Animais

Uma Nova Espécie de Golfinho-de-Água-Doce Encontrada Pela Primeira Vez num Século

Uma nova espécie proposta no Brasil pensa-se estar gravemente em perigo.Por Brian Clark Howard, National Geographic

Por Brian Clark Howard

23 Janeiro 2014

Surgiu no Brasil aquilo que se suspeita ser uma nova espécie de golfinho-de-água-doce e os cientistas avisam que está gravemente ameaçada.

Os golfinhos-de-água-doce (também conhecidos por botos) estão entre os golfinhos mais raros e mais ameaçados do mundo. Três das quatro espécies conhecidas estão listadas como “ameaçadas” pela União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN). A descoberta de uma espécie completamente nova – a primeira deste tipo em cem anos – é por isso uma notícia empolgante para os biólogos e conservacionistas.

Cientistas liderados por Tomas Hrbek da Universidade Federal do Amazonas em Manaus, Brasil, anunciaram a existência da proposta nova espécie de golfinho-de-água-doce, na PLOS ONE, a 22 de janeiro. Descoberta na Bacia do Rio Araguaia, na zona centro do Brasil, os animais foram isolados de outros botos (Inia geoffrensis e Inia boliviensis) na adjacente Bacia Amazona a oeste por uma série de rápidos e um pequeno canal. Como resultado, os cientistas sugerem denominar esta nova espécie como Boto Araguaio ou Inia araguaiaensis.

Os cientistas do estudo “constroem um bom argumento com base nos dados”, afirma Howard Rosenbaum, director da Wildlife Conservation Society (Sociedade de Conservação da Vida Selvagem), parte do projeto Ocean Giants (Gigantes do Oceano) de Nova Iorque. A descoberta, diz, é “fantástica porque estamos a começar a ter uma visão sobre como estes animais se transformam em espécies distintas”.

Testes de ADN

No estudo, a equipa brasileira concluiu que o ADN dos golfinhos-de-água-doce Araguaios é suficientemente diferente dos outros botos, possibilitando a garantia de designação de uma nova espécie. O grau de diferenças sugere que o boto Araguaio provavelmente separou-se das outras espécies de golfinhos, há mais de dois milhões de anos. As diferenças genéticas e físicas em relação aos outros golfinhos, escrevem, representa “uma forte prova que os indivíduos do Rio Araguaia representam um grupo biologicamente distinto".

A nova espécie proposta marca a primeira descoberta de um golfinho-de-água-doce, desde 1918, quando os investigadores identificaram o Lipotes vexillifer, um golfinho do Rio Yangtze ou baiji, na China. O baiji foi considerado “funcionalmente extinto” em 2006, depois dos cientistas não terem encontrado um único animal.

Rosenbaum disse à National Geographic que a equipa no Brasil “fez um trabalho admirável na recolha de uma grande quantidade de dados sobre uma espécie que é difícil de encontrar na natureza”.

Rosenbaum, especializado em diferenciação genética das espécies de golfinhos e de baleias, disse que os investigadores publicaram “dados bastante robustos”, demonstrando as diferenças genéticas e físicas entre o boto Araguaio e os outros golfinhos.

Características Únicas?

Rosenbaum afirmou que os cientistas revelaram alguma “características diagnósticas” únicas no ADN herdado da mãe, ou mitocondrial, e noutros genes analisados na sua amostra dos golfinhos-de-água-doce. As evidências, diz, “demonstram que o boto Araguaio se separou dos outros botos há muito tempo”.

Acrescentou ainda que os cientistas descreveram “algumas diferenças consideráveis no tamanho do crânio e potencialmente, no número de dentes”.

No entanto, Rosenbaum também encontra razões para ser cauteloso, já que os cientistas tinham apenas alguns exemplares para estudar. Relutantes em matar animais para estudar, a equipa dependeu de um animal encontrado morto e algumas amostras que já eram mantidas em museus.

Os Próximos Passos

Para reforçar a ideia de denominar uma nova espécie, “eles provavelmente vão ter que procurar mais exemplares”, afirmou Rosenbaum.O próximo passo para denominar uma espécie será fazer um pedido à Society for Marine Mammalogy (Sociedade para os Mamíferos Marinhos), pedindo uma designação formal de espécie. Este grupo científico irá provavelmente procurar dados adicionais, apesar do artigo da PLOS ONE ser um primeiro passo bastante sólido, afirma Rosenbaum.

Ameaças aos Golfinhos-de-água-doce

Os cientistas no Brasil observaram cerca de 120 golfinhos Araguaios, durante 12 semanas. Estimam que cerca de 600 poderão viver em toda a bacia do rio.

Os cientistas alertam que todos os golfinhos-de-água-doce enfrentam muitas ameaças, incluindo a construção de barragens, que poderão cortar a ligação entre animais da mesma espécie, limitando as oportunidades reprodutoras. Por vezes são mortos por pescadores locais, receosos que eles possam competir com eles pelo peixe, acabando enredados e mortos por equipamento de pesca.

“Desde os anos de 1960 que a bacia do Rio Araguaia tem experienciado uma pressão antropogénica significativa através da agricultura e da agropecuária, e da construção de barragens hidroelétricas, todas elas com impacto negativo nos muitos aspetos bióticos e abióticos do funcionamento do ecossistema do Rio Araguaia”, afirma o estudo.

Rosenbaum afirma que é necessária mais investigação sobre como estas ameaças podem causar um impacto no estado de sobrevivência destes animais.

Acrescentou que, “á medida que abordamos as tremendas ameaças que estes animais enfrentam, estas descobertas maravilhosas são também importantes porque espera-se que levem a uma proteção. Poderia começar um efeito-dominó para a conservação”.

Os investigadores escreveram que o boto Araguaio deveria ser classificado como “vulnerável” pela IUCN. Acrescentaram que “esta descoberta revela um défice enorme no nosso conhecimento sobre a biodiversidade Neotropical, assim como a vulnerabilidade da biodiversidade perante ações antropogénicas, numa paisagem cada vez mais ameaçada”.

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