Ciência

Dez descobertas Extraordinárias que Mereciam um Prémio Nobel

Os nossos colaboradores e editores nomeiam inovações e descobertas revolucionárias, que o Comité Nobel, incompreensivelmente, ignorou. Terça-feira, 31 Outubro

Por National Geographic

VÍDEO: Como são escolhidos os vencedores? Descubra como são selecionados os laureados com o Nobel, bem como a história fascinante de um dos prémios mais prestigiantes do mundo.

Eis que chega o ritual anual da Semana do Nobel, um período de frenética antecipação e especulação, que é uma espécie de Liga dos Campeões da UEFA para génios.

Todo este burburinho deixou os editores da National Geographic a pensar: que descobertas notáveis nunca ganharam este prémio? Em 2014, pedimos aos nossos editores e escritores de ciência, e a alguns colaboradores criteriosamente selecionados, que escolhessem as suas inovações ou invenções preferidas, às quais foi injustamente negado o Nobel. E, durante os últimos três anos, temos monitorizado esses avanços não celebrados.

Seguem-se as nossas dez escolhas para descobertas e invenções que nunca receberam uma cerimónia de vitória em Estocolmo — mas que muito a mereciam.

A WORLD WIDE WEB

Quando a National Geographic me perguntou que descoberta merecia um Nobel, mas nunca o tinha ganho, o meu primeiro instinto foi recorrer aos meus seguidores no Twitter. Após terem referido alguns potenciais candidatos, pesquisei no Google "Velcro", "matéria escura" e "células estaminais embrionárias", e dediquei-me a ler sobre estas descobertas.

Foi então que me apercebi: o que poderia ser mais digno de um Prémio Nobel do que a invenção a que eu tinha acabado de recorrer para conhecer todas estas outras invenções?

Nos anos 60, investigadores do governo federal norte-americano criaram redes informáticas de comunicação, que viriam a dar origem à Internet. Contudo, eu atribuiria o Nobel ao cientista informático britânico Tim Berners-Lee, que, em 1989, propôs a ideia de uma World Wide Web, e que, em 1990, criou o primeiro website (uma página que descrevia a Web).

A Web democratizou a informação, seja na forma de vídeos tolos de gatos dançarinos, ou de tweets corajosos, publicados a partir do coração da Primavera Árabe. E a informação é poder.

—Virginia Hughes, editora de ciência do BuzzFeed e antiga bloguer do Phenomena

MATÉRIA ESCURA

Se olharmos para toda a história humana, há inúmeras descobertas astronómicas dignas de um Prémio Nobel, como é o caso das leis do movimento planetário de Kepler, da descoberta, no início do século XX, que o universo se encontra em expansão, ou da classificação das estrelas segundo a sua assinatura espectral. Mas a descoberta da matéria escura é, entre os feitos recentes, talvez o mais injustamente ignorado pelo comité responsável pela atribuição do Nobel.

Nos anos 70, Vera Rubin e Kent Ford notaram que as estrelas na periferia das galáxias se moviam com a mesma velocidade que as estrelas no seu centro—por outras palavras, as galáxias giravam com uma velocidade tal que se deveriam estar a desintegrar... a menos que algo invisível estivesse a ajudar a gravidade a mantê-las coesas e unidas.

Esse "algo invisível" veio a ser conhecido como matéria escura — uma substância misteriosa, que contém cerca de 90% de toda a massa do universo. A matéria escura não emite nem reflete a luz, nem tem qualquer interação com a matéria convencional.

Dada a sua natureza furtiva e evasiva, a própria partícula de matéria escura permanece, até hoje, um mistério. Ou seja, os cientistas nem sequer sabem, ao certo, que substância é esta. Esta incerteza pode ser, justamente, a razão pela qual o comité Nobel ainda não reconheceu esta descoberta, apesar de, em 2011, o Prémio Nobel da Física ter sido atribuído a uma descoberta cosmológica igualmente enigmática.

Nadia Drake, colaboradora e bloguer da National Geographic

Nota do editor: a 25 de dezembro de 2016, aos 88 anos, Vera Rubin faleceu — uma cientista brilhante, uma mentora dedicada e uma inspiração para os investigadores mais jovens. Não obstante a magnitude da sua contribuição e a admiração dos seus pares, Rubin já não é elegível para receber o Nobel, uma vez que os prémios póstumos são proibidos.

O PRIMEIRO GENOMA

Muitos se perguntam porque é que um dos maiores feitos científicos nunca conquistou o Nobel: a sequenciação integral do genoma humano. Talvez seja, precisamente, pela grandeza do feito. Não obstante a sua importância, o mapeamento do genoma humano não foi uma descoberta nem uma invenção, mas antes um projeto de engenharia, que necessitou que a sequenciação automática de ADN fosse feita a uma escala industrial. Como Eric Lander, um dos cientistas do Projeto Genoma Humano, disse na época, "Não se ganha um Prémio Nobel por rodar uma manivela."

Contudo, é perfeitamente plausível que o inventor da manivela venha ainda a ganhar o Prémio. Seis anos antes do genoma humano, Craig Venter e os seus colaboradores demonstraram que uma técnica de sequenciação automática e montagem dos segmentos de ADN, denominada sequenciação shotgun de genomas completos, podia ser usada para ler todo o código genético de um organismo de vida livre, a bactéria Haemophilus influenzae. A metodologia empregue é, basicamente, aquela que a empresa de Venter usou, em grande escala, para sequenciar os genomas da mosca-da-fruta e do homem, e que praticamente todos os outros laboratórios têm usado desde então para sequenciar os genomas de centenas de outras espécies.

O comité Nobel terá dificuldade em escolher os três cientistas mais determinantes para este primeiro triunfo da genómica. Mas Venter deveria ser um deles.

—Jamie Shreeve, colaborador e antigo diretor executivo para a ciência da National Geographic

A MORTE DOS BURACOS NEGROS

Certa noite, em 1970, Stephen Hawking preparava-se para se deitar, quando teve uma ideia que, mais tarde, veio a descrever como um "momento de êxtase."

Ocorreu-lhe que os buracos negros, que, até então, se julgava serem mais ou menos imortais, poderiam, ao invés, estar lentamente a perder massa, acabando, eventualmente, por se evaporarem, explodindo num clarão de raios gama.

O problema é que não havia forma de verificar esta ideia. A vida dos buracos negros é longa demais para que possamos, hoje em dia, observar os seus últimos estertores.

Ainda assim, a investigação de Hawking relativa aos buracos negros encontra-se firmemente arreigada na física teórica, tendo unido a relatividade (uma teoria clássica, muito bem oleada) e a mecânica quântica (onde tudo é turvo), estimulando o progresso na teoria da informação.

Hawking teria provavelmente ganhado o Nobel se a natureza tivesse fornecido uma confirmação observável, mas tal só acontecerá daqui a milhares de milhões de anos, quando os primeiros buracos negros do tamanho de estrelas começarem a explodir.

—Timothy Ferris, colaborador da National Geographic e autor do livro The Science of Liberty

A TABELA PERIÓDICA

Gostaria de que pensássemos todos nas coisas elementares. O que é mais elementar, mais fundamental, mais significativo que a identificação dos elementos químicos?

A tabela periódica não é um mero organograma; ela mostra-nos a ordem subjacente de protões, neutrões e eletrões, que constituem o cerne de toda a matéria. As suas colunas e linhas bem organizadas previram a existência e as propriedades de elementos, antes sequer de estes terem sido descobertos.

Parece impensável que um avanço desta magnitude nunca tenha ganhado a maior distinção no universo científico, mas foi justamente isso que aconteceu na primeira atribuição dos Prémios Nobel. O prémio para a Química foi para o trabalho pioneiro de Jacobus H. van't Hoff no campo da físico-química. Quando comparada com o trabalho de Hoff, que mostrava como os elementos se ligavam e interagiam, a tabela periódica, publicada por Dmitri Mendeleev em 1869, terá, com certeza, parecido um pouco desinteressante.

Mas Mendeleev ainda tinha esperança: foi nomeado para o Nobel em 1905 e 1906, tendo perdido pois um dos membros do comité achou o seu trabalho demasiado antigo e conhecido. Aparentemente, a tabela periódica tinha sido vítima do seu próprio êxito.

Em 1906, o prémio foi atribuído a Henri Moisson, pela descoberta do elemento flúor, precisamente no sítio onde a tabela periódica previra que ele estaria.

No ano seguinte, Mendeleev faleceu, e com ele desapareceu também a possibilidade de a tabela ainda vir a ganhar o Nobel. Em vez disso, a tabela periódica tornou-se no poster mais útil de toda a ciência, cobrindo as paredes de gerações e gerações de laboratórios por todo mundo. E esse galardão terá de ser suficiente.

Erika Engelhaupt, colaboradora e antiga editora de ciência on-line da National Geographic

A LÂMPADA INCANDESCENTE

Como adepto de tecnologias obsoletas — pipocas Jiffy Pop, jornais, o iPhone —, estaria em falha se não mencionasse a consagração da lâmpada incandescente, há muito devida, com o Nobel da Física.

A modesta invenção de Thomas Edison—inicialmente patenteada por Joseph Swan, no Reino Unido, mas tornada prática por Edison—deu origem à economia moderna (e às mais variadas perturbações do sono), gerando uma tremenda procura pela eletricidade que, atualmente, molda toda a nossa existência.

Edison morreu em 1931 sem o Nobel, nem mesmo pela lâmpada incandescente—justamente, o símbolo da inspiração científica. Foi uma injustiça histórica. Alfred Nobel incluiu invenções e inventores no seu testamento, referindo-se ao galardão, mas os juízes do prémio tendem a investir as suas coroas suecas em coisas tão pouco práticas como a expansão desenfreada do universo, ou esotéricas partículas de "Deus", que, com as suas alcunhas apelativas, existem com o único propósito de enfurecer os físicos.

Em vez disso, que se faça luz, e que esta seja comemorada com um Nobel, tal como o inventor da dinamite teria desejado.

—Dan Vergano, escritor de ciência do BuzzFeed e antigo escritor de ciência da National Geographic

Nota do editor: ainda que Edison nunca tenha ganhado o Nobel, os sucessores da sua lâmpada incandescente conseguiram-no. Em 2014, três cientistas japoneses foram galardoados pela invenção do LED azul, que revolucionou as tecnologias de iluminação.

O QUARK

Em 1969, Murray Gell-Mann ganhou o Prémio Nobel da Física "pelo seu contributo e descobertas no âmbito da classificação de partículas elementares e das suas interações."

Contudo, não lhe foi atribuído nenhum prémio em reconhecimento, especificamente, da descoberta pela qual Gell-Mann é mais conhecido: o quark. Estes pequeníssimos constituintes da matéria formam os protões, neutrões e outras partículas. Esta descoberta (feita usando lápis e papel, as ferramentas mais poderosas de um físico teórico) conduziu a uma melhor compreensão do mundo físico.

A linguagem usada na nomeação foi vaga o suficiente para que o Nobel de Gell-Mann pudesse ser considerado uma espécie de prémio de carreira, apesar de, na época, ele ter apenas 40 anos.

Porém, na altura, as provas da existência dos quarks, que ele tinha proposto cinco anos antes, eram ainda ambíguas e controversas. O discurso de apresentação do prémio limitou-se, simplesmente, a ignorar a descoberta, e alguns físicos sugeriram que Gell-Mann merecia um segundo Nobel, que deveria ser partilhado com George Zweig, que, de forma independente, tinha chegado às mesmas conclusões, e com James Bjorken, por ser o responsável pelas experiências que vieram comprovar, de forma cabal, a existência dos quarks.

—George Johnson, colaborador da National Geographic e autor do livro Strange Beauty

SÍNTESE EVOLUTIVA MODERNA

Em 1901, quando os primeiros prémios Nobel foram atribuídos, a biologia evolutiva dava ainda os seus primeiros passos como ciência.

Os biólogos da época pouco sabiam acerca dos detalhes da transformação da vida ao longo das gerações. Alguns, inclusivamente, questionavam a seleção natural, bem como outros conceitos fundamentais da teoria da evolução de Darwin.

Entre os anos 20 e 50, um conjunto de cientistas—geneticistas, naturalistas e paleontólogos—verificou como as mutações surgiam, se propagavam e agiam, no fundo, como a matéria prima para a evolução. Esta nova visão da vida ficou conhecida como síntese moderna ou neodarwinismo. Sem o trabalho destes investigadores, os avanços extraordinários no conhecimento da história da vida, de que hoje dispomos, nunca teriam sido possíveis.

—Carl Zimmer, colunista do New York Times e antigo bloguer do Phenomena (The Loom)

A ÁRVORE DA VIDA

Numa época em que os cientistas classificavam os microrganismos segundo a sua morfologia, Carl Woese criou uma forma de inferir as relações entre eles através da comparação dos seus genes.

O seu método evidenciou a existência de um novo domínio de seres vivos, anteriormente desconhecido, os microscópicos Archaea. Os cientistas recorreram às técnicas de Woese para catalogar a multiplicidade de micróbios que habitam o nosso corpo e que influenciam a nossa saúde, bem como para mapear as relações evolutivas entre todos os organismos, sejam eles grandes ou pequenos.

Graças a Woese, a árvore da vida ganhou um terceiro grande tronco, mais ramos sólidos e novos galhos. Woese faleceu em 2012 e os Nobéis não podem ser atribuídos postumamente, mas é absurdo que alguém que nos revelou a vida em toda a sua extensão seja vencido por algo tão trivial como a morte.

Ed Yong, colaborador no The Atlantic e antigo bloguer do Phenomena

A RENASCENÇA DOS DINOSSAUROS

Em 1969, John Ostrom, paleontólogo da Universidade de Yale identificou uma das mais importantes espécies jamais encontradas. Ostrom chamou o animal—um dinossauro com 110 milhões de anos—Deinonychus, ou "garra terrível." Este réptil era um predador do tamanho de um homem, com patas dianteiras preênseis e uma garra em forma de foice num dedo hiperextensível das patas traseiras, (que era mantida elevada do solo).

Mas, sobretudo, Ostrom sabia que o Deinonychus era um animal muito diferente dos monstros lentos e estúpidos a que estávamos habituados. O paleontólogo defendia que o Deinonychus era um caçador ágil, possivelmente social, que deverá ter tido uma vida muito ativa. Esta proposta ajudou a lançar a "renascença dos dinossauros", que, ainda hoje, dá os seus frutos científicos.

Infelizmente, não há nenhum Prémio Nobel para a paleontologia, nem para qualquer outro ramo da história natural, e o Deinonychus ainda não teve o devido reconhecimento.

—Brian Switek, escritor de ciência e antigo bloguer do Phenomena (Laelaps)

Nota do editor: este artigo foi originalmente publicado durante a semana dos Nobéis de 2014, tendo sido atualizado pela última vez a 29 de setembro de 2017.

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