Animais

A Morte de Orcas em Frente a Turistas Poderá Levar ao Fim da Caça às Orcas

O abate de duas orcas em frente a um grupo de observadores de baleias coloca a controversa prática de caça às baleias de São Vicente e Granadinas no centro das atenções.

Por Sarah Gibbens
Criaturas intensamente sociais, as orcas caçam em conjunto, em grupos familiares com até 40 elementos. Esta espécie pode ser encontrada desde as regiões polares ao Equador.

Momentos antes do acontecimento, Ken Isaacs, membro da tripulação de um barco de observação de baleias, apercebeu-se de que os turistas da sua embarcação estavam prestes a testemunhar algo terrível.

Numa excursão por mar aberto em redor da pequena ilha caribenha de São Vicente, a tripulação avistou um grupo de quatro orcas, também conhecidas como baleias assassinas, que irrompia à superfície da água. Enquanto os turistas se deliciavam a ver as orcas no seu habitat natural, Isaacs gritava freneticamente para três pescadores que se aproximavam numa pequena embarcação. Isaacs tinha visto o arpão modificado montado no convés. Ignorando os pedidos de Isaacs, os pescadores aproximaram-se do aglomerado de baleias. O grupo de 40 turistas ouviu aquilo que parecia uma explosão.

Mesmo em frente dos seus olhos, uma das baleias tinha sido atingida pelo arpão. Não demorou até que uma segunda tivesse o mesmo destino.

De acordo com o relato de Isaac ao site de notícias Caribbean 360, o grupo de turistas regressou à terra abalado, com muitas as pessoas a chorar. A Fantasea Tours, empresa que organizou a excursão de observação às baleias, terá suspendido estes passeios.

A ilha, que se situa no sul das Caraíbas já perto do norte da Venezuela, tem uma história complexa de caça às baleias em que a cultura colide com o comércio. Oficialmente chamada São Vicente e Granadinas, é um país voluntariamente membro da Comissão Internacional de Caça à Baleia (IWC).

 

Ao abrigo do estipulado por esta agência internacional, a caça às baleias é permitida quando realizada por “populações indígenas para satisfazer necessidades de subsistência”, de acordo com o sítio na Internet da organização. O país está autorizado a matar quatro baleias por ano, tendo, alegadamente, abatido seis desde 2015.

Agora o jornal local Antigua Observer relata a existência de uma movimento renovado com vista a declarar ilegal toda a caça à baleia nas águas controladas pela ilha. Numa entrevista à comunicação social local, o primeiro-ministro de São Vicente, Ralph Gonsalves, colocou-se na linha da frente deste movimento ao defender a proibição total da caça à baleia sem insultar uma prática tradicional da cultura local.

“O que ele fez, quero enfatizar isto, o que ele fez foi absolutamente errado. Não só porque aconteceu em frente a turistas, mas também (porque) ele não deve matar as orcas”, disse Gonsalves.

O primeiro-ministro sublinhou que os pescadores eram “muito trabalhadores”, mas depois acrescentou que “a ganância levou a melhor”.

Gonsalves diz agora que irá avançar como legislação que impeça a caça de baleias em São Vicente, tal como acontece com as tartarugas-marinhas, que gozam de proteção local.

A licença da Comissão Internacional de Caça à Baleia para a captura de baleias é limitada – os países aderentes recebem algumas licenças para os grupos indígenas para os quais a caça à baleia é o principal meio de subsistência. Além das populações de Bequia, em São Vicente, grupos indígenas da Gronelândia, da Rússia e do Alasca estão sujeitos a uma quota limite de captura de baleias num dado quinquénio.

Sue Fisher, consultora da Sociedade de Conservação de Baleias e Golfinhos, afirma que as licenças legais para a caça da baleia em São Vicente são um caso à parte, uma vez que a maioria dos países está próxima do Ártico. Fisher considera a prática de caça às baleias uma desatenção da IWC, afirmando que a ilha começou por ser uma base para práticas comerciais de caça à baleia levadas a cabo por empresas dos EUA. “A caça à baleia por parte dos norte-americanos era uma operação comercial”, diz Fisher. “O entendimento dos comissários [da IWC] foi o de que a caça à baleia teria como objetivo a subsistência alimentar.”

A caça à baleia pela população de Bequia (pronuncia-se bécuei), em São Vicente, é uma tradição que remonta há cerca de 140 anos. Diz-se que a prática foi trazida para a ilha pelo imigrante escocês William Wallace que fundou uma empresa de caça à baleia e transmitiu o conhecimento aos cidadãos do país.

Depois de as empresas de caça à baleia comercial terem deixado a ilha, a prática foi mantida por um pequeno grupo. Isto significa que não deveria ser considerada uma verdadeira prática cultural, declara Fisher.

Os partidários da proibição total desta prática na ilha defendem também que a emergência da tecnologia levou a que as baleias tivessem deixado de ser a única forma de subsistência das populações indígenas.

Alguns dos antigos caçadores de baleias da ilha passaram a dedicar-se à observação de baleias como método alternativo de lucrar com as orcas.

Para continuar a desenvolver práticas de caça à baleia legais, São Vicente teria de apresentar à IWC uma declaração de necessidade em 2018, altura em que termina o prazo da licença atual. Fisher calcula que a ilha não o fará, uma vez que beneficia mais do turismo do que da caça à baleia.

Numa entrevista ao Miami Herald em 2014, o antigo pescador Gaston Bess lembrou que foi levado a desistir da prática depois de ter observado baleias assassinas ao largo da costa da República Dominicana, dizendo, “embora já antes tivesse estado perto delas, as tivesse alvejado e as tivesse visto morrer, desta vez estava a vê-las num bailado e a acariciar as crias.”

Embora o incidente tenha sido um choque para os turistas que se encontravam no mar, São Vicente caça uma quantidade relativamente pequena de baleias por ano. Um relatório do Serviço de Investigação do Congresso revelou que, dos países com licença de caça à baleia da IWC, em 2012, São Vicente pescou menos de uma mão cheia de baleias, ao passo que os EUA, a Rússia e a Gronelândia caçaram respetivamente 51, 128 e 203 destes cetáceos.  

Os países onde são abatidas mais baleias anualmente são, de longe, a Noruega, que caça à revelia direta da IWC, e o Japão, que afirma que caça a baleia para fins de investigação científica.

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