Ciência

Primeiros Embriões Humanos “Editados” nos EUA — Conheça os Factos

O trabalho, que removeu uma mutação de um gene ligada a uma doença cardíaca, está a alimentar o debate sobre uma ferramenta controversa conhecida como CRISPR.quinta-feira, 9 de novembro de 2017

Por Erin Blakemore
Dois dias depois de terem sido injetados com uma enzima que edita o gene, estes embriões humanos em desenvolvimento estavam livres da mutação causadora da doença.

E se fosse possível eliminar uma mutação potencialmente fatal de um gene do ADN do seu filho ainda antes de ele nascer? Os cientistas acabaram de dar um enorme passo para que tal seja possível, num avanço que provavelmente irá suscitar dúvidas e salvar vidas em igual medida. 

Pela primeira vez na história, uma equipa de investigadores dos Estados Unidos recorreu à técnica de edição de genes em embriões humanos. De acordo com a descrição feita na revista Nature, a equipa usou “tesouras genéticas” chamadas CRISPR-Cas9 para selecionar e remover, em 42 embriões, uma mutação associada à cardiomiopatia hipertrófica, uma doença cardíaca hereditária e comum.

Se o acrónimo CRISPR lhe soa familiar, não é por acaso: desde que foi apresentada, esta técnica esteve no centro de um aceso debate sobre a ética da edição de genes.

Os cientistas que pretendem explorar esta técnica aplaudem-na, considerando que se trata de um avanço biomédico que um dia poderá dar às pessoas a opção de deixarem de transmitir doenças hereditárias. A ferramenta poderá também reduzir o número de embriões que são descartados durante os tratamentos de fertilidade devido a mutações genéticas que causem apreensão.

Mas os críticos consideram que a segurança e a eficácia não são condições suficientes para tornar um procedimento ético.

“Os cientistas estão descontrolados”, diz George Annas, diretor do Centro de Direito de Saúde, Ética e Direitos Humanos da Escola Universitária de Saúde Pública de Boston.  Annas considera que não há nenhuma razão que justifique que os cientistas editem os genomas de embriões humanos. “Querem controlar a natureza, mas não são capazes de se controlar a eles próprios.”

AS DORES DA CURA

De acordo com o centro de Controlo e Prevenção da Doença, a cardiomiopatia hipertrófica ocorre em cerca de uma em cada 500 pessoas. Esta doença faz com que o músculo do coração se torne mais espesso e poderá levar a uma paragem cardíaca repentina.

É necessária apenas uma mutação genética para provocar a doença, e é possível contrair a doença mesmo que apenas um dos pais seja portador do gene mutado. Se for herdada, a probabilidade de ser transmitida aos filhos é de 50%.

No trabalho que desenvolveram, Shoukhrat Mitalipov, investigador principal do Centro para as Células Embrionárias e Terapia de Genes da Universidade e Saúde e Ciência do Oregon (OHSU), e os colegas selecionaram as mutações genéticas que provocam a maioria dos casos de cardiomiopatia hipertrófica.

Primeiro, criaram 58 embriões humanos a partir do esperma de um dador masculino portador da mutação e de um óvulo de uma mulher sem a mutação. Depois, usaram a CRISPR para cortar a mutação do gene. As ferramentas de edição de genes guiam uma enzima chamada Cas-9 para uma posição selecionada no ADN e cortam a molécula no local exato. Quando tudo corre bem, o ADN repara-se a si próprio e a mutação desaparece.

A técnica nem sempre é bem-sucedida. Em estudos anteriores, alguns embriões editados pela CRISPR desenvolveram mosaicismo, uma afeção na qual algumas células têm a mutações indesejadas e outras não.

Por isso, a equipa de investigadores desenvolveu um novo método: injetar o esperma e a CRISPR no óvulo em simultâneo em vez de esperar até depois da fertilização para editar os genes. Desta vez, de acordo com a equipa, não se houve mosaicismo.

No total, a equipa conseguiu corrigir a mutação genética em cerca de 70% dos embriões e o estudo não revelou mudanças indesejadas em outros locais do ADN editado.

A equipa permitiu que as células fertilizadas se desenvolvessem até se tornarem blástulas – a etapa em que habitualmente os embriões são implantados na mãe durante os tratamentos de fertilidade. De acordo com o enunciado pelos investigadores, as blástulas mostraram um desenvolvimento normal. Depois, os embriões foram destruídos.

A equipa de investigadores permitiu que os embriões se desenvolvessem até se tornarem blástulas, que se veem aqui.

CIÊNCIA EM MOVIMENTO

“É claro que são necessárias novas investigações e discussões éticas antes de iniciar ensaios clínicos”, disse Paula Amato, professora associada adjunta de obstetrícia e ginecologia da OHSU, num briefing para a imprensa no dia 1 de agosto.

No início deste ano a Academia Nacional de Ciências e a Academia Nacional de Medicina dos EUA solicitaram a um comité internacional de cientistas e eticistas uma reflexão sobre os benefícios e os riscos da edição de genomas em humanos.

O painel recomendava que no caso da linha germinal humana — os genes que passam de geração em geração — os cientistas evitassem editar genes para qualquer fim que não tivesse que ver com o tratamento e a prevenção de doenças e deficiências. O relatório insistia também num debate público mais sustentado antes do início das experiências.

Atualmente, nos Estados Unidos da América, é proibido utilizar os fundos dos contribuintes para qualquer investigação que leve à destruição de embriões humanos.

Neste caso, os investigadores seguiram em frente com o seu trabalho e usaram fundos institucionais e privados. Se a equipa não puder avançar tão depressa quanto o desejado nos EUA, considerará levar a cabo a investigação noutros países.

Embora editar doenças genéticas possa parecer algo muito distante, é preciso que as pessoas sigam de perto este tipo de investigação, diz Sakthivel Sadayappan, diretor do departamento cardíaco do Instituto Cardíaco, Pulmonar e Vascular da Universidade de Cincinnati.

“É algo entusiasmante”, diz Sadayappan, que não esteve envolvido no novo estudo da CRISPR. “É o futuro.”

É certo que a pequena dimensão da amostra deixa algo a desejar. Mas Sadayappan considera que vale a pena prosseguir com a investigação e apoiá-la. “É claro que os estudos de exequibilidade levantam questões”, diz. “Mas é a única forma de a ciência evoluir.”

Para Sadayappan, que desenvolve investigação no campo da cardiomiopatia hipertrófica, há muita coisa em jogo. Os pacientes que herdaram a mutação de ambos os pais “não têm outra opção além desta tecnologia se pretenderem ter filhos”, afirma.

DEBATE SOBRE O FUTURO

Atualmente já é possível procurar defeitos genéticos nos embriões durante a fertilização in vitro usando um processo chamado diagnóstico genético pré-implantação. A equipa considera que a técnica CRISPR poderá vir a ser aplicada a mutações de genes associadas a outras doenças, como a fibrose cística.

No artigo, a equipa de investigadores indica que, no futuro, este método poderá “salvar embriões mutantes, aumentar o número de embriões disponíveis para transferência e, em última instância, melhorar as taxas de gravidez.”

“É simplesmente absurdo”, diz Annas. “Admitem logo à partida que se alguém quiser evitar que um bebé tenha a mutação, basta não implantar o embriões afetados.”

Mitalipov discorda: “Descartar metade dos embriões é moralmente errado”, diz à National Geographic. “Temos de ser mais proativos.”

De qualquer forma, está na hora de retomarmos o debate acerca da regulação da CRISPR nos Estados Unidos, assevera Anna. “Acredito que os legisladores ficarão horrorizados.”

Mas para Mitalipov, o debate é uma oportunidade para informar o mundo sobre o potencial desta técnica. E sendo um cientista que também clonou embriões de macacos, e chegou até a clonar embriões humanos para fazer células estaminais, Mitalipov sabe muito bem como acender o debate público.

“Vamos desafiar os limites”, diz.

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