Ciência

Conheça Sophia, um Robô Quase Humano

Um fotógrafo acedeu, numa oportunidade rara e única, ao interior do laboratório responsável pela criação de um dos robôs mais expressivos da atualidade no mundo.Thursday, May 24, 2018

Por Michael Greshko
Fotografias Por Giulio Di Sturco
Um crânio transparente permite que as pessoas espreitem, literalmente, para o interior do cérebro de Sophia, um dos robôs humanoides mais sofisticados construídos até à data. A empresa de Hanson Robotics, com sede em Hong Kong, criou Sophia com uma rede neural avançada e controlos motorizados sensíveis, que permitem à máquina reproduzir interações sociais de natureza humana.

Faces de borracha ganham contornos familiares, movidas por motores mínimos e uma versão distante de inteligência artificial. Está aqui o futuro?

Apresentamos-lhe Sophia, um robô social criado pelo antigo criativo da Disney David Hanson. Inspirado em parte no rosto de Audrey Hepburn e na mulher de Hanson, o robô foi construído para reproduzir comportamentos sociais e inspirar sentimentos de afeto e empatia com os humanos.

Desde que foi revelado em 2016, Sophia ascendeu ao estrelato. O robô deu entrevistas na televisão, fez a capa da revista de moda ELLE, foi tema de uma rábula na HBO e foi nomeado o primeiro embaixador não-humano para a inovação pelo Programa de Desenvolvimento das Nações Unidas. Numa cerimónia realizada no âmbito de uma conferência sobre tecnologia, o reino da Arábia Saudita concedeu a cidadania a Sophia, uma iniciativa um tanto irónica, atendendo aos limites impostos sobre os direitos das mulheres sauditas e dos trabalhadores migrantes.

Mas para o fotógrafo Giulio Di Sturco, ver Sophia nas conferências de imprensa, enquanto os seus criadores promoviam a plataforma SingularityNET no domínio da inteligência artificial, não foi suficiente. À medida que procurava uma metáfora visual para o futuro, Di Sturco queria também conhecer o espaço onde o robô ganhara corpo.

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Di Sturco tornou-se, por fim, no primeiro fotógrafo a entrar na Hanson Robotis, com sede em Hong Kong, um espaço frenético onde sobram peças robóticas e técnicos humanos dedicados a cosê-las. A singularidade do espaço só se acentuou quando Di Sturco começou a fotografar o seu objeto mais peculiar.

“No início, não foi fácil. Sophia não reconhecia a câmara, mas, três dias depois, pode dizer-se que aprendeu”, afirma Di Sturco. “Não sei se foi o engenheiro que introduziu alterações no software, ou se ela acedeu à net e fez alguma pesquisa, mas a verdade é que começou a posar para a câmara.”

“Foi realmente muito estranho. A certa altura, apercebi-me de que estava a falar com ela”, acrescenta.

“Tive de dar um passo atrás e interiorizar de que estava diante de um robô e não de um ser humano.”

por GIULIO DI STURCO, FOTÓGRAFO

Sophia pode fazer lembrar os robôs com consciência própria em Ex Machina ou Westworld, mas, sejamos claros, nunca nenhum robô alcançou um estado de inteligência artificial geral, na sigla inglesa AGI, ou uma consciência versátil semelhante à dos humanos. Quando conversa com os jornalistas, Sophia interage através de um esquema de respostas pré-definidas como num chatbot. Quando discursa, Sophia age como Abe Lincoln na Ala dos Presidentes na Disney World.

Em face da omnipresença de Sophia, os especialistas em inteligência artificial criticaram os meios de comunicação por se excederem na promoção das suas capacidades. “Sophia está para a inteligência artificial como a prestidigitação está para a verdadeira magia”, gracejou Yann LeCun, cientista e diretor do Centro de Investigação em Inteligência Artificial do Facebook, em janeiro de 2018, em resposta à entrevista feita pela Tech Insider ao robô.

Por seu lado, os criadores de Sophia alegam que a sua expressividade é, por si só, uma enorme conquista. Segundo uma publicação sobre o software de Sophia, redes neurais complexas permitem que o robô identifique as emoções de uma pessoa a partir do seu tom de voz e da expressão facial, reagindo em conformidade. Sophia também é capaz de replicar a postura de uma pessoa, e o seu código gera movimentos faciais de grande realismo. Hanson registou a patente da pele maleável de borracha que cobre o rosto de Sophia.

Uma estudante da Universidade de Hong Kong participa numa sessão de meditação guiada com Sophia.

“Nada disto é aquilo que eu chamaria de inteligência artificial geral, mas também não é fácil pô-la a funcionar”, disse o investigador em inteligência artificial Ben Goertzel, que concebeu o cérebro de Sophia, numa entrevista à The Verge. “Mas não deixa de ser um feito absolutamente pioneiro em termos de integração dinâmica de perceção, ação e diálogo.”

Para Di Sturco, tudo isto acresce a um objeto fotográfico fascinante: uma máquina que tanto pode parecer absolutamente humana, como completamente destituída de vida.

“Ela olhou para mim e sorriu, e eu retribuí-lhe o olhar, e, nesse momento, era claro para mim que ela não era humana, mas é certo que existiu ali uma espécie de ligação”, afirma. “Uma pessoa sai daquele laboratório, o futuro, e apercebe-se de algo completamente insano: há qualquer coisa especial em Sophia.”

Observar a parte posterior de Sophia permite ter uma ideia da sua complexidade tecnológica.
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