Porque É que Temos Medo de Tubarões? Há uma Explicação Científica.

Os tubarões não são os assassinos impiedosos que nós julgamos.segunda-feira, 18 de junho de 2018

Há algo que se esconde nas águas, e é o terror de nadadores de todo o mundo. É um peixe, que pode chegar a atingir vários metros de comprimento, com diversas fileiras de afiados dentes serrilhados, que usa para prender a sua presa. Há um tubarão no mar.

Os tubarões, e os tubarões-brancos em especial, foram catapultados para as luzes da ribalta com o lançamento do filme Jaws – O Tubarão, no verão de 1975. O filme conta a história de um gigantesco tubarão-branco que aterroriza uma comunidade costeira, e a imagem do cartaz por si só— as mandíbulas abertas de um enorme tubarão, que se ergue na vertical em águas turvas — é suficiente para instilar o medo nos corações de todos os potenciais nadadores. Outros thrillers perpetuaram esta temática dos tubarões como vilões.

Mas de onde surgiu o nosso medo de tubarões? E quando surgiu? Conheça as respostas a estas e outras perguntas já a seguir. 

PORQUE É QUE TEMOS MEDO DOS TUBARÕES?

“A pergunta pressupõe que não deveríamos ter”, diz David Ropeik, consultor de perceção de risco e autor do livro How Risky Is It, Really? Why Our Fears Don't Always Match the Facts.

O medo dos tubarões, ou selachofobia, não é irracional, afirma a bióloga marinha Blake Chapman, especialista em tubarões da Universidade de Queensland, na Austrália. Na verdade, estes peixes predadores são, efetivamente, assustadores. Os tubarões-brancos, por exemplo — a espécie que Hollywood imortalizou como assassina impiedosa —, têm diversas fileiras com até 300 dentes semelhantes a punhais, que, facilmente, dilaceram a presa. Além disso, também conseguem detetar ténues campos eletromagnéticos gerados por outros animais aquáticos, o que os ajuda a encontrar a sua próxima refeição.

Porém, o nosso medo de tubarões não é, necessariamente, incondicional, e há grande diversidade entre estes animais. Há mais de 465 espécies de tubarões conhecidas, que variam em tamanho desde o tubarão (Squaliolus laticaudus) de 18 centímetros ao tubarão-baleia de 15 metros. A maioria destes nadadores cartilaginosos alimenta-se de peixe, crustáceos, moluscos, plâncton, krill, mamíferos marinhos e até de outros tubarões — resumindo, os seres humanos não estão na ementa.

Mais propriamente, diz Ropeik, aquilo que nos aterroriza é a forma como podemos ser mortos por um tubarão. Ser comido vivo por um tubarão-tigre de cinco metros parece ser uma forma bastante dolorosa de perder a vida, e o nosso grande temor é a possibilidade de um ataque de tubarão ser a nossa causa de morte. 

Há uma maior probabilidade de morrermos esmagados por uma máquina de venda automática do nosso escritório, ou por uma vaca que caia sobre nós no campo, do que nos dentes de um tubarão. Mas os nossos medos nem sempre coincidem com os factos, e o medo de ser atacado por um tubarão prende-se mais com uma resposta emocional do que com a realidade.

Acima de tudo, tememos perder o controlo. Se estivermos a nadar em águas povoadas por tubarões, não queremos que as mandíbulas de um predador misterioso selem o nosso destino. 

“A ideia de se ser abocanhado por um animal que tem o controlo é outro fator”, acrescenta Ropeik. “É mais a natureza da experiência, e não tanto o agente em si.”

Veja Como é a Experiência de Nadar Com Tubarões-Tigre

DE ONDE VEIO ESTE MEDO?

O medo não é, necessariamente, algo que nasça connosco, mas sim algo que vamos desenvolvendo com o tempo. As crianças não têm medo de cobras nem de alturas, mas, enquanto adultos, os nossos cérebros tornam-se mais sensíveis a estímulos atemorizadores.

E os nossos antepassados tinham muito que temer. Lembremo-nos de como os primeiros povos viviam nos seus habitats primitivos. Teriam de evitar precipícios e animais selvagens, pois sabiam que essas ameaças lhes podiam custar a vida, e foi isso que lhes permitiu sobreviver. Aprenderam o medo como uma adaptação para se protegerem do perigo.

“O medo é algo que herdámos dos nossos primeiros antepassados”, diz Chapman. “[Os tubarões] são um animal. As entidades biológicas, como é o caso dos animais, são algo que temos grande propensão a recear.”

Nadando com Tubarões Baleia Gigantes no México

OS TUBARÕES SÃO BASTANTE ASSUSTADORES. QUAL A PROBABILIDADE DE UM DELES ME MATAR?

Ao escrever o seu livro, Shark Attacks: Myths, Misunderstandings and Human Fear, Chapman descobriu que o cérebro humano tende a simplificar demasiado os números. Se lhe disserem que há uma probabilidade de um em 3 748 067 de ser atacado e morto por um tubarão, esse número é demasiado abstrato para que o seu cérebro o processe. (Se lhe disserem que o ser humano mata cerca de 100 milhões de tubarões por ano, esse número também poderá ser difícil de processar.)

A probabilidade de se ser comido vivo por um tubarão é irrisória. É muito mais provável ser-se morto por um cão, pela queda de um raio, ou num acidente de viação. O cancro e a doença cardíaca também são causas de morte infinitamente mais comuns.

A reduzida probabilidade de podermos ser vítimas de um ataque de tubarão é irrelevante. Ouvimos a palavra “tubarão” e, instintivamente, pensamos em “ataque de tubarão”.

“Ainda que possamos sentir e interpretar o medo, o sentimento de medo em si está totalmente fora do nosso controlo”, explica Chapman.

OK, MAS O QUE POSSO FAZER PARA LUTAR CONTRA O MEU MEDO DE TUBARÕES?

Há algumas formas de minimizar o medo de tubarões. Pode dar a si próprio a ilusão de controlo, porque quando não estamos no controlo, as coisas parecem mais assustadoras.

Para o conseguir, pode informar-se acerca das espécies de tubarões que habitam nas águas em que vai nadar, ou saber que espécies é que são conhecidas por já ter caçado seres humanos.

Dica de especialista: os tubarões-de-pontas-negras e os tubarões-tecelões por vezes confundem os seres humanos com as suas presas.

Se for nadar em águas límpidas, poderá ganhar a ilusão de controlo se, efetivamente, avistar um tubarão. (Os tubarões-brancos chegam a atingir velocidades dez vezes superiores à média humana, e, como tal, se um destes tubarões investir sobre si, não terá tempo para escapar. Mas é altamente provável que ele acabe por o libertar.)

Para evitar o ataque de um tubarão, pode também aprender a não servir de isco, ao evitar nadar quando estiver a sangrar ou deitado sobre uma prancha de surf. (Tipicamente, os tubarões caçam focas, e, vista debaixo, uma prancha de surf pode ser confundida com uma foca.) Deverá também evitar a pesca submarina, uma vez que os peixes arpoados emitem sinais elétricos, que podem atrair os tubarões.

No caso improvável de ser atacado por um tubarão, os especialistas recomendam que o melhor é defender-se. Chapman aconselha tentar atingi-lo nos olhos ou nas brânquias, se possível. Se conseguir sentir que está no controlo, o perigo parecer-lhe-á menor.

PORQUE É QUE DEVEMOS PREOCUPAR-NOS COM OS TUBARÕES?

Chapman diz que sim, que o número de ataques de tubarão por ano está a aumentar, mas que não é sequer proporcional ao aumento desmedido da população humana. Dos cerca de 80 ataques de tubarão que acontecem por ano, as taxas de mortalidade estão a diminuir, graças aos avanços da medicina e aos melhores tempos de resposta das equipas de socorro.

É difícil contar os tubarões, nota a bióloga marinha, mas, ao que parece, os seus efetivos estão a diminuir. Para satisfazer a procura de sopa de barbatana de tubarão, alguns pescadores na Ásia capturam os tubarões, decepam-lhes as barbatanas e devolvem-nos ao mar para morrer. Além disso, os tubarões são também vítimas de pesca acidental.

Os animais são importantes para as cadeias tróficas oceânicas, e os tubarões mantêm os ecossistemas em equilíbrio. Vários estudos demonstraram que as populações de tubarões podem influenciar a composição das ervas marinhas, bem como a presença de outros animais em determinado habitat. Também estão a ser efetuados estudos em tubarões, tendo em vista tratamentos para o cancro e regeneração de membros.

As vantagens de ter os tubarões nos oceanos ultrapassam largamente as desvantagens.

“São sobreviventes incríveis, evoluíram para sobreviver sob praticamente todo e qualquer fator de stress,” conclui Chapman.

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