Animais

Por Que é Que os Cães São Tão Amistosos? A Ciência Finalmente Tem Uma Resposta

Segundo um novo estudo, os nossos cães de estimação apresentam alterações nos seus genes que os tornam mais sociáveis do que os lobos.

Por Carrie Arnold
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Para Bridgett von Holdt, mais concretamente para a sua cadela Marla de 11 meses da raça english sheepdog, o mundo é um amigo que ainda não conheceu.

"Ela é hipersociável. Até fui investigar o seu genótipo", admite Holdt de forma algo envergonhada.

O interesse de von Holdt não é simples curiosidade. Esta bióloga evolucionária da Universidade de Princeton e os seus colegas passaram os últimos três anos a estudar a base genética subjacente para o comportamento social dos cães e lobos.

Os estudos revelam que os cães são mais sociáveis que os lobos criados em circunstâncias semelhantes, prestando normalmente mais atenção aos humanos e seguindo as nossas indicações e comandos de forma mais eficaz. 

A formação de von Holdt em genética evolucionária fê-la interrogar-se sobre a potencial base genética para estas diferenças.

O seu estudo, publicado a 19 de julho em Science Advances, fornece uma pista intrigante: cães hipersociáveis como Marla transportam variantes de dois genes, denominados GTF2I e GTF2IRD1. A eliminação destes genes nas pessoas provoca o síndrome de Williams, caraterizado pelos traços faciais "élficos", dificuldades cognitivas e uma tendência para gostar de todas as pessoas.

Saiba também por que é que os cães são ainda mais parecidos connosco do que imaginávamos.

Von Holdt suspeita que as variantes genéticas nos cães inibem a sua função normal, conduzindo aos mesmos problemas identificados nos humanos com síndrome de Williams.

"Podemos ter criado um síndrome comportamental num animal de companhia", afirma.

QUESTÃO INTERESSANTE

Um cão da raça border collie faz pose para a máquina fotográfica. Os cães domésticos têm mais probabilidade de reagir aos humanos do que os lobos criados em circunstâncias semelhantes.

Desde a sua evolução dos lobos há, pelo menos, dez mil anos, os cães domésticos ajudaram-nos a encontrar alimento e protegeram-nos de "ser alimento", fazendo-o sempre com um focinho amigo e uma cauda a abanar. 

Compreender como os nossos melhores amigos, desde o chihuahua até ao mastiff, se tornaram naquilo que são hoje é uma "questão interessante", segundo Karen Overall, especialista em comportamento canino da Universidade da Pensilvânia, que não participou no novo estudo.

Em 2010, em colaboração com Monique Udell, comportamentalista animal da Universidade de Oregon, von Holdt investigou os genomas de cães e lobos e identificou alterações no gene WBSCR17 que ocorreram durante a domesticação dos cães, resultados estes que publicaram na revista Nature

O seu projeto permaneceu na gaveta até 2014, quando von Holdt e Udell conseguiram financiamento para realizar um novo conjunto de experiências com 18 cães de várias raças — incluindo dachsunds, jack russell terriers e cães de montanha de Berna — e dez lobos habituados a humanos.

Os cientistas treinaram todos os animais para abrir uma caixa com um pedaço de salsicha. Em seguia, pediram aos canídeos para abrirem a caixa em três situações distintas: com um humano familiar presente, com um humano estranho e sozinhos, sem nenhuma pessoa a seu lado.

Nos três cenários, os lobos superaram largamente os cães. Essa margem aumentou ainda mais quando os cães tiveram de abrir a caixa na presença de pessoas.

"Não é que não conseguissem resolver o problema, mas estavam demasiado ocupados a observar o humano a fazê-lo", afirma von Holdt. 

OS CÃES CONTINUAM A EVOLUIR

Para o novo estudo, von Holdt realizou uma análise genética adicional da parte do genoma em redor do gene WBSCR17 alterado numa amostra maior de cães e lobos.

Para além de confirmar as suas descobertas iniciais de que o WBSCR17 variava nos cães e nos lobos, descobriu que dois genes nas proximidades, o GTF2I e o GTF2IRD1, também eram diferentes.

A combinação dos dados genéticos e comportamentais revelaram a von Holdt que as alterações nesta região do genoma ajudaram a transformar os lobos em cães amantes de humanos. 

Overall, da Universidade da Pensilvânia, adverte que a dimensão do estudo era pequena, o que limita a solidez das descobertas. Mas elogia a solidez da análise genética.

Estamos presentemente a selecionar cães que são fáceis de manter, que podem passar grandes períodos de tempo em pequenos apartamentos", afirma Overall. 

"Estamos a mudar ativamente o comportamento dos cães todos os anos"

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