado em fazer valer a lei.”

Hoje, numa conferência de imprensa, o Ministro do Ambiente do Equador, Tarsicio Granizo, afirmou que o governo está empenhado em fazê-lo. “A nossa política é de tolerância zero para com o transporte e o tráfico de vida selvagem protegida”, afiançou.

Continuar a Ler