A Propensão da Mosca da Fruta para o Sexo Abre Nova Perspetiva Sobre a Dependência de Psicotrópicos

Decifrar os mecanismos do cérebro envolvidos no prazer pode auxiliar os cientistas a perceber como ajudar pessoas com comportamentos de adição à heroína e à cocaína.domingo, 27 de maio de 2018

Não há dúvida de que os humanos gostam de sexo. Alguns estudos sobre roedores sugerem que o prazer sexual pode estender-se a outros mamíferos, mas e o resto do reino animal? Uma nova investigação revela que, para o macho da mosca da fruta, o processo de ejaculação pode ser um sinónimo de prazer.

O estudo implica que o prazer sexual pode ocorrer em “organismos simples e não apenas nos mamíferos, como se supunha”, afirma o coordenador do estudo Galit Shohat-Ophir, um neurocientista da Universidade de Bar-Ilan, em Israel.

A investigação anterior levada a cabo por Shohat-Ophir revelou que o macho da mosca da fruta parecia sentir satisfação no ato de acasalamento.

Mas não era claro que parte do processo despertava o entusiasmo do macho: o longo ritual de cortejo, as feromonas libertadas pela fêmea ou a cópula em si.

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Para descobri-la, Shohat-Ophir e os colegas da universidade e do Campus de Investigação de Janelia, na Virgínia, manipularam, geneticamente, machos da mosca da fruta, para que um grupo distinto de células nervosas situadas nos respetivos abdómenes fossem ativadas por uma luz vermelha. Estes neurónios produzem uma proteína, denominada corazonina, que desencadeia o processo de ejaculação.

A equipa colocou as moscas modificadas numa arena e acendeu a luz vermelha num dos extremos. A maioria das moscas dirigiram-se diretamente para a zona da luz vermelha, onde os seus neurónios abdominais foram ativados, levando-as a ejacular.   

"A preferência por aquela zona foi bastante imediata” diz Shohat-Ophir says. "Algumas moscas também se deixaram ficar por ali.”

Numa outra experiência, os investigadores analisaram os cérebros dos insetos modificados. Após alguns dias de estimulações sucessivas dos neurónios que libertam corazonina, as moscas evidenciavam elevados níveis de uma proteína denominada neuropéptido F, que aumenta subitamente em situações de gratificação, como a ingestão de açúcar.

Segundo a investigação anterior de Shohat-Ophir, outro indicador do prazer sexual da mosca da fruta é a sua reação ao álcool. Os machos da mosca da fruta sem atividade sexual preferem uma bebida alcoólica em detrimento de uma sem teor alcoólico, aparentemente como uma recompensa alternativa. Mas, se acasalarem ou se ocorrer a estimulação dos neurónios que libertam corazonina, eles esquivam-se ao álcool. (Ler "Os Animais Ficam Bêbados")

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Segundo Shohat-Ophir, faz sentido que a ejaculação proporcione prazer no geral: a evolução das espécies deve favorecer quaisquer sensações que motivem o acasalamento.

SEXO E DROGAS

David Anderson, um neurobiólogo do Instituto de Tecnologia da Califórnia, concorda com esta explicação. “O acasalamento é essencial à sobrevivência de qualquer espécie, e, por isso, quaisquer mecanismos que reforcem a robustez do acasalamento, enquanto comportamento, serão privilegiados pelo processo evolutivo.”

No entanto, Anderson não está convencido de que as moscas sintam prazer no ato de ejaculação em si e refere, a título de exemplo, que o cérebro tem outro tipo de neurónios que também libertam corazonina e que podem não estar relacionados com o sexo.

Estes neurónios também podem ser ativados pela luz vermelha e produzir um efeito próprio no sistema de gratificação do cérebro, afirma Anderson, que não participou na investigação recente.

Anderson defende que as experiências desenvolvidas pela equipa para provar que o efeito é causado pelos neurónios situados no abdómen são insuficientes.

Mas ambos os especialistas concordam que estes estudos encerram um valor que vai muito além da compreensão da vida sexual dos insetos, tal como decifrar a neurofisiologia de base da dependência de psicotrópicos.

Segundo Anderson, a cocaína e a heroína causam dependência, porque acedem aos centros de gratificação do cérebro, cuja evolução se faz no sentido de induzir comportamentos que assegurem a sobrevivência das espécies, como o acasalamento.  

Se não conseguirmos compreender estes mecanismos do cérebro “num simples organismo como a mosca da fruta”, afirma, “como poderemos compreendê-los num ser tão complexo quanto o ser humano?”.

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