Animais

As Orgias Que Aceleram o Envelhecimento das Cobras Macho

Segundo um novo estudo, a intensa competição reprodutiva entre os machos pode estar ligada à menor esperança de vida em relação às fêmeas.

Por Jason Bittel

De acordo com as descobertas de um novo estudo, a intensa competição que as cobras macho da espécie Thamnophis sirtalis infernalis travam pela reprodução pode estar relacionada com o facto de a esperança média de vida destes machos ser inferior à das fêmeas.

O EXCESSO DE SEXO ESTÁ A MATAR ESTAS COBRAS MACHO

Assista ao acasalamento de milhares de cobras — um ato tão extenuante que encurta o tempo de vida dos machos.

Neste preciso momento, em Manitoba, no Canadá, dezenas de milhares de cobras da espécie Thamnophis sirtalis infernalis estão a sair das suas tocas de inverno para acasalarem em enormes e ruidosas multidões.

Apesar de esta bizarra estratégia de reprodução poder parecer perigosa para as fêmeas, que podem ter de aguentar com mais de cem machos a tentar acasalar com cada uma delas de uma só vez, as descobertas que resultaram de um novo estudo publicado esta semana na revista Proceedings B  da Royal Society vêm indicar que são os machos que mais sofrem a longo prazo.

"Os nossos resultados sugerem que as cobras macho podem sentir o peso de um investimento tão intenso na reprodução na forma de telómeros mais curtos, o que limita as extremidades dos cromossomas", afirma Emily Uhrig, uma ecologista comportamental que foi coautora do estudo no âmbito do seu doutoramento na Universidade do Estado de Oregon.

"Os machos têm telómeros significativamente mais curtos do que as fêmeas, e vivem também menos tempo." (VEJA: "Vídeo incrível: O que acontece no maior encontro de cobras do mundo")

NÃO É FÁCIL SER UMA THAMNOPHIS SIRTALIS INFERNALIS

Quando as Thamnophis sirtalis infernalis voltam à superfície na primavera, estão, sobretudo, famintas. Esta é, em parte, uma das razões pelas quais as fêmeas só comparecem nos encontros de acasalamento durante alguns dias antes de se fazerem ao caminho em busca de alimento. Mas, para os machos, o período de jejum acabou de começar.

Depois de passarem mais de meio ano em hibernação, as cobras macho da espécie Thamnophis sirtalis infernalis renunciam à comida durante mais duas ou três semanas, de forma a estarem preparadas mal as fêmeas saiam da toca. No final do acasalamento, os machos ficarão durante cerca de oito meses sem se alimentarem.

Acresce a isto o facto de os machos terem de queimar uma quantidade anormal de energia para se esgueirarem por entre todos os outros machos. De acordo com Uhrig, os “companheiros” estão basicamente a "ficar sem combustível", numa tentativa desesperada de transmitirem os seus genes.

Se as fêmeas despendessem das mesmas quantidades de energia que os machos, poderia não sobrar energia suficiente para produzirem os ovos. É por esta razão que os corpos das fêmeas parecem utilizar uma estratégia mais ponderada a longo prazo, investindo apenas alguns dias em cada primavera no acasalamento, e armazenando, depois, o esperma, para utilizá-lo ao longo dos dois anos seguintes.

Uhrig e os coautores referem também que, enquanto a fertilidade das fêmeas aumenta com a idade, para os machos, os melhores anos para reprodução são aqueles em que ainda são jovens e ativos. Isto pode também explicar a razão pela qual a quantidade de cobras deste tipo não ser afetada pelo facto de os machos terem um tempo de vida bastante mais curto do que as fêmeas.

Relativamente à hipótese de estas descobertas nos dizerem algo sobre a duração média de vida de outras espécies de cobras, o biólogo Michael Redmer do U.S. Fish and Wildlife Service (Serviço de Pesca e Vida Selvagem dos EUA) refere que é difícil de comprovar, uma vez que este tipo de aspetos tendem a ser variáveis. Ainda por cima, as ameaças como a adaptação ao clima ou as preferências alimentares podem ser diferentes entre os grupos da mesma espécie, pelo que o mesmo pode acontecer no que respeita à longevidade.

"É mais fácil estudar a trajetória da vida de um animal quando se consegue capturar e reconhecer um animal específico várias vezes ao longo do seu ciclo de vida", refere Redmer, "pelo que há muita coisa que ainda desconhecemos sobre o curso de vida das cobras".

OS PERIGOS DO AMOR

A cobra da espécie Thamnophis sirtalis infernalis não é a única criatura no planeta a sacrificar a longevidade em prol do sucesso na reprodução.

Os louva-a-deus e as viúvas-negras do sexo masculino são famosas por, por vezes, acabarem como vítimas dos seus companheiros. Os pirilampos machos correm igualmente o risco de se tornarem um petisco para as femme fatales de uma espécie de pirilampos intimamente ligada enquanto se esforça por transmitir os genes.

E o pequeno rato-marsúpio é conhecido por acasalar com tanta frequência que o pelo do macho cai, os vasos sanguíneos rebentam e a criatura acaba a agonizar em gangrenas.

Mas nem todas as cobras macho da espécie Thamnophis sirtalis infernalis caem para o lado depois de a época de acasalamento terminar, como o salmão ou as cigarras. Os machos, aliás, parecem transportar as suas cicatrizes como marcas indeléveis nos seus cromossomas.

Embora possa parecer que transportam um grande peso às costas, as agressões do encontro de acasalamento acabam por ser, de alguma forma, preferíveis por àquelas que outras cobras sofrem quando procuram companheiros.

"Em muitas espécies de cobras, os machos deslocam-se mais do que as fêmeas porque estão ativamente à procura de companheira", diz David Steen, ecologista da vida selvagem na Universidade de Auburn. Esta estratégia pode tornar os machos mais vulneráveis a predadores ou aumentar as probabilidades de serem atropelados.

"Fico constantemente maravilhado pela variedade de estratégias que os animais utilizam para sobreviverem e prosperarem em ambientes de condições extremas.”

"Os grupos de cobras da espécie Thamnophis sirtalis infernalis no Canadá são verdadeiramente um dos aspetos mais incríveis da natureza."

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