Animais

Veja o que é Preciso Para Trasladar 500 Elefantes

Está finalmente concluída a enorme tarefa de reunir e transferir os paquidermes em segurança.

Por Sarah Gibbens

Quatro minutos — é o tempo médio que os responsáveis dos serviços de vida selvagem têm a partir do momento em que um dardo com sedativos atinge a pele espessa de um elefante até ao momento em que a substância anestesiante faz efeito.

Este pequeno intervalo é o período mais crítico para quem pretende transportar um elefante de seis toneladas para um local a 240 quilómetros de distância.

No final de julho, os dirigentes dos serviços de vida selvagem do Malawi concluíram um projeto de dois anos que implicava a transferência de 520 elefantes do Parque Nacional de Liwonde e da Reserva de Vida Selvagem de Majete para um novo espaço na Reserva de Vida Selvagem de Nkhotakota. O que se espera é que os paquidermes transferidos venham a ajudar a resolver os problemas de conservação nas duas reservas naturais originais e no novo parque onde os elefantes vivem.

Em Liwonde e Majete, as populações de elefantes encontravam-se em franca expansão, o que estava a levar a um aumento dos conflitos entre os humanos e os animais. Os elefantes que invadem os terrenos das povoações podem danificar os cultivos e o gado locais e destruir o sustento de uma pequena quinta. Muitos dos animais que foram transportados para fora destes parques tinham pequenos buracos em forma de bala nas orelhas.

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Em contraste, a população de Nkhotakota foi dizimada pela caça furtiva. Neste grande parque, a população de mais de 1500 elefantes baixou para menos de 100 nos últimos 20 anos.

No entanto, transferir tantos elefantes de um parque para outro não foi tarefa fácil. Não era possível simplesmente levar as manadas a pé para o novo parque, uma vez que a região é muito populada e a transferência constituiria um risco para a produção agrícola do Malawi.

Os veterinários e os conservacionistas da African Parks, um grupo sem fins lucrativos que gere parques e áreas protegidas, coordenaram os trabalhos. As equipas transferiram os grupos familiares mais próximos um de cada vez para aumentar a probabilidade de que os elefantes se adaptassem ao novo ambiente.

 

UMA TRANSFERÊNCIA DE MONTA

No dia da transferência, as equipas saíram cedo de helicóptero em busca de uma manada. Assim que detetaram uma unidade familiar, avisaram outras equipas no terreno via rádio para que se preparassem enquanto os elefantes eram sedados a partir o helicóptero.

Os elefantes foram atingidos por dardos com um opioide sintético que é dez vezes mais potente do que a morfina. Uma gota desta substância seria capaz de matar um humano em poucos minutos. No entanto, mesmo esta potente substância demora um pouco a derrubar um elefante e, antes de tal acontecer, o animal é capaz de percorrer grandes distâncias.

As equipas no terreno ficavam nas proximidades para se assegurarem de que um elefante atingido pelo sedativo não caía dentro de água, nem batia com a cabeça numa árvore nem caía sobre os dentes ou de bruços, uma posição que poderia esmagar os enormes pulmões do animal.

“Nós conseguíamos ver quando as drogas começaram a fazer efeito”, diz Andrea Heydlauff, diretora de marketing da African Parks, que esteve presente em muitas destas transferências e que ajudou neste trabalho.

Depois de os elefantes perderem completamente a consciência e de serem colocados na posição correta, os responsáveis colocavam ramos na abertura junto dos dentes para se assegurarem de que as entradas de ar se mantinham desimpedidas e viravam as orelhas para a frente para proteger os olhos do animal do forte sol do Malawi.

Gruas construídas especialmente para o efeito transportavam os elefantes para um contentor, içando-os por meio de cordas que se atavam à parte inferior das pernas. No contentor, os elefantes recebiam o antídoto para acordarem da anestesia. Os elefantes ficaram acordados no resto da viagem de 12 horas rumo a norte, mas, segundo Heydlauff, continuavam abatidos por ação do sedativo, “como se tivessem tomado Xanax”, diz.

 

O QUE SE SEGUE?

Agora que esta enorme trasladação está concluída, os responsáveis da African Parks esperam que Nkhotakota se torne uma das principais reservas de elefantes do Malawi e que ajude a melhorar as oportunidades de emprego e de turismo da região.

No que respeita à caça furtiva que se praticava no Malawi, a maior parte era é levada a cabo por pequenos grupos que faziam uso de armas rudimentares e que abatiam um pequeno número de elefantes de uma manada. No âmbito do projeto, foram contratados guardas florestais, que receberam formação e que forma munidos das ferramentas necessárias para afastar possíveis caçadores furtivos.

No entanto, ao longo do território africano, salvar elefantes continua a ser uma tarefa complicada. O marfim atinge preços muito elevados no mercado negro — em algumas regiões, um quilo de marfim pode chegar aos 1000 dólares. Numa investigação realizada em 2016, chegou-se à conclusão de que, só na última década, foram mortos 140 000 elefantes por caçadores que procuravam os dentes destes animais. E nas regiões afetadas por conflitos civis, a caça furtiva de elefantes tem sido especialmente difícil de combater. Por exemplo, no Parque Nacional de Virunga, na República Democrática do Congo, um país devastado pela guerra, as populações de elefantes passaram de um número superior a 22 000 para pouco mais de 1000 nos últimos 50 anos. A African Parks controla um total de 11 reservas de vida selvagem estatais no continente e, apesar das incríveis ameaças que os elefantes africanos continuam a enfrentar, esta ONG espera poder ajudar outras populações a recuperar. “Sabemos o que está a matar estes elefantes”, diz Heydlauff. “Podemos ir à raiz do problema.”

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