Ciência

Como Um Útero Artificial Pode Trazer Uma Nova Esperança Para Bebés Prematuros

Um dispositivo testado em cordeiros pode vir a ajudar bebés extremamente prematuros a crescerem de forma saudável.Thursday, November 9

Por Erika Engelhaupt
Nos EUA, nascem, todos os anos, cerca de 30 000 bebés com menos de 26 semanas.

Assinalando o que pode vir a ser um avanço fulcral na prestação de cuidados a bebés prematuros, os investigadores anunciaram hoje que oito fetos de cordeiros sobreviveram e cresceram dentro de um útero artificial durante quatro semanas, o máximo alguma vez alcançado por um animal.

A equipa relatou que os pulmões e outros órgãos dos cordeiros se desenvolveram como se estivessem no útero da mãe, uma melhoria importante em relação às incubadoras e aos ventiladores usados atualmente para manter vivos os bebés prematuros. Alguns dos cordeiros já cresceram até à idade adulta, e um deles tem agora mais de um ano de idade.

"Eles aparentam ter um desenvolvimento normal em todos os aspetos", diz o responsável pelo estudo, Alan Flake, no Hospital Pediátrico de Filadélfia. "Não temos um teste de inteligência para cordeiros", acrescenta, "mas achamos que são cordeiros muito inteligentes".

Os investigadores esperam poder vir a usar tecnologia semelhante em seres humanos para ajudar os pequenos bebés prematuros a crescer de forma saudável.

O tempo médio de gestação para os seres humanos é de 40 semanas. Mas, nos EUA, cerca de 30 000 bebés nascem com menos de 26 semanas de gestação todos os anos. Os bebés que estão no limite de viabilidade — entre 22 e 23 semanas — pesam normalmente apenas cerca de 0,5 kg e têm menos de 50 por cento de hipóteses de sobreviver. Os que sobrevivem têm, muitas vezes, deficiências graves, incluindo doença pulmonar e paralisia cerebral.

Se o novo dispositivo for bem-sucedido, os pais de um bebé prematuro podem, um dia, deparar-se com uma incubadora semelhante a um aquário. No dispositivo, um bebé prematuro é fechado num grande saco plástico transparente cheio de líquido amniótico artificial.

O bebé respira o fluido, como faria no útero, e o seu cordão umbilical estará ligado a uma máquina que insere oxigénio e remove o dióxido de carbono do sangue.

Os investigadores afirmam que a finalidade do útero artificial não é substituir o útero verdadeiro, e não pode salvar fetos com menos de 22 ou 23 semanas — são muito pequenos e estão muito pouco desenvolvidos.

"O nosso objetivo não é, certamente, ampliar os limites de viabilidade", afirmou Flake, durante uma conferência de imprensa onde anunciou os resultados. "O nosso objetivo é melhorar a sobrevivência de bebés extremamente prematuros."

UM ÚTERO NUM SACO

A equipa de Filadélfia tem vindo a testar e a aperfeiçoar o dispositivo ao longo de três anos, conforme referiram hoje à revista Nature Communications. Na última versão, testaram cinco cordeiros que foram removidos cirurgicamente das respetivas mães após 105 a 108 dias de gestação, quando estavam numa fase de desenvolvimento semelhante à de um feto humano com 23 semanas. A equipa testou, também, três cordeiros que tinham entre 115 e 120 dias.

Mesmo os cordeiros mais jovens desenvolveram-se normalmente dentro dos úteros artificiais e foram capazes de se mover, de abrir os olhos e até cresceu lã enquanto se encontravam lá dentro. Assim que os pulmões e os outros sistemas estavam suficientemente maturados, os cordeiros passaram das bolsas para ventiladores, onde demonstraram que tinham função pulmonar normal.

Marcus Davey monitoriza o útero artificial no Hospital Pediátrico de Filadélfia.

"Estes resultados são muito impressionantes e promissores", diz George Mychaliska, cirurgião pediátrico e fetal no Laboratório de Investigação de Circulação Extracorpórea da Universidade de Michigan. A trabalhar em conjunto com Robert Bartlett, o inventor do primeiro dispositivo artificial semelhante ao útero, Mychaliska está a desenvolver, juntamente com a sua equipa, o próprio sistema há já uma década.

Ao contrário do dispositivo dos investigadores da Pensilvânia, que está dependente do coração do feto para bombear o sangue, o sistema de Michigan usa uma bomba mecânica. Em ambos os sistemas, os bebés respiram um fluido que simula o líquido amniótico, mas, no caso do dispositivo de Michigan, eles não estão fechados num saco e imersos em líquido.

Cada equipa destaca os benefícios do respetivo dispositivo — um evita bombas que podem causar tensão num coração tão pequeno, o outro facilita o acesso ao bebé caso aconteça alguma coisa —, mas nenhum deles foi ainda testado em seres humanos.

NÃO É "O MATRIX"

O objetivo de qualquer sistema de útero artificial, segundo Mychaliska, não é permitir a gestação completa de um bebé fora do útero. "Isso é algo que aconteceria em O Matrix", diz ele, referindo-se ao filme de 1999 em que os seres humanos nascem de vagens.

"O objetivo da placenta artificial é recriar o ambiente uterino durante um determinado período de tempo para permitir que os órgãos se desenvolvam até uma fase em que o bebé consiga suportar a vida pós-natal", afirma Mychaliska.

Alan Flake, do Hospital Pediátrico de Filadélfia, liderou a equipa que desenvolveu e testou o novo útero artificial.

Para os bebés humanos, esse ponto crítico surge por volta das 28 semanas de idade, quando os pulmões já se desenvolveram o suficiente para permitir que  respirem ar. Na maioria dos casos, seria nesta fase que se retiraria um bebé que se encontrasse num útero artificial, para reduzir os riscos de infeção e de formação de coágulos sanguíneos provocados pelo dispositivo.

Tanto Mychaliska como Flake estão confiantes de que os úteros artificiais serão, em breve, uma realidade, seja qual for o modelo que prevaleça.

Mas, antes de ser testado em bebés humanos, qualquer novo dispositivo terá de passar por mais testes realizados em animais, até se comprovar que é seguro para ser utilizado em humanos. O dispositivo teria, também, de ser adaptado para bebés humanos, que têm metade do tamanho dos cordeiros deste estudo. Ambas as equipas dizem que os respetivos dispositivos podem vir a estar prontos para esses testes dentro de três a cinco anos.

Erika Engelhaupt é jornalista científica e editora. Escreve para o blogue Gory Details, no National Geographic.

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