Ciência

Mistério Sobre Múmia Parecida com Extraterrestre Foi Resolvido

Os investigadores esperam que este novo estudo encerre o debate sobre as origens de Ata, uma criança mumificada naturalmente, encontrada no deserto do Chile. Terça-feira, 8 Maio

Por Erika Check Hayden

Ata tem apenas quinze centímetros de comprimento, uma cabeça cónica e ossos, invulgarmente, fortes para o seu tamanho. Alguns defendem que é um ser extraterrestre, mas um novo estudo publicado na revista Genome Research não só rejeita a teoria do extraterrestre, como também apresenta uma explicação científica para a sua aparência, alegadamente, alienígena.

O debate começou em 2003, quando os restos de Ata, mumificados naturalmente, foram descobertos perto de uma cidade-fantasma no deserto de Atacama, no Chile. Um empresário espanhol, Ramón Navia-Osorio, adquiriu a múmia e, em 2012, autorizou que um médico chamado Steven Greer analisasse o seu esqueleto através de imagens obtidas por radiografia e tomografia axial computadorizada, vulgo TAC.

Greer é o fundador do Disclosure Project, que está a “trabalhar para revelar toda a verdade dos factos sobre os OVNI’s, inteligência alienígena, energia avançada e sistemas de propulsão secretos,” segundo a sua página web.

Ata não tem mais do que o comprimento de um feto humano. Contudo, um radiologista, que analisou as imagens, afirmou que os ossos de Ata eram tão desenvolvidos quanto os de uma criança de seis anos.

DESCUBRA O DESFECHO DE 140 CRIANÇAS NO PERU

Na altura, Greer entregou ao imunologista Garry Nolan da Universidade de Stanford, em Palo Alto, na Califórnia, amostras da medula óssea de Ata. A equipa de Nolan obteve a sequência de ADN de Ata e concluiu que o seu material genético era o de um ser humano e não de um alienígena, sem que soubesse explicar, porém, como é que uma pessoa tão pequena podia apresentar uma fisionomia tão invulgar.

“Uma vez confirmado que estávamos perante um humano, o passo seguinte seria perceber como é que alguém podia ter aquela fisionomia,” explica Nolan.

Nolan trabalhou, em colaboração, com investigadores genéticos, em Stanford, e com a equipa do biólogo computacional Atul Butte da Universidade da Califórnia, em São Francisco, para analisar o genoma de Ata. Segundo o novo estudo, os investigadores identificaram mutações em sete dos genes de Ata, que estão envolvidos no processo de desenvolvimento humano. Nolan acredita que esta combinação de mutações terá sido responsável pelas graves anomalias esqueléticas de Ata, incluindo o invulgar crescimento dos seus ossos. Nolan afirma que Ata será, muito provavelmente, um feto humano, que terá nascido morto ou falecido pouco depois de nascer.

Mas, para aqueles que acreditam que Ata é um ser extraterrestre, nem as novas evidências científicas os fazem mudar de opinião.

ESTES PODEM SER OS MAIORES INDÍCIOS DE EXTRATERRETRES NA TERRA

“Nós não sabemos o que é, mas não é, com toda a certeza, um ser humano deformado,” defende Greer, que está ao corrente da investigação levada a cabo por Nolan.

Os cientistas dizem, porém, que, à luz dos novos estudos, chegou o momento de enterrar a controvérsia em torno de Ata.

“A mediatização de Ata foi pseudociência idiota promovida para chamar a atenção dos media,” afirma o paleoantropólogo e anatomista William Jungers, um professor emérito da Universidade de Medicina de Stony Brook. “Este estudo acaba, definitivamente, com o disparate e permitirá que a pequena Ata descanse em paz.”

Os médicos que tratam crianças com doenças ósseas raras, de origem genética, acreditam que este debate é a prova de como arqueólogos e outros cientistas podem ser induzidos em erro por doenças genéticas responsáveis por características físicas invulgares. Por exemplo, o geneticista Fowan Alkuraya remete para a controvérsia em torno dos hobbits, pequenas criaturas que foram descobertas há 15 anos na Indonésia. Os cientistas ainda estão envolvidos num debate sobre se estes seres diminutos são parentes do homem contemporâneo ou se são, simplesmente, humanos com um tamanho, invulgarmente, pequeno.

“Este estudo serve para lembrar a natureza exótica de muitas doenças genéticas,” afirma Alkuraya, um geneticista do Hospital e Centro de Investigação King Faisal, em Riade, na Arábia Saudita.

Todos os humanos, incluindo Ata, podem sofrer diferentes mutações genéticas. Mas, geralmente, apenas uma dessas mutações é responsável pela doença de uma criança. É “praticamente inédito” pensar numa doença que decorra de sete mutações, afirma Alkuraya. Ele acredita que uma ou, no máximo, duas mutações tenham estado na origem dos problemas de crescimento de Ata.

ESTE ADN REVELOU UM PRIMO DOS HUMANOS COM MAIS DE 40 000 ANOS

Nolan discorda. “Aquela pobre criança arriscou, jogou e perdeu,” afirma.

Mas seria difícil, senão impossível, identificar qual das anomalias genéticas de Ata esteve na origem dos seus sintomas. Isto porque os cientistas não dispõem de quaisquer dados sobre os familiares de Ata. Se tivessem acesso ao ADN dos pais de Ata, por exemplo, poderiam verificar que mutações estariam também presentes no seu pai e na sua mãe. Seja como for, qualquer uma das mutações de Ata que estivesse presente no ADN dos seus progenitores seria, por certo, assintomática, porque, ao contrário de Ata, os seus pais viveram o tempo suficiente para conceber um bebé.  

Embora não se saiba nada sobre os pais de Ata, Nolan acredita que alguém cuidou dela, quando morreu há cerca de 40 anos. Ele destaca a forma como o corpo de Ata estava, cuidadosamente, estendido no solo, envolvido numa bolsa de couro.

“Não se desfizeram, simplesmente, do corpo. Alguém sentiu que era importante. Era o seu bebé,” afirma Nolan.

Tal como Jungers, Nolan deseja que Ata regresse ao Chile e possa descansar, por fim, em paz.

“A meu ver, não deveria ser permitido o tráfico de corpos humanos, sob o pretexto de que são seres alienígenas, apenas com o intuito de ganhar dinheiro,” afirma Nolan.

Erika Check Hayden é diretora do Science Communication Program na Universidade da Califórnia, em Santa Cruz. Siga-a no Twitter.

Continuar a Ler