Ciência

Clones de Macacos Criados em Laboratório. E Agora?

Num desenvolvimento histórico e controverso, os investigadores clonaram um par de macacos usando um método que, em teoria, poderia ser usado para clonar humanos. Segunda-feira, 29 Janeiro

Por Michael Greshko

Em estreia mundial, investigadores chineses conseguiram clonar macacos usando a mesma técnica que deu origem ao famoso clone Dolly, a ovelha. O desenvolvimento histórico, publicado na Cell, na quarta-feira, marca a primeira vez que primatas foram clonados desta maneira.

Este trabalho de longa data, liderado por Zhen Liu, bolseiro de pós-graduação da Academia Chinesa de Ciências, culminou no recente nascimento de dois macacos fêmea: Zhong Zhong e Hua Hua. Os nomes dos macacos são inspirados na palavra zhonghua, um adjetivo usado para designar a população chinesa.

Os dois macacos — com oito e seis semana de idade — são geneticamente idênticos, ambos clones da mesma cultura de células fetais do mesmo dador. De acordo com os relatos, os jovens macacos são saudáveis e estão a viver numa incubadora.

A descoberta poderá abrir um admirável mundo novo na investigação biomédica e irá indubitavelmente acender o debate em torno da clonagem de outra espécie de primatas: os humanos. Eis tudo o que precisa de saber sobre estes clones potencialmente controversos.

É A PRIMEIRA VEZ QUE SE CLONAM MACACOS?

Tecnicamente, não. Em 1999, os investigadores "clonaram" um macaco-rhesus ao dividirem um embrião em estágio inicial em várias partes: criando efetivamente gémeos idênticos artificiais. Uma outra investigação mostrou que as células dos macacos podiam ser clonadas para criar linhas de células estaminais. No entanto, estes esforços só produziram células confinadas a placas de Petri e não macacos plenamente desenvolvidos.

"Até que enfim; pensava que nunca iria acontecer", diz Shoukhrat Mitalipov, diretor de Centro de Células Embrionárias e Terapia de Genes da Universidade de Saúde e Ciência do Oregon. Mitalipov não esteve envolvido no estudo, mas já tinha trabalhado em projetos de clonagem de macacos.

PORQUE É QUE É TÃO IMPORTANTE?

Em 1996, a ovelha Dolly tornou-se o primeiro mamífero clonado através de uma técnica chamada transferência nuclear de células somáticas. Ao contrário da divisão de embriões, que só pode dar origem a algumas cópias, este método pode teoricamente produzir um número indefinido de clones de um único dador. Os investigadores poderão assim fabricar populações configuráveis e geneticamente uniformes de animais com potencial para a investigação biomédica.

Desde então, os cientistas clonaram mais de 20 espécies — de vacas a coelhos e cães — usando esta técnica, mas o trabalho dos investigadores chineses marca a primeira vez que primatas não humanos são clonados, com sucesso da mesma forma. Trata-se de algo muito importante, porque a técnica de clonagem neste estudo poderá aplicar-se a outros primatas, entre os quais os humanos. No entanto, os autores do estudo salientam que não têm intenção de clonar humanos.

COMO É QUE ESTE MÉTODO DE CLONAGEM FUNCIONA?

Em animais como as ovelhas e os macacos, os espécimes têm, dentro de cada célula, um feixe chamado núcleo, que contém uma cópia do seu código genético único. A transferência nuclear de células somáticas envolve a delicada transferência do núcleo da célula de um animal para o óvulo de outro animal.

Depois, estimulam quimicamente o óvulo para que se desenvolva como se tivesse sido fertilizado naturalmente. Se este embrião atingir um certo estágio de desenvolvimento, os cientistas poderão então implantá-lo num hospedeiro. Se o procedimento for bem-sucedido, o hospedeiro irá engravidar e dar à luz um animal geneticamente idêntico ao dador do núcleo.

PORQUE É QUE FOI PRECISO ESPERAR TANTO TEMPO PARA CLONAR PRIMATAS DESTA FORMA?

O processo completo não é tão simples como retirar um núcleo de uma célula da pele, colocá-lo num óvulo e esperar que forme um clone sem problemas. À medida que as células embrionárias se diferenciam na pele, nos músculos e noutros tecidos, o ADN é transferido, agrupado e codificado de forma que apenas genes específicos são expressos num dado tipo de célula. É um pouco como ler um livro de aventuras, em que somos nós que determinamos 0 enredo e colamos a páginas que passámos à frente.

Para aumentar as possibilidades de sucesso, os investigadores têm de ajeitar o ADN do núcleo do dador para que se pareça com o ADN de um jovem embrião. Fazer este relógio genético andar para trás requer protocolos químicos complexos que têm de ser afinados para cada espécie diferente. Em parte, é por isto que a clonagem de macacos há muito se mostra elusiva. A equipa chinesa tentou várias versões do método até que um tenha funcionado, diz o coautor Qiang Sun, diretor do Serviço de Investigações de Primatas Não Humanos do Instituto de Neurociência da Academia Chinesa de Ciências.

A equipa de Sun banhou temporariamente os óvulos de clones em Trichostatin A, um composto que ajudou a assegurar que o ADN do dador não se agrupava. Além disso, estimularam os óvulos para produzirem enzimas capazes de abrir certos códigos químicos do ADN do dador, libertando genes embrionários que estavam fechados. Os investigadores tentaram também criar clones de células adultas e fetais, mas só os clones derivados das células fetais sobreviveram. Pensa-se que as células fetais estavam menos “solidificadas” nos seus tipos de células do que as células adultas, mas, uma vez que as células fetais, eram diferenciadas, também necessitavam de reprogramação.

E CLONAR MACACOS PORQUÊ?

Os investigadores dizem que pretendem usar esta técnica para procriar macacos para investigação biomédica. Cópias genéticas exatas do mesmo animal reduziriam a variabilidade dos resultados na testagem de novos medicamentos ou outras terapias.

"A barreira técnica da clonagem de espécies primatas, incluindo humanos, acabou de ser derrubada", diz o coautor do estudo Mu-Ming Poo, que dirige o Centro de Excelência em Ciência Cerebral e Tecnologias da Inteligência da Academia Chinesa de Ciências. "No entanto, a razão por que decidimos derrubar esta barreira é a produção de modelos animais que sejam úteis para a medicina humana. Não há intenção de aplicar este método a humanos."

Koen Van Rompay, virologista no Centro de Investigação de Primatas da Califórnia, considera que aqueles clones seriam úteis a longo prazo: "Se houvesse uma forma eficiente de clonar macacos, poderia reduzir-se o número de macacos necessários para responder a uma determinada questão científica", afirma.

Van Rompay e Mitalipov advertem, porém, que os benefícios terapêuticos prometidos poderão não estar já ao virar da esquina. Em primeiro lugar, a técnica não lhes parece particularmente eficiente. Das 21 tentativas de clonagem da equipa com células fetais do dador, apenas duas tiveram como resultado nascimentos saudáveis. Além disso, Zhong Zhong e Hua Hua têm apenas dois meses de idade. Os investigadores ainda não sabem se vai haver doenças que os irão afetar mais tarde como resultado de terem sido clonados.

"É apenas um passo", diz Van Rompay. "Não estamos preparados para clonar macacos em grande escala."

MAS É ÉTICO CRIAR CLONES?

A utilização de primatas não humanos como animais de laboratório é alvo de discussão há muito tempo. Os grupos de defesa do bem-estar animal consideram as experiências em primatas não humanos cruéis, exatamente devido às semelhanças que estes animais têm com os humanos. Além disso, mostram preocupação em relação à própria clonagem, realçando os abortos, os ambientes sociais estéreis, a ameaça humana e outros fatores de tensão não naturais.

"Parece que os animais são mercadorias dispensáveis para nós usarmos como quisermos", diz Kathleen Conlee, vice-presidente de questões de investigações animal na Humane Society dos Estados Unidos.  "Será correto ter um animal com o qual possamos fazer o que queremos? ... Cria uma dinâmica infeliz sobre a forma como tratamos os animais em geral."

A China, em particular, enfrenta um forte escrutínio em matérias relacionadas com o bem-estar animal, uma vez que não tem leis abrangentes contra a crueldade para com os animais. Os autores do estudo afirmam que as instalações onde trabalham respeitam as normas de bem-estar animal definidas pelos Institutos Nacionais de Saúde dos EUA e que se preocupam com o bem-estar dos macacos.

É possível que os avanços na genética e na modelação informática venham a limitar a necessidade de macacos de laboratório, diz Eliza Bliss-Moreau, neurocientista comportamental no Centro de Investigação de Primatas da Califórnia. "A tecnologia desenvolveu-se imenso na última década", afirma. "Algumas das questões que pensávamos que seriam alvo de clonagem em neurociência comportamental, já foram resolvidas de outras formas."

Mas muitos investigadores de biomédica insistem que os modelos primatas continuam a ser necessários para estudar doenças e disfunções humanas complexas, da doença de Parkinson ao VIH/SIDA, passando pelo autismo. “Acho que nunca haverá forma de podermos evitar usar primatas não humanos na investigação biomédica”, diz Van Rompay. “Se acontecer, será ótimo, mas, por agora, os modelos in-vitro e informáticos não são suficientes.”

Jeffrey Kahn, bioeticista da Universidade Johns Hopkins e especialista na utilização de primatas na investigação biomédica, diz que as questões que este novo estudo levanta são complexas: “Deveríamos investir nisto ou em órgãos num chip? Acho que não é assim tão simples.”

O QUE É QUE ISTO SIGNIFICA PARA A CLONAGEM DE HUMANOS?

Em suma, este estudo sugere que a clonagem de humanos seria tecnicamente possível numa questão de meses ou anos. “O génio saiu da lâmpada” diz Jose Cibelli, especialista em clonagem da Universidade do Estado do Michigan, que não esteve envolvido no estudo.

No entanto, a possibilidade de a clonagem reprodutora humana avançar é uma questão completamente diferente. Todos os cientistas entrevistados salientam que, atualmente, a clonagem humana seria desnecessária e irresponsável. “Não existe nenhuma razão para clonar humanos no momento presente”, diz Poo. “Tem de haver discussão internacional sobre a matéria.

Jeffrey Khan também clama por uma discussão global: “O que deveremos fazer acerca do tema — sociedades, países, órgãos de supervisão, governos?” pergunta. “Que tipo de supervisão consideramos necessário para impedir que aconteçam coisas nefastas para os humanos no contexto de uma tecnologia como esta?  

O QUE SE SEGUE?

A equipa de investigação chinesa assegura que irá monitorizar a saúde a longo prazo de Zhong Zhong e Hua Hua, bem como o desenvolvimento cerebral do par. Os coautores indicam ainda que o Governo de Xangai apoia fortemente a investigação e está a avaliar os planos de expansão do laboratório, que poderá vir a ser dez vezes maior. Além disso, manifestaram ter esperança de que a sociedade chinesa — cuja visão do que é o bem-estar animal está a mudar rapidamente — continue aberta à realização de investigação em primatas não humanos.

“Com todos estes avanços, bem como com elevados níveis de consciência ética, penso que a sociedade chinesa aceita este trabalho”, diz Poo. “Espero que as sociedades dos países ocidentais o percebam quando demonstrarmos a utilidade da clonagem de macacos para curar doenças e comecem gradualmente a mudar de opinião.”

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